Gonçalo M. Tavares

Entrevista exclusiva

Somos Livros (SL)  – Passaram 15 anos desde a publicação do seu primeiro livro (“ Livro da dança“). Parece que foi ontem ou já passou uma eternidade?

Gonçalo M. Tavares (GMT) -É pouco tempo. Mas aconteceu muita coisa muito surpreendente. Saíram muitos livros muito diferentes entre si, e todos os livros, sem excepção, encontraram os seus leitores fortes. Os livros são quase todos de um mundo híbrido e não se colocam em géneros literário pré-definidos. Daí que tenha sentido necessidade do os colocar em mundos – investigações, canções, bairro, Enciclopédia. Gosto da ideia de os livros serem animais únicos, muitas vezes sem pertença a uma espécie. E fico contente que estes livros híbridos – por vezes com desenhos ou fotografias, por vezes entre ensaio, ficção e poesia – tenham encontrado belos leitores.

SL – A sua escrita é composta por diversos universos, com este livro inicia uma nova série. O que podemos esperar deste novo universo?

GMT – Este é o primeiro livro de um mundo a que eu chamo de Mitologias.  As personagens que aqui aparecem estarão presentes noutros livros; outras personagens serão também centrais nesses outros livros. Será um mundo extenso, e com uma lógica própria. Vejo-o como um mundo paralelo ao do Reino (dos livros Um homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém, Aprender a rezar na era da técnica) um mundo paralelo que se encontra num lugar imaginário.
É um mundo narrativo acelerado. Em que a acção avança arrastando as personagens. A acção transforma-se no destino, e as personagens meio míticas, meio disformes, são arrastadas por esse destino. Não há explicações nem causas muito concretas para os acontecimentos. A narrativa avança com a energia do contador de histórias que não quer ficar pelos limites da realidade.

SL – Há um texto seu, sobre o autor Philip Roth, onde utiliza um mito para explicar os conflitos do amor filial. A mitologia tem uma grande importância, que este livro vem reforçar, na sua narrativa?

GMT – Sim. Estas Mitologias não têm espaço nem tempo definidos. Os tempos estão mesmo em colapso, e o real e o impossível muitas vezes estão misturados. Factos históricos, reais, podem estar ligados a acontecimentos impossíveis. Factos do século XV podem aparecer depois do século XX.
Há tangentes à realidade, mas é mesmo um mundo paralelo: não quer explicar a História – é uma narrativa paralela à História – uma narrativa que não tem de obedecer a regras e a condicionantes do corpo e da lógica sequencial.
Este mundo das Mitologias, paralelo ao Reino, é um universo claramente não real, um mundo impossível, mas que ganha uma lógica interna, regras próprias.
Há aqui um mundo também da fábula, da repetição. Interessa-me a repetição do conto infantil perverso. A repetição tranquiliza, mas também pode servir para inquietar. Vemos isso nas canções de embalar repetidas, sem qualquer variação – e que acalmam e, depois, no campo oposto, observamos ameaças, talvez as mais terríveis, que não se mexem, não se alterem – estão como que suspensas por cima da nossa cabeça. Entre uma invasão e uma ameaça suspensa e imóvel, esta última aterroriza mais. Podemos ficar petrificados durante anos por causa de uma ameaça constante que nunca se chega a manifestar. Diante de uma invasão, pelo menos o ser humano pode lutar. A repetição pode então servir para uma coisa ou outra – para acalmar ou inquietar. E isso interessa-me muito.

SL – “”A lucidez muitas vezes é ver o lado escondido do humano.” Foi com muita lucidez que embarcou nesta aventura de escrever esta série Mitologias?

