Armando Baptista-Bastos (1934-2017)

Entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Baptista-Bastos

 

NINGUÉM SE METE COMIGO

Uma almofada com a cara de Marx atrás das costas em quase três horas de conversa. Um caderno Moleskine com uma lista de expressões insuportáveis como “no seio de” e “evento”. Ainda e sempre esta relação sanguínea com a língua portuguesa, seu vasto domínio. Mais de 50 anos de jornalismo e 10 romances, contando com “As Bicicletas em Setembro”, que acaba de ser publicado, obra em torno de uma mulher, Jesuína, onde Armando Baptista-Bastos (Lisboa, 1934) faz caber a sua própria mulher, Tejo e tudo o que não consegue caber à vontade no presente, agora. É um dos mais furibundos, anti-fleumáticos autores do jornalismo português.

P: Porque se diz que inventou entrevistas?
É um disparate. Foi um pretexto para fugir à censura. A entrevista que inventei, entre aspas, começa no “Almanaque”, uma revista decisiva. O chefe de redacção era o [José] Cardoso Pires, o editor que dava o dinheiro era o Figueiredo de Magalhães, os redactores eram Augusto Abelaira, Stau Monteiro, José Cutileiro, Vasco Pulido Valente, Alexandre O’Neill, e eu.

P: 1960?
1960, 61. Eu tinha ido para o “Almanaque” expulso d’”O Século”, por motivos políticos. E queríamos fazer um número sobre os “monumentos” nacionais. O Matateu, a Amália Rodrigues – com uma capa espantosa do João Abel Manta. Uma publicação que tivesse mais de 120 páginas não ia à censura prévia, era um truque que arranjávamos, ter mais de 120 páginas. Decidiu-se que eu ia entrevistar o Matateu, e pergunto as coisas ao contrário. É uma entrevista muito cruel.

P: Se ele sabe quem foi o Aquilino, o Beethoven…
Para dar a imagem devolvida [da nação], digamos. Extremamente cruel. Qual é o país que gosta mais? É a Itália. Então porquê? Por causa das mulheres, gostam muito dos pretos.

P: Marquei aqui [no livro “As Palavras dos Outros”]: “Por causa das mulheres. Lindas. Comi algumas. Muito boas. Gosto bastante da Itália. Que rico país para um preto viver!” Ele disse mesmo: “Que rico país para um preto viver!”?
Rigorosamente. O Matateu era absolutamente invulgar, e não sei se eu devia ter publicado essas coisas. Ele subia a Calçada da Ajuda e os miúdos atrás dele. Todo o gato e cão era Matateu. Ele sentava-se naqueles bancos corridos das tabernas a conversar com as pessoas. Era extremamente popular. Mais tarde tentei ressarcir-me escrevendo uma crónica onde dizia que fui muito cruel. Porque ele diz lá na entrevista: “O Matateu não diz mal de ninguém.”

P: É daí que vem a fama em relação às suas entrevistas?
Abre uma perspectiva à entrevista em Portugal. Fazer o retrato da pessoa através das leituras, do conhecimento do mundo, dos tiques.

P: Mas que tem isso a ver com a ideia de que inventou palavras, de que as coisas não se passaram assim?
Passaram-se rigorosamente assim.

P: Conte o seu encontro com Paul McCartney.
Por intermédio do correspondente no Algarve, o “Diário Popular” (“DP”) sabe que o Paul McCartney estava cá. E o Balsemão manda sete jornalistas para as sete saídas de Lisboa, porque ele vinha a caminho de Lisboa. A mim tocou-me Vila Franca de Xira. Chego à ponte, onde havia a portagem, e pergunto: “O senhor viu aí um tipo de cabelos compridos?” E ele diz: “O Beatle? Está ali na estalagem Gado Bravo.” Fui lá. [McCartney] vinha com uma rapariga lindíssima que lia o “Spleen de Paris”, do Baudelaire. Estavam a beber Casal Garcia. Eu disse: “Olhe que esse vinho não se bebe”, num inglês péssimo. “Então o que devo beber?” “Quando muito, um Alvarinho.” E começa assim a conversa. Ele pergunta: “Você é jornalista?” “Sou.” E pergunta – foi a primeira vez que ouvi dizer isso – se eu era “freelancer”. Sabia lá o que era isso em 1965. Tivemos um encontro de meia-hora, quanto muito. E perguntei-lhe estas coisas [que estão em “As Palavras dos Outros”].
“— Como é o nosso tempo?
— O tempo dos astronautas.
— Consideram-se homens inteligentes?
— Somos homens práticos.
— Que é ser prático?
— Talvez viver a época.
— Isso não será condescender?
— Somos trabalhistas, sabia?”

