‘Ainda tudo me emociona’

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“’A Sociedade dos Sonhadores Involuntários’ é um romance que procura entender as razões porque um regime totalitário fraco, isolado e sem nenhuma consistência ideológica conseguiu resistir tantos anos”

Levou 6 anos a escrever este romance. Era uma ideia que precisava amadurecer ou outros livros sugiram entretanto?

Era uma ideia que precisava amadurecer, e foram surgindo outros projetos. Acontece trabalhar em vários livros ao mesmo tempo.

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“Recordemo-nos sempre de que sonhar é procurar-nos.” Bernardo Soares. Esta frase aparece como epígrafe deste livro. Este livro é uma tentativa de se procurar?

Creio que são todos. Escrevo para compreender o mundo, para compreender a humanidade e para tentar saber em que lugar me encontro.

Como surgiu a ideia para esta obra?

Surgiu de uma série de conversas com o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, e, ao mesmo tempo, com a comoção que me provocou o movimento dos jovens revolucionários angolanos em favor da democracia – e a sua prisão.

 

Escreveu uma boa parte do seu livro na Ilha de Moçambique, que parece ser um dos seus novos destinos. Quais são os lugares de que mais gosta na Ilha?

O Pontão.

 

Luaty Beirão foi um dos apresentadores do seu novo romance – ele contou uma bela história, a de que o primeiro livro que lhe levaram, à prisão, foi As Mulheres do Meu Pai (e, depois, A Rainha Ginga e A Vida no Céu). Ficou comovido com a revelação?

Sim, fiquei. Fiquei comovido, muito antes disso, quando me enviaram fotografias dos jovens presos, com alguns dos meus livros nas mãos.

 

Mais ainda do que acontecia com livros seus anteriores este romance é uma severa crítica ao regime angolano.

É um romance que procura entender as razões porque um regime totalitário fraco, isolado e sem nenhuma consistência ideológica conseguiu resistir tantos anos, e de como esse regime vem destruindo as pessoas.

 

Numa entrevista em 2009 diz “ tenho a sensação de que as pessoas que vivem permanentemente em Luanda deixam de ver. Ficam cegas para muita coisa.” . Ainda pensa o mesmo?
 
Sim. A vida em Luanda é muito difícil. Muitas pessoas para sobreviver apuram a cegueira, por um lado, e a invisibilidade, por outro. Como aquelas borboletas que para sobreviverem nas novas urbes industriais perderam a cor e se tornaram cinzentas. Dói ver, então ficamos cegos. É perigoso que nos vejam, que percebam a nossa singularidade, então confundimo-nos com as paredes. 
 

Como é que acha que este livro pode vir a ser lido em Angola?

Não sei. Nunca sei. É sempre uma surpresa. Só compreendo o que andei a escrever depois que as pessoas me contam as suas versões. 
 

 

Qual dos seus personagens – de todos os seus livros – tem mais do seu ADN?

Não sei. Talvez o narrador da Estação das Chuvas.

 

O que o emociona, hoje em dia?

Ainda tudo me emociona. Não perdi, com a idade, nem a capacidade de me emocionar, nem a capacidade de me indignar. Nem sequer a ingenuidade.   

 

Mudemos de assunto. O que anda a ler por estes dias?

Vários livros: “Jardim Botânico”, do Luís Naves, que conheci há muitos anos em agronomia. O romance da cubana Karla Soares, sobre Angola e “A Sétima Função da Linguagem”, do Laurent Binet.

 

 
Se a sua biblioteca falasse, diria o quê?

Arruma-me, preguiçoso!

 

 

Se tivesse que definir uma lista dos livros essenciais, aqueles a salvar no caso de um fim de mundo, quais seriam?

No caso de um fim de mundo não haveria, é claro, nada para salvar. Mas para evitar o fim do mundo talvez fosse bom que toda a gente lesse livros como “A Cidade e as Serras, “O Velho e o Mar”, “1984”, “O Estrangeiro”, “O Processo”, “A Desobediência Civil” ou toda a poesia de Sophia, Walt Whitman e Manoel de Barros.

 

Há algum livro a que costume voltar várias vezes?

Há vários: “Os Maias”, “O Livro do Desassossego”, “O Outono do Patriarca”, etc..

 

 

Existe um escritor que lhe provoque a ‘inveja’ de desejar ter escrito exatamente aquilo?

Imensos. Borges, Pessoa, Gabriel Garcia Marquez, Gonçalo M. Tavares, Mia Couto,  etc.

 

Que livro deixou a meio?

Muitíssimos. Estou sempre a deixar livros a meio.

 

 

Que nome(s) da literatura portuguesa segue com mais atenção?

Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Patrícia Reis, Lobo Antunes, Peixoto, Francisco José Viegas, Pedro Mexia e mais uns poucos.

 

 

Sem discutirmos o binómio qualidade vs quantidade, acha que há, em Portugal, um certo preconceito em relação aos autores mais vendidos?

Preconceito por parte de quem? Da crítica, da academia ou do público? O público não tem preconceito, evidentemente, se compra é porque gosta. Críticos são coleccionadores, preferem, como todos os coleccionadores, os objectos raros, aqueles que poucos conhecem. Os académicos preferem os mortos. Mortos não contestam. É assim em todo o mundo.

 

Rosa Montero faz sempre uma pergunta a todos os escritores que entrevista, que gostaria também de lhe colocar: se tivesse de escolher entre ler ou escrever o que escolheria?

Ler, claro.

 

O que repara em primeiro lugar quando entra numa livraria?

Nos livros.

 

 

(entrevista publicada na revista ‘Somos Livros’, nr. 16, julho 2017)A