GMT – Interessa-me a lucidez, mas também o imaginário onde se aumentam as possibilidades da realidade. Aliás, o imaginário aumenta a lucidez, percebe-se melhor o que está a acontecer. O imaginário passa muito pela construção de outras possibilidades. A quantidade de impossível é, apesar de tudo, maior do que a quantidade de possível. E, por isso, interessa-me também a lucidez que surge depois de uma cabeça pensar no que não é possível. Os obstáculos dão uma densidade à lucidez, parece-me.
No caso de A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-de-mau-olhado interessava-me muito uma mitologia que coloca em movimento homens, mulheres, animais, elementos naturais e máquinas – ficando tudo no mesmo plano. Objetos, animais, máquinas podem ser personagens; um acontecimento pode ser uma personagem.
E neste A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-de-mau-olhado, nestas Mitologias, os acontecimentos aparecem, são aparições – isso mesmo, não necessitam de explicações prévias, nem de consequências explícitas. Há acontecimentos que arrastam personagens atrás e quem relata tenta descrever alguns acontecimentos deixando muito espaço vazio. Não há explicações, há um conjunto de acontecimentos – mas para cada um dos acontecimentos da história há muitas interpretações possíveis.

SL – Qual dos seus personagens tem mais do seu ADN?

GMT – Não consigo responder a isso. Acho que as máquinas são personagens centrais nestas mitologias e essas têm, talvez, o ADN do século. Esta mistura que aqui existe tem muito a ver com o nosso século XXI. Com esta colocação da máquina ao nosso lado: um novo animal doméstico, a máquina. E nestas minhas mitologias queria perceber isso – as máquinas como a nova espécie metálica que aí está para assustar crianças e adultos. Mas apesar de tudo, os homens continuam a ser os que mais assustam.

SL – Numa das suas últimas entrevistas diz que a escrita é animalesca. Animalesca como? Quer explicar-nos?

GMT – Animalesca no sentido de não planeada, talvez, e da tendência para a mistura, para a fusão. Por exemplo, nestas mitologias há uma energia instintiva que não separa o mundo através das taxinomias normais. Interessa-me que a escrita, neste caso das Mitologias, trate um Poço como uma máquina ou como um adulto – são tudo elementos da narrativa, que podem agir. Um objecto pode agir, uma máquina pode ter os seus objectivos bem concretos, pode ter fome e raiva. E sim, a máquina aí está como um novo elemento das mitologias contemporâneas. E o que procuro aqui neste mundo é um pouco isso – no século XXI, como é que os velhos medos, como o medo do mau olhado ou dos humanos sem cabeça se liga aos novos medos – o que pode acontecer se a máquina avariar, explodir.
Interessa-me também o modo de contar das histórias tradicionais, as fábulas, o suspender da realidade. Centrar mesmo na narrativa, no acontecimento.

SL – Virgínia Woolf (Diário, 21 de Abril de 1928), diz  ‘no entanto a única vida que me entusiasma é a vida imaginária’. Nos dias que correm, o que nos salva: a realidade ou a ficção?

GMT – Nada salva; temos de nos aguentar – e isso já não é mau. Mas essas são duas hipóteses de salvação temporária, sim. O exterior e o mundo acelerado da nossa cabeça. É melhor ter duas hipóteses de salvação, mesmo que temporárias, do que só uma. E quem não tem imaginação e mundo ficcional ou quem não alimenta isso com leituras, de alguma maneira perde uma das hipóteses que o humano tem de dar um passo ao lado. De em parte sobreviver pela imaginação.

SL – Tem fama de cerebral e  há uma serenidade constante no seu rosto, voz e movimentos. Será que, como em Kafka, há ‘um mundo prodigioso’ dentro da sua cabeça, um furacão de histórias por contar?

GMT – A cabeça é realmente um mundo à parte. Gosto muito de andar, e ando muito porque é como se abandonasse os pés e as pernas – eles que caminhem para onde quiserem, e a minha cabeça pode então seguir o seu percurso por outro lado, saltar à vontade. A velocidade das nossas cabeças, do nosso imaginário, as associações estranhas que fazemos entre imagens de mundos diferentes – isso sempre me fascinou. Não se percebe. Cada cabeça tem uma forma diferente de pensar. É mesmo um mundo autónomo – o que faz uma cabeça pode nada ter a ver com o que fazem as mãos ou os pés no mesmo instante.