P: Como era? Tomava nota, gravava?
Tomava notas rápidas.

P: Isto é uma conversa tal e qual? É uma conversa recriada?
Tal e qual.

P: São respostas lapidares.
Pois são. E não é a entrevista total, houve partes cortadas.

P: A propósito das entrevistas do livro “Fado Falado” disse que punha as habilitações literárias dos fadistas porque era algo significativo sobre as pessoas. Porquê?
Não me recordo, mas se calhar queria dizer que as pessoas de pouca ilustração cantariam melhor o fado. As entrevistas de “Fado Falado” têm a mesma componente, digamos dialogante, dessas que referiu. É uma astúcia. Dava a volta, e a meio fazia aquelas perguntas mais provocatórias. Porque uma entrevista é sempre uma provocação e nunca uma chicana. Por exemplo, as entrevistas do semanário “Ponto”. Aquilo é “ipsis verbis”, e foram ditas coisas que as pessoas ficavam apavoradas com o que tinham dito. 18 anos depois um cantor disse que eu tinha escrito o que ele não tinha dito. Nem sequer respondi – 18 anos depois? Podia ter dito logo. Nunca tive qualquer desmentido porque tudo era a reprodução daquilo que me diziam. Eu fazia paragens e tudo. “Espere aí um bocadinho que não apanhei tudo.”

P: Há uma entrevista, julgo que com uma prostituta, em que ela lhe diz: “Você escreve na mecha.” E o Baptista Bastos: “Espere aí só um bocadinho.”
E reproduzia “ipsis verbis”. Uma entrevista para o “Ponto” durava entre cinco e sete horas. Era um molho de papel.

P: Nas suas habilitações aparece sempre Escola António Arroio e Liceu Francês. Como se dá a passagem? São mundos socialmente diferentes.
Não são. O Liceu Francês tinha um pólo no Beco do Tijolo [junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara], que eu frequentei.

P: Socialmente diferentes em relação à origem dos estudantes.
Penso que não. Não sei. Andei na António Arroio a chumbar gloriosamente em arquitectura. Fui colega do [pintor] Costa Pinheiro, fizemos um jornal de parede. Eu frequentei o curso nocturno.

P: E o Liceu Francês?
Foi depois. Mas no Liceu Francês só tirei francês. A António Arroio talvez fosse uma fuga do pessoal que tinha veleidades literárias, artísticas. Andaram lá o Cesariny, o Vespeira… E a gente queria aprender francês e na António Arroio dava-se mal francês e inglês.

P: Foi apanhado cedo pelos livros. Não se colocou a hipótese da universidade porque já estava nos jornais, porque não havia possibilidades económicas?
Não havia. A universidade era quase inatingível.

P: O seu pai levava-lhe “A Bola” para casa, recomendando que lesse a coluna do [crítico literário] João Gaspar Simões.
O meu pai paginou a “Bola” e era chefe da tipografia no “DP”, ao mesmo tempo. Não havia dinheiro e tinha que arredondar a conta ao fim do mês.

P: Essa paixão omnívora pelos livros vem dessas coisas e de que mais?
No fundo é isto: os miúdos dos bairros queriam fugir ao anonimato. Ou ser toureiro ou pugilista… .

P: Considerou as duas hipóteses.
Pois, aliás levei uma marrada em Moscavide, estraguei um fato. E a outra [hipótese] era escrever.

P: De onde lhe vinham os livros?
O meu pai tinha livros. Havia as coisas do [Émile] Zola, peças tradicionais numa família de anarquistas, de comunistas, de socialistas. E havia as bibliotecas públicas. Começo a despertar para a leitura por causa do “Mosquito” [revista de BD]. Não eram os quadradinhos, mas o que lá estava escrito. Havia um homem, Rofer, que anos depois conheci como revisor do “DP”, Roberto Ferreira. As histórias que ele escrevia é que talvez me tivessem despertado. E depois comecei a escrever muito novo nos jornais.

