Setembro 28

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A nova idade do fogo

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‘As luzes do auditório diminuem. Uma mulher, com as palmas das mãos suadas, as pernas ligeiramente trémulas, sobe ao palco. Um projetor bate-lhe no rosto e 1200 pares de olhos fixam-se nos seus. O público apercebe-se do seu nervosismo, há uma tensão palpável na sala. Ela pigarreia e começa a falar. O que acontece de seguida é espantoso.

Os 1200 cérebros no interior de 1200 indivíduos independentes começam a comportar-se de uma forma muito estranha. Começam a sincronizar-se. Um feitiço de magia lançado pela mulher invade toda a gente. Arquejam em conjunto, riem em conjunto, choram em conjunto e, ao fazerem-no, acontece algo mais. Padrões de informação ricos e codificados neurologicamente que se encontram no interior do cérebro da mulher são, de alguma forma, copiados e transferidos para os 1200 cérebros do público. Esses padrões ficarão
nesses cérebros durante o resto da vida deles, influenciando potencialmente o seu comportamento em anos futuros. A mulher que se encontra no palco está a criar admiração e não feitiçaria, mas as suas capacidades são tão poderosas como qualquer
bruxaria.
As formigas moldam o comportamento umas das outras trocando produtos químicos. Nós fazemo-lo ficando de pé frente a frente, fixando os olhos um do outro, agitando as mãos e emitindo sons estranhos que saem das nossas bocas. A comunicação entre
um ser humano e outro é uma verdadeira maravilha do mundo, realizamo-la inconscientemente todos os dias e atinge a sua forma mais intensa no palco, perante um público.

O objetivo deste livro é explicar como se consegue o milagre de um discurso público forte e fornecer aos leitores os instrumentos necessários para tentar fazê-lo da melhor maneira, mas há algo que precisa de ser realçado desde o início. Não existe uma maneira única de fazer uma conferência notável. O mundo do conhecimento é demasiado amplo e o leque de oradores e de públicos e de locais onde se realizam as conferências demasiado variado para tal. Qualquer tentativa de aplicar uma única fórmula predeterminada será, provavelmente, um tiro que sairá pela culatra. O público apercebe-se disso num instante e sente-se manipulado.

Com efeito, mesmo que existisse uma fórmula bem-sucedida num determinado momento, esse êxito não se manteria por muito tempo. Isso deve-se ao facto de uma parte fundamental do atrativo de uma conferência notável ser a sua frescura. Somos seres humanos, não gostamos de mais do mesmo, sempre o mesmo. Se a sua conferência der a sensação de ser demasiado semelhante a outras que alguém já ouviu, está fadada a ter menos impacto. A última coisa que queremos é que todos pareçam iguais ou que alguém pareça estar a fingir. (…)

 

 

Chris Anderson, in TED Talks (Temas e Debates, 2016)

 

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