Agosto 31

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Um livro por dia | Retrato do Artista quando Jovem

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‘A agonia da pancada num dedo do pé tem de ser sofrida; nada a pode curar. Ainda bem que, tal como uma pancada no nariz, a dor não é prolongada. Os palavrões são geralmente o nosso único recurso.
Para impedir o escândalo público e embaraçoso, sugerimos vivamente que se arme com o equivalente literário a um palavrão de desabafo: uma citação que venha facilmente aos lábios e que seja ‘staccato’, memorável, aliterativa, musical, evocativa, que desvie a atenção – isto é, o primeiro parágrafo do mais acessível dos romances de Joyce, ‘Retrato do Artista Quando Jovem’. Aqui só daremos as palavras de abertura – pois é um romance que não está ainda na sua posse, tem de ir buscar um exemplar imediatamente, e memorizar as primeiras sete linhas. Depois, da próxima vez que magoar o dedo do pé, esteja pronto para exclamar:
‘Era uma vez em tempos que já lá vão uma vaquinha mumu que vinha pela estrada fora e essa vaquinha mumu que vinha pela estrada fora encontrou um rapazinho muito bonitinho chamado bebezinho…’ e por aí adiante até ‘doces de limão’.
Depois leia o resto deste romance edificante, aprendendo com Stephen como evitar melhor os obstáculos da vida e descubra  as suas asas.’

in Remédios Literários – Livros para salvar a sua vida
Ella Berthoud & Susan Elderkin

Joyce acabou de escrever Retrato do Artista quando Jovem em 1914, ano de publicação de Gentes de Dublin. A novela descreve a infância em Dublin de Stephen Dedalus e a sua busca de identidade. As diferentes fases da vida do protagonista, da infância à vida universitária, refletem-se em mudanças no estilo narrativo. Os aspetos biográficos são tratados com irónico distanciamento, num trajeto que culmina com a rutura com a Igreja e a descoberta de uma vocação artística. A obra é também um reconhecível auto-retrato da juventude de James Joyce, assim como uma homenagem universal à imaginação dos artistas.