P: Estreia-se aos 14?
Na página infantil de José de Lemos [um fenómeno de popularidade, no “DP”], estão ali todos os desenhos dele [na parede cheia de quadros, já quase junto ao tecto].

P: Mas leu muito em bibliotecas.
Quando deixámos a Ajuda, fomos para a Rua da Bombarda, junto ao Largo do Intendente. Havia ali a biblioteca da Escola 1 ou 2. Eu atravessava a Almirante Reis, ia para lá e um homem chamado Freitas era o bibliotecário. Deu-me o Emilio Salgari. Foi a grande descoberta. E entretanto trabalhava. Fui aprendiz de droguista, trabalhei uma semana numa confeitaria.

P: Com 13, 14 anos?
Sim, trabalho infantil. Foi importante para o meu conhecimento do mundo do trabalho, onde o trabalho é muito violento. Ia aos sítios pedir emprego – com calções! Trabalhei numa marcenaria que fazia tampos para máquinas de costurar, uma coisa pesadíssima. Um dia puseram-me um daqueles carros de mão cheio daqueles tampos e demorei muito tempo a chegar à oficina, que era ali na Penha de França. E a minha madrasta [BB perdeu a mãe muito cedo], uma mulher extraordinária, andou em Lisboa à minha procura. Apanhou-me, estava eu já esfalfado, já noite, quase a chegar à oficina. Insultou o homem de tudo: “O senhor faz isto a um garoto!” Também fui aprendiz de torneiro mecânico. Queria ter dinheiro para o cinema e para queijo fresco.

P: Tinha assim um cinema, ou ia a vários?
Tinha o Salão Lisboa – que era o Piolho – na Mouraria. E o Royal, na Graça. O Liz, que passou a ser Roxy. E um que era o Rex. Isto tudo entre a Rua da Palma e a Almirante Reis. No Rex, diziam que havia lá um sítio em que apareciam fantasmas e eu queria era ir para esse sítio. Nunca apareceram, mas um dia apanhei um susto. Era um filme chamado “Camarada X”, com a Lana Turner e o Clark Gable. Ele era um homem que vinha da guerra, e ela uma jornalista. O chefe de redacção dizia-lhe – é uma admirável lição de jornalismo -: “Vais entrevistar aquele que vires que está mais triste.” Porque quando se regressa da guerra toda a gente vem feliz porque vai regressar a casa, então o que está mais triste tem uma história para contar. O filme era admirável por causa disso. Mas apanhei um susto porque o Clark Gable está no “deck” do navio e ela deixa cair a máquina, e eu julgava que era o fantasma do Rex. Havia ali uma academia de espiritismo no Largo do Intendente – que era um largo muito giro. Havia cavalos.

P: Já era uma zona de prostituição?
Não assim, mas havia casas de prostitutas. Tinha um fontanário com água salobra, e eu gostava à brava de beber aquela água, com os cavalos. Eles a beberem, e eu a beber ao lado dos gajos.

P: E o queijo fresco?
Comprava meio queijo daqueles grandes, e gostava muito de ler o Sandokan a comer queijo fresco. O Freud era capaz de explicar, mas o Freud serve para tudo. É o Freud e o Fernando Pessoa.

P: Para usar uma palavra muito sua, esse seu remanejar da língua decide-se quando? A ligação com as palavras decide-se necessariamente na adolescência?
Penso que sim. Fui adolescente até muito tarde. Não tive infância, comecei a trabalhar novo e a estudar muito novo, com uma curiosidade infinita. Mas tive uma sorte espantosa, porque [aos 19 anos] entrei n’”O Século” – o que não era brincadeira: de seis estagiários fui o único que ficou -, com um homem fora de série, o Acúrcio Pereira.