SL – O que o emociona, hoje em dia?

GMT – Na vida, muita coisa, muita. E há dois filmes que me emocionam sempre, ao limite: A Palavra de Carl Dreyer e How green was my valley de John Ford.

SL – ‘Entre nós e as palavras há metal fundente / entre nós e as palavras há hélices que andam /e podem dar-nos a morte há palavras de vida há palavras de morte / há palavras imensas, que esperam por nós / (…) (You are welcome to Elsinore, Mário Cesariny, in Pena Capital). O que há entre si e as palavras?

GMT – Não sei responder, é uma relação estranha, muito física. Nos dias de escrita forte, escrevo tendo duas ou três ideias escritas no papel e começo, lentamente, a escrever algo no computador e fico depois três quatro horas sem parar, sem levantar a cabeça, num movimento meio animalesco mesmo. Um amigo muito querido, o Marco Martins, uma vez filmou-me a escrever, para um documentário. Deixou a câmara parada durante uns dias e eu esqueci-me dela. As imagens são muito assustadoras. Parece mesmo um bicho a escrever, debruçado sobre o teclado, todo curvado, sem parar, a bater nas teclas a grande velocidade. É muito estranho. Aí é uma relação física até ao limite. Fico exausto. Eu escrevo primeiro sem corrigir, sem ver sequer o que estou a escrever. Depois, mais tarde, é que ponho as letras no lugar. E bem mais tarde, por vezes anos. é que revejo, corto, etc. E só muito depois é que publico.

SL – Mudemos de assunto. O que anda a ler por estes dias?

GMT – Agora, agora, neste momento – a reler dois centros: os Lusíadas de Camões – ando a ler alto às vezes pela rua, fascinado com “o mais alto som nas mais altas palavras”, e o Evangelho segundo São Mateus.
Uma biografia do pintor Yves Klein; O ensaio O espírito da Comédia de António Escohotado, da editora Antígona, etc, etc. Leio muitos livros ao mesmo tempo, gosto desses saltos.

SL – Se a sua biblioteca falasse, diria o quê?

GMT – Por favor, organiza-me. Ou apenas: dá-me espaço. O grande problema é que eu tenho a biblioteca em dois espaços, e isso é péssimo. O livro que eu quero está sempre do outro lado.
Era interessante, uma personagem que tivesse livros em duas casas muito distantes entre si, e que precisasse de ir de comboio para ir buscar um livro à prateleira.
No meu caso, não é assim. Vou a pé. Mas seria bom um dia conseguir juntar os dois lados da mesma cara.

Gosto da ideia de uma arca de Noé de livros.

SL – Se tivesse que definir uma lista dos livros essenciais, aqueles a salvar no caso de um fim de mundo, quais seriam?

GMT – Seria uma lista interminável, se os livros lá chegassem afundariam a ilha com o peso.  Gosto da ideia de uma arca de Noé de livros.
Eu gosto de livros completamente opostos, quase inimigos – e por isso a escolha complica. Lembro-me de que uma vez estive em Itália; e, como é normal e infelizmente acontece em muitos países, os grandes escritores por vezes são maltratados no seu próprio país – e era o que estava a acontecer. Havia, nessa altura, anos atrás, um ataque a Italo Calvino em Itália. Criticava-se as suas fábulas que se afastavam da realidade e elogiava-se a inscrição no real, a entrega aos problemas sociais, etc. A grande discussão era Italo calvino ou Pasolini? – e muitos dividiam-se – ou elogiando a aproximação do Pasolini à vida concreta ou o imaginário de Calvino. Lembro-me de ouvir coisas inimagináveis como “Italo Calvino foi o pior que aconteceu à literatura italiana” e frases do género. Bem, para mim é evidente, que tal é um dilema que não existe. Não é Calvino ou Pasolini, é Calvino e Pasolini.

