Um affair inglês, por Alexandra Lucas Coelho

Começo o ano a caminhar no Cemitério Britânico. Todas as manhãs, antes de me sentar ao computador, desço a São Bento, subo a calçada mais íngreme, e lá está ele, como se Lisboa ficasse à porta: um jardim, tão diferente dos cemitérios portugueses. NO artificial flowers, please, diz uma placa.
Chove desde o início do ano, o que parece fazer parte do plano divino: túmulos brilhantes, caminhos de musgo fofo entre Colemans e Bonnevilles, Gildemeesters e Popes; o ilustre Henry Fielding que veio tuberculoso mas ainda fez livros; gente que nasceu em Sheffield ou Montevideu há duzentos anos e acabou em Lisboa; mortos em duelo, em combate, de um achaque; amores, traições, ódios, tédios; a suprema excitação de imaginar outra vida. Todos na mesma cidade e jamais nos tínhamos cruzado.
Na Amazônia, o xamã é um canal para diferentes reinos. Não se trata de ser possuído, como no xamanismo africano, mas de traduzir. Foi assim que passei a ver o narrador do romance que nunca mais acabo de escrever. Quem sabe é ele que me traz aqui. Um jardim com muitas portas.

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E outra língua. Porque dei por mim a escrever algo em inglês, como um affair paralelo. Uns parágrafos, uma página, sempre que chego do cemitério e antes de voltar ao romance. Roland Barthes disse que chega um ponto em que precisamos de outra língua.
Mas ainda não sei o que seja o tal texto. Nasceu do livrinho à venda no átrio da igreja do cemitério, mesmo quando ela se encontra fechada, o que até agora aconteceu todas as manhãs: History of the Lisbon Chaplaincy. Os exemplares ficam empilhados junto a uma caixinha de metal com uma ranhura, e a indicação de que cada um custa €3. Ninguém está lá para vigiar, sempre vi o átrio deserto, basta empurrar a porta de vidro, deixar o dinheiro e sair. Foi o que fiz na primeira manhã.

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A última página desse livrinho explica que o diabo do Apocalipse é um dragão e St. George aquele que o conquista. Claro que em Lisboa seria São Jorge, o mesmo que dá nome ao castelo, mas esta igreja é um pedaço de Inglaterra dentro de Lisboa. Uma igreja anglicana com vitrais desenhados em Londres no século XIX por mestres do revivalismo gótico (Lavers, Barraud & Westlake). Não há como lhe chamar igreja de São Jorge. É St. George’s.
As peripécias da igreja só são superadas pelas do cemitério à sua volta, sonhado desde que Portugal existe. Aliás, ainda Afonso Henriques não arrancara a nação aos árabes, já os ingleses estavam cá a ajudá-lo, e morriam, e queriam ser devidamente enterrados. Se a primeira tentativa para conquistar Lisboa falhou, à segunda vieram 13 mil cruzados dar uma mãozinha, entre eles ingleses de Norfolk e Suffolk, Londres e Kent, comandados por nobres com nomes como Hervey de Glandville.
A isto se seguiram várias alianças anglo-lusas, incluindo casamentos de princesas inglesas com reis portugueses (Philipa of Lancaster & João I), bem como de princesas portuguesas com reis ingleses (Catarina de Bragança & Charles II). A comunidade britânica de mercadores foi crescendo, e com ela a urgência de chão sagrado, de culto próprio, apesar da Inquisição. Até que em começos do século XVIII, quando a fogueira dos heréticos abrandou, os ingleses fincaram a sua fé na Estrela, ali por cima dos pomares de um mosteiro beneditino, hoje o Palácio de São Bento, sede do parlamento. Aguentaram o Grande Terramoto de 1755, um sismo posterior fez estragos, um ciclone arrancou árvores, a primeira igreja foi-se num incêndio. Mas com as mesmas pedras fizeram a actual.

