Um livro por dia | Stoner

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‘Como uma vida aparentemente banal pode ser tão interessante… Mais do que o interesse de uma vida, o que importa verdadeiramente é a arte do escritor a descrevê-la. A máxima serve tanto para verdadeiras biografias como para as ficcionadas, como a de William Stoner, criada em 1965 por John Williams (1922-1994). “Stoner” é um grande livro. Li-o depressa e com gosto estas férias, aconselhado por um amigo que se apaixonou de tal forma pela história que, de forma algo exagerada, o classifica como um dos melhores livros do último quarto do século XX. O jornal britânico The Guardian considerou-o uma das leituras obrigatórias em 2013. No mesmo ano, a New Yorker descreveu-o como o melhor romance americano de que você nunca ouviu falar.

O livro conta a história de um professor universitário de literatura medieval e renascentista, de origens camponesas, que nos parece a epopeia de um falhado, tão falhada como parecia ser a performance do próprio livro: “Stoner”, apesar de ter vendido apenas dois mil exemplares nos Estados Unidos no ano em que foi lançado, tornou-se um best-seller na Europa cinquenta anos depois, quando uma editora francesa reparou nele e o traduziu sem adivinhar o sucesso tardio que viria a ter.

Parece uma vida banal, a do homem que morre logo no primeiro parágrafo da primeira página, deixando nos outros uma marca de quase indiferença, embora nenhuma vida seja banal. Se pensarmos um pouco, acaba por ser também um livro sobre o ciclo da vida e do esquecimento. Nascemos, vivemos, morremos, e depois somos esquecidos ou lembrados por uns anos até que aqueles que nos conheceram e nos recordam também morrem e no fim fica um nome numa lápide, ou, no caso de Stoner, uma inscrição na biblioteca da faculdade. Fica o esquecimento. Ou um livro, no caso dele fica um livro, pelo menos ele acreditava que o seu livro permanecia. Não vou revelar a história, mas a narrativa contempla de certa forma o sonho americano da mobilidade social, um casamento estragado, uma paternidade falhada, e aspetos como as guerras e ódios académicos nas faculdades (como aqueles que todos nós conhecemos das nossas faculdades).

Num epílogo ao romance, com data de 2002, publicado na 6ª edição da D. Quixote, o escritor irlandês John McGahern cita uma rara entrevista de John Williams, dada já no final da sua vida, em que este fala de “Stoner”: “Penso que ele é um verdadeiro herói. Muitas pessoas que leram o romance acham que Stoner levou uma vida muito triste e má. Eu julgo que ele teve uma vida ótima. Teve, certamente, uma vida melhor do que a maior parte das pessoas. Fez o que gostava de fazer, tinha uma certa noção do que fazia e da importância do seu trabalho. Foi testemunha de valores que são importantes. O mais importante no livro, para mim, é a noção que Stoner tem do que é um emprego. Lecionar é para ele um emprego, um emprego no sentido melhor e mais honrado do termo. O emprego deu-lhe um tipo especial de identidade e fez dele quem era”. Bom, mas o melhor é mesmo lê-lo.’

 

Vítor Matos, Editor de Política do Expresso
in ‘O que ando a ler’, no Expresso Curto de 10/9/2018