Interessa-me muito a realidade, perceber o que está a acontecer com os homens e com as cidades agora, mas interessa-me também muito o imaginário livre por completo da realidade. Acho que sou mesmo um gostador. Diante de qualquer livro tenta encontrar o ângulo melhor, tento perceber o que ele me quer dar, e não imponho a minha vontade. E, portanto, decidir levar uns livros e deixar outros seria terrível. Não gosto de pensar nisso.
De qualquer maneira, talvez a tecnologia tenha anulado essa pergunta – salvaríamos uma pequena máquina que teria lá toda a biblioteca. Não seria a mesma coisa, claro.

SL – Há algum livro a que costume voltar várias vezes?

GMT – Continua a ser o mesmo de sempre – Cartas a Lucílio de Séneca. Tem dois mil anos.

SL – Disse que vive num desassossego curioso de descobrir livros bons, algo que ainda não conheça. Qual foi o último que descobriu?

GMT – Por exemplo, agora, nestes dias, estou a ler numa edição da Companhia das Letras, Jakob, o mentiroso de Jurek Berger, uma das grandes ficções sobre o Holocausto. E a descobrir a poesia de Erri de Luca, um belo escritor italiano de que só conhecia a prosa.

SL – Ainda carrega consigo, para todo o lado, uma mochila cheia de livros?

GMT – Sim. É doentio. Antes de sair de casa, demoro dez minutos a escolher que livros quero. Depois levo uns 5, todos muito diferentes. A leitura tem que ver com uma espécie de afinação minuciosa. A cada dia, e às vezes, a cada momento do dia, apetece-me ler algo diferente. E o difícil na escolha– é essa mesma – o que é que me vai apetecer ler? É que para mim ler é sempre por puro prazer. Nunca li nada que não quisesse. Mas o estado de leitura muda muito, há energias de leitura completamente diferentes. Por exemplo, de manhã normalmente leio ensaio, filosofia, etc. Não consigo ler ficção ou poesia de manhã. Estou com demasiada energia, é como se precisasse de obstáculo, de esforço; como se precisasse de colocar a máquina em funcionamento.
Pelo contrário, ao fim da tarde ou noite não consigo ler ensaio ou filosofia, estou demasiado cansado – leio ficção, grande ficção ou poesia, ou livros de arte.

SL – Que livro deixou a meio?

GMT – Muitos. Mas não por não serem bons. Nunca culpo um livro. Normalmente, escolho-os com muito critério. Quando interrompo é por culpa do meu estado de leitura. Naqueles momentos, não é aquele livro o que necessito. Não insisto em ler o que naquele momento não me está a atingir da maneira que eu queria, nem culpo o livro. Interrompo e guardo-o para mais tarde.
Só para dar um exemplo, quando tinha vinte e tal anos comecei a ler o Moby Dick de Melville e interrompi. Voltei talvez dez anos mais tarde e foi um deslumbramento extraordinário. Foi um dos clássicos que deixei para o fim. E não se trata de maturidade ou não – é mais coincidir o livro exacto com o estado exacto de leitura. É necessária uma super-afinação.

SL – O que repara em primeiro lugar quando entra numa livraria?

GMT – Em primeiro lugar nos livros que estão mais evidentes nas prateleiras. Se são bons a livraria é boa. Depois, algumas prateleiras mais específicas. O fundo da livraria é talvez o mais importante.

SL – Rosa Montero faz sempre uma pergunta a todos os escritores que entrevista, que gostaria também de lhe colocar: se tivesse de escolher entre ler ou escrever o que escolheria?

GMT – Preferia responder a uma pergunta do tipo – entre saltar de para-quedas e ler o que prefere? A uma pergunta dessas, depois de muito pensar, responderia: prefiro ler.