Junho 01

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Morreu Armando da Silva Carvalho

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O poeta e tradutor Armando Silva Carvalho morreu esta quinta feira, nas instalações da Santa Casa da Misericórdia das Caldas da Rainha, anunciou, em comunicado, a Porto Editora.

Acreditamos que a melhor forma de recordar um poeta é lendo a sua poesia.

Às vezes o poema espreita dentro do corpo
e desconfia,
vê os anos trocados, a língua muito grossa e carregada,
o coração vadio e corrompido, as digestões nervosas,
os pulmões sem espuma, lento o respirar,
apressado o cio.

Não sabe onde expor as palavras,
não encontra suportes, cantarias, majestade nos músculos,
robustez na textura óssea,
fluidez no sangue, no pescoço
e na alma.

A voz sente o encurtar da água
e sobe em degraus pela garganta até escoar o grito.
E o que foi babuloso é agora uma praia,
ridícula, com marés infantis e gente a patinhar, cautelosa,
na babugem do ser.

Quando o poema assume, logo se ergue o lamento
em liturgias, atravessa o corpo um súbito relâmpago,
dir-se-ia uma esponja de luz ameaçada,
por vezes brilham dentes, falas virgens, mas sempre em contramão,
e então surge o desastre.

CONTRAMÃO, Armando Silva Carvalho, in ‘A Sombra do mar’ (Assírio & Alvim)

Prémio Correntes d’Escritas 2017 |Grande Prémio de Poesia APE | Prémio PEN Clube | Prémio Literário Fundação Inês de Castro | Prémio Autores SPA/RTP

(imagem: publico.pt)