Julho 07

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Os livros da minha infância

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As escolhas de Ana Luísa Amaral. Poetisa portuguesa, tradutora e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Era em Sintra, eu teria uns quatro anos. Não havia muitas casas com televisor, mas o meu pai tinha comprado um, enorme, com uma rede fininha de tecido castanho à frente e umas válvulas na parte de trás, que às vezes se fundiam. Nesse televisor vi uns programas de teatro para crianças. Um deles contava a história de O Capuchinho Vermelho. Não dormi durante algumas noites, com medo do Lobo, cuja voz grossa se ouvia também na rádio, em versão de português do Brasil: “Eu sou o Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau, e pego as criancinhas p’ra fazer mingau”. Eu não sabia o que era mingau, e a história encantava-me, ao mesmo tempo que me amedrontava um pouco. Eram o medo e o fascínio misturados.

Mais pequena ainda, lembro-me de ouvir a minha mãe contar-me a história da Princesa Magalona. Não era a verdadeira história, aquela muito complicada, que envolve torneios, justas, um senhor chamado D. João de Solis, mas a história de uma princesa inventada pela minha mãe. Tinha os pés muito grandes, esta princesa, por isso não gostavam dela. Até que encontrou um cavaleiro muito simpático, que por ela se apaixonou, mesmo calçando ela imensas botas, e foram os dois para sempre felizes. Foi a primeira história que ouvi. Mas, sendo uma contrafação da história a sério, era a invenção da invenção.

Livro a sério, o primeiro, foi o que a minha mãe me comprou na Papelaria Medina, ainda em Sintra, tinha eu cinco anos. Era O Soldadinho de Chumbo. Teve de ser devolvido, porque eu (que ainda não sabia ler) desatei a chorar no final, quando o soldadinho é lançado para a lareira, juntando a sua sorte ao destino funesto da bailarina de papel. O livro que veio em vez do soldadinho foi O Patinho Feio. Com esse, o meu choro só parou quando o patinho se transforma em cisne. Mas durou durante todo o tempo em que ele é escorraçado pelos irmãos e por aquela a quem chamara sempre mãe. Na minha primeiríssima infância chorei muito com livros infantis – outro de que me lembro é o belíssimo conto de Oscar Wilde O Príncipe Feliz.

Alguns anos mais tarde, como aconteceu com toda a minha geração, foi a fase de Enid Blyton e de Os Cinco, e a delícia da aventura ao lado dos fiambres e dos jarros de leite escondidos em árvores ocas. E, pela mesma altura, foi a vez de uma colecção de histórias chamada Os contos de Alhambra. Não me lembro do autor, mas durante muito tempo sonhei com a Alhambra, a sua arquitectura delicada, os pátios interiores salpicados de fontes, rodeados por paredes que eram teias de fina renda esculpida. A beleza.

Depois, entre a beleza e a verdade, chegaram, sem respeito pela ordem de publicação,  vários livros de Sophia, que eu li avidamente. A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze, O Cavaleiro da Dinamarca. E eu comovendo-me já não por medo, mas pela emoção perante a perfeição das palavras. Recordo ainda partes como a da descrição de Veneza, n’O Cavaleiro da Dinamarca: “Aérea e leve a cidade pousava sobre as águas verdes, ao longo da sua própria imagem”.

O que mais me tocou de todos os livros de infância foi a oração do Cavaleiro: “Rezou muito nessa noite o Cavaleiro. Rezou pelo fim das misérias e das guerras, rezou pela paz e pela alegria do mundo. Pediu a Deus que o fizesse um homem de boa vontade, um homem de vontade clara e direita, capaz de amar os outros”. Nessa frase, que então memorizei e ainda hoje sei de cor, concentrava-se a ideia do final de O Soldadinho: o seu pequeno coração, que resta por entre as cinzas, simbolizando o amor. A parte da vontade clara e direita ficaria para a poesia.

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Imagem: facebook