Dezembro 27

Conto vencedor do Passatempo “A tua história começa aqui”. A Bertrand dá palco à tua escrita

“Este Natal troque o mundo digital pelo mundo real, troque os telemóveis pelas pessoas: ofereça um livro e fique mais perto de quem lhe toca”. Este foi o tema do desafio que
lançámos aos nossos leitores.

Em 10 dias, “foi com surpresa e grande satisfação que recebemos e lemos cerca de três centenas de contos”. Parabéns e obrigada a todos os participantes e, claro, à Sofia Guedes Vaz, autora do texto vencedor, “pela sua capacidade de observação e pela originalidade do seu relato, tanto em termos de conceito, como de forma. As notas dessas breves viagens quotidianas, em que os livros e a leitura têm papel de destaque em detrimento do telemóvel, são coloridas, inspiradoras e convidam à reflexão. Obrigada, Sofia, por nos ter levado consigo nessa viagem entre livros, ideias e personagens em movimento” (Sofia Ribeiro, Bertrand Editora, membro do júri).

TOP

Sofia Guedes Vaz em oito pontos
1. Escrever. Criativa, científica e de divulgação.
2. Ler. Não há nada melhor que um bom romance, um bom
livro.
3. Ambiente. Formação e paixão.
4. Comunicação de ciência. Comunicação de ambiente. Um
gosto imenso.
5. Irrequieta e inquieta. Gosto de me definir assim.
6. Criativa. Gosto de ter ideias. Tenho ideias.
7. Correr, ténis, nadar e andar. Actividade física. Mas devagar,
devagarinho .
8. Desafios. Sempre à procura de um novo.

 

Conto_imagem_bLOG2

‘abecedário de uma passageira frequente ferroviária que quase todos os dias apanha o comboio das 9.03 em paço de arcos e a quem se avariou o telemóvel mas que, mesmo depois de arranjado foi abolido, quase todos os dias, das viagens em prol da leitura e da observação do Outro.

dia a – absorta, a senhora sentada a meu lado lia “a amiga genial” de elena ferrante. quando saí disse-lhe com uma pontinha de inveja, já li toda a tetralogia e adorei. também estou a gostar, disse-me com um sorriso cúmplice.

dia b – baila na minha cabeça o poema do miguel manso “se agitares o livro e o deixares sobre o tampo; as letras cairão devagar sobre as figuras”. imaginei-me a abanar o livro no assento contaminando-o com letras.

dia c – chovia dentro do comboio por cima de dois lugares. “não se sente aí, está molhado”, disse-me alguém. variações de “está a chover, estamos em crise, a vida é difícil e ainda por cima chove dentro do comboio” percorriam a cabeça de cada um dos passageiros. todos com ar meio cabisbaixo, meio resignado, meio revoltado, meio deprimido. como tinta num mata-borrão, a energia negativa ia alastrando pela carruagem. em belém entram três senhoras cabo-verdianas crioulando alegremente. são prontamente informadas da situação. primeiro olham incrédulas e depois soltam gargalhadas cantarolando “chove lá fora, chove cá dentro, chove lá fora, chove cá dentro” transformando tudo aquilo, apenas numa caricata situação. sentiu-se um aliviar de tensão na carruagem, e muita daquela energia negativa saiu pelas frestas por onde entrava a chuva. variações de “chove lá fora, chove cá dentro” invadiram os passageiros em diversas notas e tons. quase começamos a rir também.

dia d – duas raparigas falavam animadamente no comboio. uma com jeans, ténis e t-shirt e a outra de saltos altos, muito altos, saia curta, camisa. em comum, um violino às costas. num concerto quando olhamos para a orquestra, a harmonia da música estende-se aos músicos e esquecemo-nos das diferenças. que se calhar não são muitas. entre eles mas também entre todos nós.

dia e – entre livro, jornais, tablets mas principalmente smartphones, hoje apenas olhei pela janela a ver o tempo a passar. a luz das manhãs de outono é como um prolongamento do nascer do sol. o horizonte muito nítido a separar um azul de um outro azul.

dia f – fantástico, o artigo que ia a ler sobre contadores de histórias, mas foi assim que fiquei sem histórias para contar.

