Junho 13

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Capas longínquas

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‘Se a leitura é um prazer incontestado, os intervalos desta podem e devem prolongar o deleite do ancestral exercício. Tanto melhor quanto soubermos devolver ao presente algumas pérolas de um passado que olha para nós mesmo quando nos distraímos em demasia a olhar apenas para o futuro

 

‘Há qualquer coisa de nostálgico no conceito de almanaque. A essência do seu significado diz-nos tratar-se de uma publicação anual que reúne um calendário e uma série de artigos ou informações sobre determinada matéria ou matérias. Para o escriba, contudo, o almanaque é sobretudo uma outra forma de leitura, eventualmente adequada ao intervalo entre… leituras.

 

Uma estranha e não completamente explicada atração pelos almanaques levou e leva-me a colecioná-los desde há anos. Ei-los que ostentam e sobrepesam as estantes envolventes, às dezenas e com números que datam desde finais do século XIX. Miro e volto a mirar as lombadas ao mesmo tempo que viajo no tempo: Almanaque Lello, Almanaque de “O Século”, Almanaque do “Diário de Notícias”, Almanaque de Santo António, Almanaque Bertrand…

 

Passadas as reticências, serve este este novel parágrafo para um olhar mais detalhado sobre este último, pois que em hora feliz decidiu a histórica livreira retomar a prática da edição desta espécie de utilitários de uma inocência há muito perdida e, por essa razão, há muito esquecida ou simplesmente ignorada. Porque os anos passaram, porque os hábitos de leitura mudaram (mas nem por isso evoluíram), porque as tecnologias pensaram sempre mais no presente imediato e no futuro que se quer assombroso , porque as “pédias” que pululam na net tornam tudo mais fácil (e mais credível?) para quem busca informação e porque, por causa de tudo isto, muita gente se acha já bem informada (quando não, demasiado informada), sendo que a própria busca de conhecimento é, ela própria, enviesada pelo seguidismo do “feeling” comum em detrimento da espontaneidade individual.

 

Quer tudo isto dizer que sabe mesmo muito bem mergulhar, de quando em vez, no irresistível, peculiar e aparentemente anacrónico universo dos almanaques. Por cinco euros (preço de feira do livro) podemos e devemos levar para casa o Almanaque Bertrand para o biénio 2017/18; o design da capa é excelente, à semelhança do que tem acontecido com as edições de anos transatos, os artigos são um delicioso conjunto de curiosidades (há até listas para compras), há textos de Pessoa, Camilo, Cesário Verde ou Mário de Sá-Carneiro, palavras cruzadas, passatempos, horóscopo, calendário perpétuo, etc, etc, além das efemérides ocorridas em cada um dos dias de cada um dos meses do ano.

 

No mesmo espaço (Feira do Livro de Lisboa) há, ainda, a possibilidade real de procurar e, caso o pêndulo decisório balance nesse sentido, adquirir diversas edições de vários almanaques, de várias proveniências, sendo que, naturalmente, quanto mais antiga for a edição, mais rica ela é em matéria de conteúdo. À semelhança do que sucede com a imprensa de época, também os almanaques constituem uma excelente caixa de ressonância dos costumes, das tradições, das novidades e das expectativas de um determinado tempo. Acresce que este vosso amigo é fascinado por publicidade antiga e os exemplos apresentados em cada um dos almanaques são absolutamente irresistíveis: na mensagem, no grafismo, no público a que se destinam, no retorno que dele se espera.

 

Estamos, obviamente, nos antípodas dos nossos dias, onde os telemóveis se transformaram no secretário particular de cada um de nós; onde os passatempos se transformaram em livros para os adultos colorirem, onde o estímulo ao pensamento é substituído pela tecnologia que (se) substitui ao pensamento. Por todas estas razões, talvez não seja má ideia recuar um pouco no tempo ou, melhor ainda, fazer avançar no tempo os registos de épocas passadas, refletidas nos textos que contam histórias, curiosidades, anedotas e dados sobre História, Agricultura (colheitas, sementeiras, preços, etc.) e, em alguns casos, política.

 

Claro que muita gente associará o conceito de almanaque ao conhecido e resistente “Borda d´Água” que, anualmente, continua disponível, pese embora sem o fulgor e o grau de exatidão de outros tempos. Sublinho, contudo, que os almanaques supracitados, entre muitos outros, são substancialmente diferentes do fascículo vendido ao sabor do destino. Creio, por isso, que uma olhadela tranquila ao Almanaque Bertrand suscitará o interesse na consulta dos seus semelhantes, no arbítrio da disponibilidade que pode ser encontrada no espaço que a feira consagra aos alfarrabistas, palco ideal para a busca destas edições, com preços díspares mas dependentes da capacidade de regateio do potencial interessado. Este encontrará seguramente sobejos motivos de interesse por entre a panóplia de ofertas que remetem para um passado que urge relembrar no presente.’

 

Reinaldo Serrano, in Jornal Expresso (11 junho 2017)

http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-06-11-Capas-longinquas