P: Tem dito que ele foi o maior chefe de redacção do século XX.
Nem há comparação. Ensinou-me a nunca mentir. Não se pode mentir nos jornais. Estava lá há dois anos e ele: “Vais ser extremamente invejado.” Perguntei-lhe porquê. “Escreves palavras tão claras que nem tu por vezes as entendes.” Porque comecei a fazer um jornalismo de autor sem dar por isso.
[Baptista Bastos conta a história de quando o “DP” o mandava regularmente à Alemanha. Ao voltar de uma dessas viagens comunicou ao seu chefe Brás Medeiros que fora à RDA. Medeiros disse-lhe para escrever a reportagem, que se mandava à censura e logo se via. Mas a censura reteve as provas muito tempo e Brás Medeiro telefonou ao coronel censor:]
Agarra no telefone: “Ó Coronel Galvão, mas que merda é esta?” O gajo falava assim. “O senhor está completamente enganado. Eu é que mandei o senhor Baptista Bastos à RDA. Quem manda na minha casa sou eu. Eu vi as provas e o senhor não é mais exigente que eu nesse sentido. São prosas à Baptista Bastos. Se daqui a meia hora não estiverem cá, eu digo ao director para escrever um artigo de fundo, agarro nas provas e mando-as para a Presidência do Conselho.” E quem é que foi buscar as provas à censura? O Carlos Lopes. O campeão da maratona, que era contínuo do “DP”. Um dos treinos que fazia era ir à censura buscar provas. Isto para dizer o quê? Que sempre estiveram ao meu lado. Nunca tive problemas no “DP”. E houve coisas complicadíssimas. Não se esqueça que fui desmentido pelo Bella Gutman [o húngaro que treinou o Benfica nos tempos campeões da década de 60]. Eu não percebia nada de futebol, vou entrevistá-lo, e caio numa esparrela. Ele quer que lhe mostre o original. Mostro. Ele: “Está tudo bem.” Aquilo sai, grandes manchetes, quem manda no Benfica é não sei quem. “A Bola” era paginada no “DP”, e na “Bola” era tudo do Benfica. Um dos redactores vê aquilo, telefona ao Gutman. E ele diz: “Tudo mentira. Não conheço esse senhor de lado nenhum.” Eu não lhe tinha pedido para rubricar as páginas. Ele estava em Nice, e vou imediatamente para Nice, com uma data de jornalistas desportivos atrás. Aquilo cheirava a grande escândalo. Eu, se o visse, dava-lhe uma tareia logo. E para não haver problemas o Brás Medeiros disse: “Você vai com o [chefe de redacção] Abel Pereira, para ele o controlar.” E assim foi. O Gutman tinha ido para a Croisette, ponho-me à porta do hotel à espera, o tipo quando me vê começa a fugir e eu atrás dele para lhe bater. O Abel Pereira agarra-me, outros jornalistas agarram-me: “Não faças isso que arranjas um 31.” O Gutman foge lá para dentro e o Abel Pereira decide ir falar com ele. Depois chama-me. “Não sei o que é que se passa”, dizia o Gutman. “[O jornalista que telefonou] leu uma coisa que o senhor não escreveu, de facto. Tudo o que você escreveu é verdadeiro.” “Escreva isso num papel.” E ele escreve: “Baptista Bastos, jornalista honesto”, e tal. De maneira que apanho o avião logo de manhã. O “DP” publica aquilo na primeira página e foi um êxito descomunal. Não há invenção nenhuma nas entrevistas. Só que as entrevistas de facto marcaram. Pronto, isto paga-se. As pessoas pagam caro fazerem as coisas de forma diferente.

P: O 25 de Abril foi uma flor que nos aconteceu? Um momento de excepção que Portugal teve?
Penso que sim. Não esperava um retrocesso tão rápido. Apesar de ter 40 anos, julgava que o socialismo estava ali. E depois desiludi-me rapidamente. Essa desilusão está muito marcada no livro “Elegia Para um Caixão Vazio”, que me deu dissabores. Fui violentissimamente atacado no [jornal comunista] “O Diário”.

P: Já usou a palavra lúgubre para esta democracia. Continua a fazer sentido?
Sim. Estou assustado com o caminho que este país toma. Uma situação em que o próprio Marques Mendes diz que o governo está à direita do PSD – isto diz tudo. Depois, penso que o partido comunista não tem resposta. Não tem força.

P: Onde está a esquerda? Está no Bloco de Esquerda?
Não está, não. Tenho muita dificuldade em saber onde está a esquerda. O que a esquerda me diz parece uma coisa de recessão mental, falta de estudo, falta de meditação sobre o que se passa no mundo e aqui.

P: Explique melhor.
As pessoas deixaram de ler. É preciso ler para saber o que se passa.

P: É uma esquerda ignorante?
É uma esquerda que não lê, pelo menos.

