Agosto 30

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Um livro por dia | 1984

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‘O ódio é como uma planta venenosa. Se o deixar criar raiz no seu interior, ele vai gradualmente consumi-lo por dentro, contaminando tudo aquilo em que tocar. Que odeie outra pessoa, os outros condutores, a sêmola de trigo,  os bloguistas da moda ou os reality shows, a diferença não é o problema.  Também é indiferente se o ódio é justificado e compreensível, como odiar alguém que lhe fez seriamente mal. O facto de nutrir esta violenta emoção no seu coração, acabará por ser uma violência contra si mesmo.
Se abrir mão do seu ódio for muito difícil, leia ‘1984’, de George Orwell  e observe o que se passa na ‘Noite do Ódio’ – sete dias dedicados a demagógicas procissões, discursos, cartazes e filmes destinados a espicaçar as massas até a um estado de ódio frenético dirigido ao inimigo número um do Estado, a Eurásia. Ao sexto dia, a multidão está num tal estado de delírio enlouquecido de ódio que, se deitasse as mãos a eurasiáticos individuais, os despedaçaria. Mas, de repente, o objeto do seu ódio é alterado. Corre o boato de que o inimigo já não é a Eurásia. É a Lestásia. Apressadamente, , são arrancados os cartazes das paredes e as faixas são espezinhadas. A multidão não perde o ritmo. Em poucos instantes, os ‘ferozes rugidos da ira’ foram redirigidos para os lestasiáticos.
A facilidade desta redirecção dá-nos certamente que pensar. Terá o sentimento de ódio alguma coisa a ver com o objeto do ódio? Não terá antes mais a ver com uma determinação em ‘encontrar’ um objeto em que possamos descarregar o nosso ódio? Faça uma pausa do seu ódio e olhe longamente, profundamente, para dentro de si próprio. Se este momento de ‘1984’ não o fez reconsiderar, você é um caso demasiado grave para o alcance suave da nossa cura.’

in Remédios Literários – Livros para salvar a sua vida
Ella Berthoud & Susan Elderkin

1984’ oferece hoje uma descrição quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização em que passaram a assentar as democracias capitalistas. A electrónica permite, pela primeira vez na história da humanidade, reunir nos mesmos instrumentos e nos mesmos gestos o trabalho e a fiscalização exercida sobre o trabalhador. O Big Brother já não é uma figura de estilo – converteu-se numa vulgaridade quotidiana.