Agosto 29

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Um livro por dia | O Idiota

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‘A sala fica em silêncio e você apercebe-se de que é o centro das atenções de um mar de rostos. Apercebe-se também de que é o único que não compreende qual é o problema daquilo que acabou de dizer. Então alguém começa a rir e, um a um, os outros juntam-se-lhe. Sente um calor na cara, seguido por uma sensação vertiginosa de vergonha. Não se estão a rir consigo, estão a rir-se de si.
Já nos aconteceu a todos. Sentir-se um idiota  é quase tão inevitável como apaixonar-se. Aliás, ser idiota não é necessariamente uma coisa má. O simpático príncipe Lev Mishkin em ‘O Idiota’, de Dostoiévski, é idiota num sentido social e não intelectual, ficando isolado da sociedade porque não compreende os seus mecanismos: o dinheiro, o estatuto, a conversa fiada e as pequenas complicações do dia a dia, é tudo muito obscuro para ele. Mas quando nós, leitores, pensamos no príncipe Lev, não é com nenhuma sensação de menosprezo, mas com total carinho e amor. Na verdade, todos os que conhecem o príncipe no romance ficam exasperados com ele e simultaneamente enamorados da sua profunda compreensão de uma versão da realidade que a maioria de nós não vê.
Da próxima vez que a sala ficar calada a olhar para si, lembre-se do príncipe. Olhe para todos os outros bem nos olhos e pense em afeto. Provavelmente conseguirá obtê-lo.’

 

in Remédios Literários – Livros para salvar a sua vida
Ella Berthoud & Susan Elderkin

 

Publicado por volta de 1868-1869, O Idiota é, porventura, dos cinco grandes romances de Dostoiévski, o mais perfeito – na composição, no estilo, no aprofundamento dos carateres. Foi também de todos os romances do autor, o mais incompreendido na sua época. Dostoiévski pretende, segundo as suas próprias palavras, «criar a imagem do homem positivamente bom», uma encarnação da beleza, da bondade e da humildade, figura de herói entre Dom Quixote e Cristo, mostrando o que pode acontecer a um homem assim, em contacto com a realidade. protagonizado por Míchkin, o príncipe de cuja boa vontade todos procuram aproveitar-se, neste livro como em tantos outros romances do autor, são dramatizados os problemas sociais, filosóficos e morais da época. tratamento a que o génio de Dostoiévski confere uma força e uma amplitude que fazem de O Idiota uma obra intemporal.