Setembro 27

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A invenção da ciência

Antes de 1492 acreditava-se que todo o conhecimento relevante já se encontrava disponível, não havia um conceito de progresso e as pessoas procuravam compreender o passado e não o futuro. David Wootton argumenta que a descoberta da América demonstrou que era possível o novo conhecimento. Aliás, introduziu mesmo o conceito de «descoberta» e abriu o caminho à invenção da ciência.

A nova cultura teve os seus mártires (Giordano Bruno e Galileu Galilei), os seus heróis (Johannes Kepler e Robert Boyle) e os seus artesãos pacientes (William Gilbert e Robert Hooke). Conduziu a um novo racionalismo, extinguindo a alquimia, a astrologia e a crença na feitiçaria. Levou à invenção da máquina a vapor e à primeira Revolução Industrial.

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A obra fundamental e de referência de David Wootton altera a nossa compreensão de como se deu esta grande transformação e do que é a ciência.

 

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‘Quando William Shakespeare (1564 – 1616) escreveu Júlio César (1599) cometeu o pequeno erro de se referir às batidas de um relógio…sem que houvesse relógios mecânicos na antiga Roma. Em Coriolano (1608) há uma referência aos pontos cardeais da bússola…mas os Romanos não possuíam a bússola marítima. Estes erros refletem o facto de, quando Shakespeare e os seus contemporâneos liam os autores romanos, se depararem com numerosas referências ao paganismo dos Romanos, que não eram cristãos, sem que, no entanto, houvesse alguma coisa que sugerisse um desfasamento tecnológico entre Roma e o Renascimento.

Os Romanos não dispunham da prensa tipográfica mas já dispunham de muitos livros e
de escravos para os reproduzirem. Não conheciam a pólvora mas já dispunham de artilharia sob a forma das máquinas de lançamento de projéteis que eram as balistas. Não possuíam relógios mecânicos mas sim relógios de sol e de água. Não dispunham de grandes barcos à vela que pudessem aproveitar o vento mas a guerra no Mediterrâneo no tempo de Shakespeare ainda se fazia com barcos movidos a remo (as galés). E, naturalmente, em muitos aspetos práticos, os Romanos eram muito mais avançados do que os isabelinos: melhores estradas, aquecimento central e casas de banho adequadas.
Shakespeare, sensatamente, imaginava que a antiga Roma era tal e qual a Londres sua contemporânea mas com sol e togas. Ele e os seus coevos não tinham motivo para acreditarem no progresso.

«Para Shakespeare», diz Jorge Luis Borges (1899 – 1986), «todas as personagens, quer sejam dinamarquesas, como Hamlet, escocesas, como Macbeth, gregas, romanas ou italianas, todas as personagens que se encontram nas suas muitas obras são tratadas como se fossem contemporâneas de Shakespeare. Shakespeare era sensível à variedade dos homens mas não à variedade das épocas históricas.
Para ele, a história não existia.» A noção de história de Borges é uma noção moderna. Shakespeare sabia muito de história mas (ao contrário do seu contemporâneo Francis Bacon, que percebera o que uma Revolução Científica podia conseguir) não tinha noção da mudança histórica irreversível.’

in A Invenção da Ciência, de David Wooton