P: O que é que a esquerda devia estar a ler?
Se calhar voltar a ler o Walter Benjamin. O Marx, que toda a gente cita e pouca gente leu. Confrontar-se com as suas certezas, que não passam de incertezas. Não percebo o discurso desta gente. Por exemplo, penso que pela primeira vez não vou votar para a Câmara de Lisboa. Estava a escrever autógrafos na Feira do Livro, o António Costa passou e disse: “Sei que está muito zangado comigo.” Eu disse: “Não estou nada zangado contigo. Não vou votar em ti porque és cúmplice deste governo.” Um governo que está a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde – por malevolência. Como o caso da Caixa de Previdência dos Jornalistas, que é um escândalo, porque eles não acabaram com os sub-sistemas de saúde dos polícias e do exército. Acabam com todos ou só com parte? Depois, esta pouca-vergonha de acabar com os centros de saúde espalhados pelo país. Só quem não conhece o país! Há aldeias que precisam daquilo como pão para a boca. É uma embrulhada tal que assume o aspecto de um desprezo total por todos nós.

P: Lisboa é a sua cidade, temos estes candidatos todos e não há um que fale por uma Lisboa em que acredite?
Não. Não acredito em nenhum. O discurso é todo igual, com ligeiras alterações. E este governo é contra nós. Não gosta da gente.

P: Como olha para Sócrates?
Muito mal. Um indivíduo de uma insegurança total que camufla a fragilidade com arrogância. Um governo é bom quando não se dá por ele. Isto é dos livros. A gente não tem governos à altura deste povo. Este povo é absolutamente espantoso.

P: Porquê?
Basta andar aí pelo país. O que as pessoas fazem, como tentam sobreviver, o gosto que têm em ser portuguesas. Não no sentido patrioteiro. No sentido de ligação à terra, de defender a língua. É espantoso o que há por aí de tertúlias de leituras. Há tempos estive numa escola em Viseu e disse: “Então estou no Cavaquistão…” Iam-me matando. “Não, desculpe, a gente tem outro pensamento.” Até houve um que disse: “Nós lemos.”

P: Há a ideia de que o mundo se tornou pequeno, e o Baptista Bastos acha que a esquerda não tem alternativa à globalização. O que é que isto diz sobre a esquerda no mundo?
A esquerda, tal como está a ser praticada, é inexistente.

P: Mas acha que o mundo não se tornou pequeno?
Não. O que se passa em Badajoz? Mesmo com as “internetes” não se sabe nada. É preciso ir lá. A gente não sabe o que se passa. É aquela velha tese: damos notícias, notícias, notícias, mas informação, pouca.

P: Não me estava a referir às notícias, que se tornam numa parede através da qual não vemos. O mundo tornou-se mais pequeno porque é muito mais fácil circular.
As pessoas viajam para tirar fotografias. A esmagadora maioria não viaja para ver como são as outras.

P: Acha que não sabemos mais uns dos outros?
Não sabemos, não. E cada vez somos mais cercados por uma massificação cultural que determina isto, por exemplo: Paul Auster considerado um grande escritor, quando é de quinta ordem. E ponha lá também o Philip Roth.

P: Também acha que não vale a pena?
O [Roger] Vailland fez aquilo em grande estilo. Há tempos estive em França e perguntei: “Como vamos de Vailland?” E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos. Aqui há tempos, um amigo disse-me: “Mas tens que ler “O Animal Moribundo” [de Roth].” Bom, foi penoso. Até o Milan Kundera fez aquilo melhor.

P: Boas descobertas que tenha feito?
Um de quem vou ler tudo, o Cormac McCarthy. Este livro, “A Estrada”, é absolutamente espantoso. A tragédia grega ensina que só há sete temas na condição humana, não é? Em “A Estrada” está tudo. Aquela viagem com o filho é espantosa. E com uma grandeza estilística que só encontro no Hemingway. O Hemingway não é um grande romancista, mas é um jornalista genial.

P: Vamos actualizar a sua família em língua portuguesa: Camilo, Pascoaes, Aquilino, Brandão, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Ruben Braga. Quem mais?
Ponha-me também o Ruben A. Os poetas são todos, sou um fanático leitor de poesia. Por exemplo, gosto muito do Joaquim Manuel Magalhães.

P: Poetas a que volta frequentemente?
Ruy Belo, Jorge de Sena, Herberto Helder, Cesariny, Paulo Teixeira, que é admirável.