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Enfim domingo: St. George’s abriu, revelando um pequeno parque infantil na antecâmara da nave. Quando cheguei, antes da missa, já havia crianças entretidas e meia dúzia de fiéis à espera. Deixei-os para ir ao meu cross diário entre os túmulos. Novas folhinhas brotavam das sebes, tenras, claras. No meio de uma passagem estreita, a visão de um anjo parou-me. Era um pequeno anjo, ajoelhado na terra, com as mãos postas, de costas para os visitantes, de frente para uma cruz de pedra. Tinha um decote de ombro a ombro, rematado por um folho, um pouco descaído, quase sexy. A terra onde se ajoelhava estava tão densamente coberta de folhas que o corpo e as mãos imergiam no verde.
Na minha ignorância de cemitérios britânicos, eu não conseguia perceber se aquilo era de facto uma campa. Ficava no meio de campas com o mesmo tamanho, e igualmente cobertas de folhas, mas, ao contrário de outras, a cruz em frente ao anjo não tinha nomes nem datas. Só uma planta esculpida na pedra, em alto relevo. Uma cruz florida, como outras imitam troncos. Contornei-a, mas atrás também não havia inscrições. Pequenos pássaros pretos levantaram-me os olhos para as copas, muitas. Ocupada por um narrador xamânico, é possível que também a ideia de floresta me atraia a este cemitério, mas as árvores aqui nada têm de Amazônia. Há dias, o jardineiro que vem três vezes por semana deu-me o elenco: olaias, dragoeiros, ciprestes, palmeiras, cedros, jacarandás, oliveiras, abrunheiros, loureiros, lódãos, ligustros e os pitosporos que dão aquela flor branca perfumada, mal o fúcsia das olaias começa a desaparecer. Costumava ser pelo fim de Março, começo de Abril. Agora que as águas sobem, o mundo derrete, quem arrisca? Mesmo assim, restam palmeiras além das que sucumbiram, como tantas em Lisboa, à grande praga de há dois ou três anos.
E que elegantes sempre estão os ciprestes, de Inverno, de Verão, pensei, junto ao anjo decotado, que não sei se era ele ou ela.
Então, a porta de St. Georges’s rangeu e corri para apanhar a saída da missa.

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Nesse mesmo domingo, algures do outro lado do oceano, o coração de David Bowie parou. Foi a maior surpresa na Terra que ele pudesse morrer enquanto ainda estávamos vivos. Talvez eu ainda estivesse debruçada sobre o anjo andrógino, talvez já sentada em casa. Um segundo aparentemente igual ao anterior e ao seguinte.
Nessa noite, passei de carro com um amigo pelos muros do Cemitério Britânico e perguntei-lhe:
— Já alguma vez entraste aqui?
Ele olhou para mim, espantado:
— Não te lembras?!
Então lembrei-me. Lembrei-me de que nessa manhã de domingo, ao entrar em St. George’s, pensara: esta parece a igreja onde o Lee Ranaldo dos Sonic Youth tocou uma noite, à luz de velas. E afinal não parecia, era. Eu tinha estado lá, sentada como numa cerimónia, e depois esquecera, porque aquele lugar à noite não era aquele lugar de manhã. À noite, chegando para ouvir música, eu não distinguira os túmulos. Mas, passando pelos muros, de noite como no concerto, e sendo a noite da morte de David Bowie, tudo fez um sentido.
A música é o mais próximo que temos de um xamã.

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Há outros anjos no jardim. Alguns estão ligados aos túmulos por correntes. A imaginação toca o além, no Cemitério Britânico.
O livrinho da sua história conta mesmo que, quando Duarte Pacheco, ministro da ditadura de Salazar, insistiu em fazer a estrada frente ao cemitério, foi preciso mudar 35 túmulos judeus, apesar de uma “velha superstição” dizer que quem toca num túmulo judeu pode sofrer “morte violenta”. Ora, “por estranha coincidência”, Pacheco morreu um ano depois, num acidente de carro.

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— Hellooo — diz uma senhora à entrada do cemitério, quando vou a sair, na manhã seguinte.
É a primeira vez que a vejo, pelo menos que reparo, mas nos outros dias choveu, talvez estivesse dentro da casinha de madeira que ali há. Não vem todos os dias porque custa manter o jardim, os túmulos, a igreja. Além de não receberem fundos oficiais, a comunidade está a ficar pequena, explica ela.
Parece saída do campo inglês. Do Yorkshire, decido eu, embora nunca tenha ido ao Yorkshire. E, portanto, logo de seguida penso que tenho de ir ao Yorkshire, pelo menos ao Monte dos Vendavais.
Este affair com os mortos, é só questão de começar.

Alexandra Lucas Coelho

(imagem: facebook Alexandra Lucas Coelho)