Abril 17

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Vício de cinco letras

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A Revista Somos Livros de abril já chegou às livrarias

Editorial | VÍCIO DE CINCO LETRAS

Gonçalo M. Tavares apontou a inexistência de um “intensitómetro” (medidor de intensidade estética), “em termos de aparelhagem auxiliar, as artes estão entregues a si próprias: é ver e ter sensatez, lucidez,instinto e muitas outras qualidades que não pesam nem se medem, nem se quantificam”, conclui.

E lembrámo-nos exatamente de uma lacuna como ponto de partida desta conversa.

Em abril, celebramos o livro com uma intensidade maior, impelidos pelo Dia Mundial do Livro (23 de abril). Nós, que o celebramos todos os dias, desde 1732, como átomo essencial, elemento sagrado, objeto de culto, paixão e transgressão, ser orgânico, sopro de vida, arrepio e salvação dos dias comuns. Como seria medir esta paixão pelos livros com um qualquer aparelhómetro?
Estaremos nós, de facto, interessados em medir a vida gerada, dentro e à volta, dos livros?

Haverá unidade de medida que faça jus à explosão sinestésica inaugurada pelo cheiro de um livro, ou para o batimento cardíaco comandado à distância pelas linhas onde se estende a vida toda?

Haverá unidade de medida para os furacões que os livros provocam no epicentro das nossas certezas ou no cume mais alto de todas as dúvidas?

Em que medida se escreve o abalo causado por esta estranha forma de vida que é a leitura, pela capa dura em dia mole, pela conjugação mais que provável deste vício de cinco letras?

Talvez o sentido esteja precisamente na lacuna e na inexistência de mapa. Talvez as paixões só encontrem a razão e o caminho se lhes dermos rédea solta, sem o espartilho da definição e da medida, sem a grotesca intromissão das avaliações subjetivas.

É nesse não-lugar que guardamos a nossa paixão pelos livros: nesse território sem tempo, nesse espaço só nosso onde a conjugamos sem pudor, lendo.
Incondicional, absurdamente intensa e redentora, é assim que celebramos consigo esta paixão pelos livros. Todos os dias. Desde 1732.