P: Aparecidos nos últimos dez anos?
Aquele que morreu muito novo, o Daniel Faria. E ponha-me lá o Eugénio de Andrade, poeta do meu alumbramento.

P: E sem ser poetas?
O Possidónio Cachapa, da “Materna Doçura”. E estou-me a reconciliar com o José Luís Peixoto. Dos vivos, o Mário Cláudio é um dos três grandes que admiro.

P: E os outros são?
O Saramago e a Agustina Bessa-Luís.

P: Numa crónica admirável que escreveu sobre Amália para o PÚBLICO, diz: “Nela, nós.” De António Lobo Antunes pode-se dizer isso.
Não gosto dele como romancista. É um armário de adjectivos. Mas acho que é um grandessíssimo cronista. Além disso, um dia meteu-se comigo. Ninguém se mete comigo. Disse uma coisa numa entrevista, e ninguém me diz certas coisas. Fiquei de olho nele. Às vezes é muito leviano.

P: Vê o jornalismo como “uma disciplina superior da literatura”. A liberdade de um criador, que pode escrever para ninguém o ler, ou seja, não se preocupar com a recepção, é a mesma do jornalista?
Penso que continua a ser a mesma. Sempre escrevi em relação à minha própria consciência. Dizer aquilo que pensava que era a minha verdade. Fartei-me de fazer reportagem com outros jornalistas ao lado, naufrágios, guerras, assassínios, e a minha visão era sempre diferente.

P: Não há duas formas iguais de contar a mesma história. Mas isso é outra coisa.
Não, é a mesma coisa,. Há sempre um lado que tem a ver com idiossincrasia, ideologia, as singularidades da cultura de cada um, que permite ter uma visão que é considerada – sei lá! – inventada.

P: Toda a boa reportagem é uma narrativa, tem um olhar, parte de um eu, que incorpora aquilo, e é por isso que não há duas iguais. Mas não é disso que estou a falar. A questão é: um criador idealmente não responde perante ninguém.
Mas um jornalista idealmente também não responde perante ninguém.

P: Não é verdade. Um jornalista tem obrigação de responder. Tem limitações de espaço, de tempo, tem um chefe, tem leitores, trabalha para um jornal que tem de vender.
Tem que se bater contra isso tudo. Para obter a liberdade que o outro tem. Tem outros constrangimentos.

P: Mas não são só constrangimentos. Faz parte da ética da profissão. O jornalista obedece a regras, um criador inventa as suas próprias regras.
Mas há um mínimo de regras comuns a todos os criadores.

P: Portanto, as regras de um jornalista e de um escritor são as mesmas?
Quase iguais. São semelhantes. O escritor também responde perante o outro, perante o editor – e agora também perante o “re-writer”, o que re-emenda aquilo. Já está a aparecer em Portugal.

P: Os jornais em papel morreram ou estão moribundos?
Não. O jornalismo está a atravessar uma fase complicada.

P: Uma vez escreveu uma coisa que aprendeu no Brasil: não se pode fazer com que o povo queira aquilo que não quer. E o que os dados nos dizem é que as pessoas compram cada vez menos jornais. Continua a acreditar que as pessoas querem jornais em papel?
Temos vários exemplos na Europa. O “La Stampa”, o “Repubblica”, o “Corriere de la Sera”, o “El Pais”. A gente fala muito no “Monde”, e no interior de França há jornais espantosos.

P: Lê jornais na Internet?
Do Brasil, às vezes. Mas compro muitos jornais, tenho ali um molho para ler. Gosto do cheiro do papel. O meu pai trabalhava de noite nos jornais e eu gostava do cheiro que ele tinha.

P: O que é que o jornalismo dá à escrita? O sangue dos outros? Ensina a escrever?
A sopesar as palavras. A partir de certa altura percebemos que o texto está mal escrito. É um sininho que toca. E esse sininho só raros o têm. O jornalismo ensina a procura do sininho. E olhar para os outros é fundamental.

P: De vez em quando diz em relação a escritores: escrevem mal, deviam ir aprender para o jornalismo. O que é escrever mal?
É escrever sem música, sem ritmo, sem cor. É escrever sem tomar partido, inapropriadamente de forma neutra. As pessoas costumam apresentar o exemplo do Stendhal que é também um escritor da minha devoção. Ele toma partido. Toda a grande prosa portuguesa tomou partido.

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