Dezembro 14

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Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.

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Já todos partilhamos, ou vimos partilhada, a expressão ‘Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor‘, sem que eventualmente nos tenhamos questionado sobre a sua origem.

Samuel Beckett repete a expressão ‘Falhar melhor’ cinco vezes na história “Worstward Ho”, de 1983. Este ‘mantra’ faz, hoje mais do que nunca, todo o sentido neste mundo absurdamente exigente e alucinante, onde muitos projetos e sonhos culminam em fracassos – ainda que estes possam encerrar em si as sementes que farão germinar sucessos futuros.

Hoje revistamos o excerto onde esta frase-mantra, repetida até à exaustação, consta:

 

Em diante. Dizer em diante. Ser dito em diante. Dalgum modo em diante. Até de modo nenhum em diante. Dito de modo nenhum em diante. Dizer por ser dito. Desdito. De ora em diante dizer por ser desdito. Dizer um corpo. Onde nenhum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Morrer-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Não. Sair nenhum. Voltar nenhum. Só entrar. Ficar lá dentro. Em diante lá dentro. Parado. Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.

 
Samuel Beckett, in Worstward Ho (Tradução de Miguel Esteves Cardoso)