Quase dois mil anos antes de Cristo, já existiam barrigas de aluguer

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A tradição islâmica considera que Abraão não praticou adultério com Agar porque, à época (e hoje ainda, por muitos lugares desse vale de lágrimas), se praticava e aceitava a poligamia. Mas, mais do que oficial e consentida, a relação de Abraão e Agar parece ter sido promovida e até incentivada pela anciã Sarai, que desconhecia que Deus lhe iria dar também, anos depois, o milagre de procriar. Não lhe foi difícil decidir-se. Aceitou sacrificar o «i» final do seu nome próprio e ser apenas Sara daí em diante. Não é grande perda para se ter um filho quase aos 80 anos.

Pois bem, se formos ter em conta o plano das vontades livremente expressas, a relação carnal oficial entre Abraão e Agar deveria cair fora da categoria de adultério e com muito mais propriedade no âmbito das barrigas de aluguer. Isto, mesmo considerando que às escravas de ontem (como ainda às de hoje) não se tinha de pagar nada: nem o coração, nem a barriga, nem o aluguer.

 

Filipa Melo, in Dicionário Sentimental do Adultério, página 14