Viver sem ler (Saramago) é perigoso

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Lembrando um aviso da personagem do cartoonista Quino, Mafalda: “Viver sem ler é perigoso porque obriga-[nos] a acreditar no que [nos] dizem.” Sermos leitores é também sermos leitores e intérpretes do mundo, é sabermos analisá-lo e questioná-lo, de modo a não cairmos em dogmas. Poucos o fizeram de forma tão exímia como José Saramago. A sua obra Ensaio sobre a cegueira continua a ser uma leitura fundamental e uma alegoria alarmante dos perigos que corremos quando deixamos de ver o outro.

Como disse William Faulkner, também ele vencedor do prémio Nobel da Literatura (em 1950), “[o] que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas permite-nos ver quanta escuridão existe ao nosso redor” (Faulkner citado por Javier Marías). Esse foi, realmente, o mote de grande parte da obra literária de José Saramago. Fazendo uso da fantasia e da realidade, da ficção e do relato histórico, como só ele sabia fazer, pintou-nos retratos da nossa sociedade e, em última análise, da nossa própria humanidade, iluminando, muitas vezes os aspetos que, por norma, estão votados à escuridão.

Foi, aliás, esse aspeto da sua criação literária que foi homenageado pela Academia Sueca, justificando a escolha do autor como aquele “que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”. É, igualmente, isso que as distopias pretendem fazer. Através da criação de realidades ampliadas e satirizadas da nossa, criam paralelismos entre as duas, de modo a servir de advertência para os perigos de certos comportamentos.

Saramago fazia este tipo de alertas recorrendo, frequentemente, ao humor, tendo feito críticas mordazes a instituições como a igreja, Deus e a religião ou o poder político. Em Ensaio sobre a cegueira, desenvolveu uma das suas maiores críticas à sociedade. Neste, “um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito” e, gradualmente  “[a] cegueira alastra como um rastilho de pólvora” até se tornar numa cegueira coletiva, um mundo de cegos – alegoria de um mundo (o real) de “cegos que vendo, não veem”.

Esta cegueira de Saramago pode ter muitas associações na nossa sociedade contemporânea. É a cegueira da indiferença, do individualismo, da intolerância … É, sobretudo, a cegueira do medo, alienante e contagiante e, por isso, perigosa. Como escreve numa passagem de Ensaio sobre a cegueira, num tom profundamente atual: “O medo cega”. E é, também, por isso que a literatura é tão importante: para convidar as pessoas a sair da sua zona de conforto e a descobrir o desconhecido, a confrontar o outro, vestir a sua pele e ver que, afinal, não somos assim tão diferentes. É por essa razão que, embora pintem uma realidade negra, os livros distópicos, por norma, não são totalmente despojados de esperança.

“O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no meio da noite (…)” – William Faulkner

Num mundo de cegos, há quase sempre um (ou dois, no caso de 1984) que começam, aos poucos, a delinear formas no nevoeiro, a distinguir o que é real do que não é e a ver as coisas como elas são (literal ou metaforicamente). É esse o caso da personagem principal (sem nome) de Ensaio sobre a cegueira que, para além de manter a sua visão, mantém também a sua humanidade, auxiliando o grupo a sobreviver não só à cegueira dos sentidos mas à cegueira maior, a cegueira ética, que os ameaça desumanizar. É também o caso de Winston e Julia, personagens de 1984, e do seu amor, que é como um golpe político contra um estado totalitário que proíbe as relações afetivas, ou de Offred em A História de uma Serva cuja resistência inspira, ainda hoje, à rebelião contra o conservadorismo e o fundamentalismo religioso no que diz respeito aos direitos das mulheres. É, igualmente, o caso dos leitores, que se recusam a acreditar meramente no que lhes dizem, como adverte Mafalda, e, assim, combatem os perigos de um mundo devotado ao medo e à ignorância.

Saramago escreve que “a cegueira é também (…) viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. A isso temos a acrescentar que cegueira pode também ser viver num mundo em que não se lê, ou ainda: O pior cego é aquele que não quer [l]er.