Outubro 03

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‘Sai-se para a literatura quando é da literatura que é preciso sair.’

mario-c

 

lógica do café royal

 
O inferno é o real absoluto. Quanto mais infernal mais verdadeiro.
Por enquanto.
Horus filho de Osíris e de Nephtis.
O pavoroso e o vaporoso incluem-se.
Uma nuvem escarlate sai da tua boca em direcção ao rio. Talvez
te hajas devorado a ti mesmo, primeiro só um braço, depois só
o outro. Talvez a imagem de uma cidade em chamas onde o excesso
de circulação de revoltos, na zona dos quartéis, atira para o
céu todos os pesos médios.
Amor dos elefantes. Ao Cruzeiro Seixas.
Se tu não viste tudo que viste tu?
As coisas inanimadas animaram-se: quando dormes há um prédio que te adora.
O lirismo é um epigonismo da prisão de ventre. Se alguma vez
fui lírico — mas dizem-me que sim — é porque estava com essa
prisão.
Os que se matam parece que se atam.
Colo louco.
Apesar do outro que diz, duvida que o anão aos ombros do gigante
veja mais que o gigante. Na verdade não vê: não é da sua
contextura. A visão do gigante é peculiar, formam-na os seus tamanhos,
o seu passo, o seu conhecimento da floresta. Aos ombros
do gigante, se chegou aí, o anão vê anão o seu universo anão.
Ensaia sem rancor a formiga obediente.
Sai-se para a literatura quando é da literatura que é preciso sair.
Os maias prescreviam toda a forma escrita, considerada atentatória
do funcionamento do mundo. Nós expelimos literatura de
vibração.
Encontrar a verdade em corpo e em alma é o único fim da boca
humana, o único trabalho que deve prosseguir.

Mário Cesariny, in Primavera Autónoma das Estradas