dia g – golgona anghel invadiu a minha vida numa carruagem de comboio. primeiro com uma biografia de al berto que encontrei por acaso e comprei para inspirar umas férias em sines. depois com o livro de poesia com o título menos poético do mundo

“como uma flor de plástico na montra de um talho”. poemas desconcertantes que entram em nós. o andamento do comboio ajuda.

dia h – hélia correia ganhou o prémio camões. sou fã. não só dos poucos livros que li, mas também dela, que é uma personagem. gosto daquele seu universo. o prémio camões diz isso. que sim, que hélia tem direito àquela sua genuinidade tão especial. desde agustina que não gostava tanto dum camões. e não é por ser feminista.

dia i – inesperadamente entra uma turma na minha carruagem e começa a algazarra. crianças a rir de “nada” é a pura felicidade.

dia j – já há dois dias que apanho um comboio de madrugada. muito mais pessoas fumam na plataforma, o que me leva a uma das minhas palavras preferidas – indulgência -.

dia k – kasuo ishiguro ganhou o prémio nobel da literatura. tenho um livro seu lá em casa que não consigo ler. dos “despojos do dia”, anthony hopkins e emma thompson a não conseguirem amar-se é inesquecível. podia ser pior, já me aconteceu nem sequer conhecer quem ganhava.

dia l – lia milan kundera, a senhora a meu lado. assaltou-me uma frase para descrever o estado do mundo. o insustentável peso do ter.

dia m – matilde campilho encantou-me logo no início, em paço de arcos. “jóquei” é só sublime. e mais não digo que não gosto de adjectivos.

dia n – não sei se haveria uma nova história no comboio das 9.03. foi suprimido. parece que há falta de material circulante.

dia o – ontem, dois invisuais caíram à linha. dois polícias saltaram imediatamente e ajudaram-nos a subir para a plataforma. o comboio rápido passou 30 segundos depois. o meu coração ficou em taquicardia, o deles nem sei.

dia p – pai e um miúdo de 2 anos na plataforma. o miúdo ficou feliz quando o comboio rápido passou: “camboio” gritou. pensei que quando viesse o nosso, o miúdo ia encher o camboio de energia positiva. mas não entraram. era mesmo só trainspotting.

dia q – “querido ricardo. ontem foi o dia mais feliz da minha vida. quando me beijaste ..” desviei o olhar da folha de dossier onde a adolescente, a meu lado, escrevia. era talvez a sua primeira carta de amor e não tive coragem para continuar a ler e de qualquer maneira a miúda já me tinha oferecido o momento mais feliz do dia, e

dia r – ridícula seria a sua carta de amor. quase de certeza, porque fernando pessoa nunca se engana.

dia s – sentado do meu lado direito um senhor lia gorki em inglês, reparei olhando para a página: shoaa said the women. entretida com as minhas leituras passaram algumas estacões. quando o meu olhar fugiu novamente para a página de gorki, li: shoaa said the women. lê devagar, pensei. mais um tempo e outro olhar furtivo e a mesma página. olhei para a outra página e estava escrita em russo. é bom olhar para os dois lados antes de se fazerem julgamentos apressados.

dia t – três surdos-mudos falam efusivamente no comboio. mas não perturbam, só fascinam.

dia u – um rapaz e uma rapariga mergulhados nos seus livros. quando olho para a janela reparo que as suas mãos se tocam e seus dedos tamborilam na mão um do outro. gosto da imagem e fico curiosa sobre o que estarão lendo. quando chega o revisor tenho essa oportunidade. ela: “as 50 sombras de grey”; ele: “como tornar-se doente mental”. sorrio enquanto os dedos continuam a tamborilar uns nos outros.

dia v – valor acrescentado de andar de comboio é também ganhar amigos. com uma delas, só falo de livros. às vezes não.

dia x – xutos e pontapés saíam dos headphones de um rapaz. não, não sou o único, não sou o único a olhar o céu. olhei pela janela e senti-me acompanhada.

Dia y – ípsilon, hoje é sexta-feira. o meu momento jornalístico da semana

dia z – ziguezagueei por livros e pessoas. natal é isso. estarmos com o Outro’

 

Texto da exclusiva responsabilidade da autora