Setembro 05

Qual seria a sua ‘pilha de significado’?

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Fortemente comparado a O Deus das Moscas, Nada é um livro bastante polémico, chocante e que convida à reflexão.
Pierre Anton acha que nada vale a pena, a vida não tem sentido. Desde o momento em que nascemos, começamos a morrer. A vida não vale a pena! O rapaz deixa a sala de aula, sobe a uma ameixieira e lá fica. Os amigos tentam fazer de tudo para o tirar de lá, mas nada resulta. Decidem então pôr em prática um plano: fazer uma «pilha de significado».

Mas cada um começa a desafiar os outros para que faça sacrifícios cada vez mais sérios e à medida que as exigências se tornam mais radicais, tudo aquilo toma uma dimensão mórbida e os acontecimentos precipitam-se para um final arrasador. E se, depois de todos aqueles sacrifícios, a pilha continuar a não ser capaz de fazer descer Pierre Anton?

Janne Teller é uma conceituada autora dinamarquesa de origem germano-austríaca. Escreve ficção e não ficção. Autora de seis romances, entre os quais Nada, traduzido para mais de vinte línguas e um sucesso de vendas global. Inicialmente proibido na Dinamarca, Nada é hoje um best-seller internacional, com adaptações ao teatro e à ópera no Reino Unido e considerado por muitos como um clássico contemporâneo. É também autora de Guerra – e se fosse aqui, um livro em formato de passaporte sobre a vida de um refugiado, que a autora adapta e reescreve para cada país onde é publicado.

 

Excerto de Nada:

‘Nada, até aí, indicava que Pierre Anthon fosse o mais inteligente do grupo. E contudo, subitamente, todos tivemos consciência disso. Porque ele compreendia várias coisas. (…)
Uma manhã, depois de duas ameixas ainda duras terem na embatido na cabeça de Sophie, ela enfureceu-se com Pierre Anthon por ele não fazer mais nada senão estar sentado na árvore a tentar desanimar-nos.
– Passa aí o dia a olhar para o ar. Achas que isso é melhor? – gritou ela.

– Não estou a olhar para o ar – respondeu ele tranquilamente. – Estou a observar o céu e a exercitar-me na arte de não fazer nada.

– Estás mas é o caraças! – vociferou Sofie, atirando com raiva um pau na direção da ameixeira e de Pierre Anthon, mas o pau caiu na sebe, muito abaixo dele.

Pierre Anthon sorriu e gritou, tão alto que se ouvia na escola:

– Se houver alguma coisa por que valha a pena zangarmo-nos, é porque também há alguma coisa por que vale a pena alegrarmo-nos. Se houver alguma coisa por que vale a pena alegrarmo-nos, é porque há alguma coisa que tem significado. E não há! – Elevou um pouco mais a voz e rugiu: – Daqui a uns anos vocês estarão todos mortos e esquecidos, reduzidos a nada. Portanto, mais vale começarem já a treinar!
Foi então que ficou claro para nós que tínhamos de tirar Pierre Anthon de cima da árvore.’