Holly Ringland | ‘Assim que percebi que os humanos eram responsáveis por livros, soube que era isso que queria ser’

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Holly Ringland cresceu, rebelde e de pés descalços, no jardim tropical da mãe, no norte da Austrália. Quando tinha 3 anos, disse à mãe que queria ser escritora, algo a que se dedicou desde então.  Em 2018 vê, finalmente, o seu primeiro livro – As Flores Perdidas de Alice Hart – publicado e  acarinhado pelo público internacional, tendo sido descrito como “o mais encantador romance de estreia” do ano. Nesta entrevista, fala-nos um pouco do seu livro e de como tem sido esta experiência.

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Como se proporcionou a história de As flores perdidas de Alice Hart?

Este livro teve a sua génese num trauma. Convivi com agressões masculinas durante boa parte da minha vida, o que silenciou a minha voz, a coragem e o sonho de me tornar escritora, que me acompanhava desde criança. Em 2012, iniciei um doutoramento em Escrita Criativa. A minha pesquisa incidiu nas experiências traumáticas e o processo de escrever ficção. Foi aí que tomei contacto com o conceito de Tom Spanbauer de “escrita perigosa”, que consiste em viajarmos até àquele ponto de dor que transportamos dentro de nós e escrevermos a partir dele; usando a ficção como a mentira que conta a verdade mais profunda. E percebi que nunca tinha escrito a partir desse ponto. No máximo, tinha escrito em torno dele, para além dele, apesar dele. Nunca a partir dele. Por isso, a minha pesquisa tornou-se o meu próprio apelo às armas, mas também suscitou uma série de perguntas novas. O que seria de mim e da minha vida se escrevesse sobre o que mais temia? Que história nasceria então, e como seria lida pelos corações dos outros, se alguma vez visse a luz do dia? Em que mais poderá um trauma converter-se senão em memórias que queremos esquecer? Foram estas as perguntas que me levaram a escrever As flores perdidas de Alice Hart.

As flores perdidas de Alice Hart foi descrito como “o mais encantador romance de estreia de 2018”. Esperava ter esta reação?

Não! Quando os meus agentes literários enviaram o romance para os editores australianos, tinha esperança de que pelo menos um editor o lesse e sentisse a história da Alice, decidindo publicá-la. Ainda não consegui assimilar por completo o acolhimento que recebeu. Quando o meu romance foi publicado na Austrália, em março de 2018, expliquei que essa experiência foi além de todos os meus sonhos de infância, não só pela feliz oportunidade de ser publicada internacionalmente, mas também pela profundidade de poder conhecer e ligar-me a leitores do meu trabalho pelo mundo inteiro. E sinto-me muito, muito grata.

Sonha em ser escritora desde os 14. Como é realizar um sonho de infância?

Até era mais nova. Tinha 3 anos quando disse à minha mãe pela primeira vez que queria ser autora! Foi com essa idade que ela me ensinou a ler. E assim que percebi que os humanos eram responsáveis por livros, livros mágicos, soube que era isso que queria ser. Uma escritora.
Concretizar o sonho que tenho desde que me lembro é uma experiência difícil de descrever. Todas as manhãs, quando acordo e me lembro de que aconteceu e que é real, e que o meu trabalho de escritora é o meu emprego, é como se ganhasse a lotaria todos os dias. Mas a sensação é ainda mais feliz do que o que penso que se sentirá quando ganhamos a lotaria, porque trabalhei muito para o conseguir.

O Sydney Morning Herald descreveu o seu romance com um “conto de fadas floral e obscuro.” O que devem esperar os leitores?

Adoro essa descrição do “As flores perdidas” porque é exatamente isso que os leitores vão ler: um conto de fadas no seu sentido mais tradicional, na medida em que é uma história que não foge da escuridão e da complexidade das ligações humanas, mas que está igualmente imbuída da beleza, da magia, do mundo natural e, mais importante, de um sentimento de esperança.

Todas as rosas têm espinhos, como o seu romance nos mostra claramente. Amor, perda, redenção e o desabrochar de Alice. Pode falar-nos um pouco mais desta história?

Alice Hart tem 9 anos e vive completamente isolada pelo mar, onde as flores encantadas da mãe e os seus significados escondidos protegem Alice, sobretudo dos humores obscuros do pai. Depois de uma tragédia que altera de forma irreparável a sua vida, Alice vai viver com uma avó que não sabia existir, em Thornfield, uma plantação de flores nativas gerida pela família, e que também oferece refúgio a mulheres que, como a própria Alice, se sentem perdidas ou destroçadas. Na tradição vitoriana, cada flor acolhe um significado para expressar o que as palavras não conseguem. Alice acomoda-se à sua nova vida e aprende a linguagem das flores para comunicar o que não consegue confessar. Mas, à medida que cresce, vai ficando cada vez mais frustrada com os segredos que rodeiam a história da sua família. Aos vinte e poucos anos, a vida de Alice é lançada num novo caos quando uma traição devastadora – e um homem que afinal não é o que parece – se conjugam para a fazer entender que há histórias que as flores não sabem contar. Alice começa a compreender que, se ela quer ter a liberdade por que tanto anseia, precisa de encontrar coragem para assumir a história mais poderosa que conhece: a sua.

As flores desempenham um papel importante neste romance. Qual foi a sua inspiração?

A parte mais bonita de escrever este romance foi a enorme honra de poder criar a linguagem das flores de Thornfield. Passei os primeiros anos da minha vida a brincar no generoso jardim da minha avó, que crescia livremente ao lado da sua casa, e cresci a ouvir a minha mãe a falar com as flores no seu jardim abundante. Depois de me mudar para Inglaterra em 2009, encontrei referências à linguagem das flores vitoriana, na pesquisa sobre formas de expressarmos as nossas emoções quando não as conseguimos verbalizar. Estava a pesquisar especificamente a mudez em crianças traumatizadas. E quando li sobre a loucura em torno do mundo floral que varreu a Europa no século XIX, fez-se luz. Fiquei por ali, a trabalhar o pano de fundo, até que comecei a escrever As flores perdidas. Sabia, com o que tinha aprendido com as mulheres que me criaram, que a flora australiana medra nas condições mais extremas, em paisagens e ambientes agrestes. Thornfield e a sua linguagem cresceram a partir daí, à medida que estudava as formas que usamos para encontrarmos a nossa voz, mesmo quando não somos capazes de contar literalmente as nossas histórias. Mergulhar em livros e arte sobre botânica e associar flores nativas a significados proporcionou-me uma fonte de maravilhamento e iluminação muito útil para as partes mais desafiantes e negras do romance.

O que gostaria de dizer aos leitores portugueses?

“As flores perdidas de Alice Hart” é um romance para aquele leitor que alguma vez sentiu a sua voz silenciada. Para aquelas mulheres que duvidam do valor e poder da sua própria história. Para leitores que adoram ficção imbuída do maravilhoso e livros que os consomem, conduzidos por personagens complexas que fazem escolhas erradas com as melhores intenções. Este livro é para os leitores que acreditam que as histórias podem ser a magia que possui o poder de mudar as nossas vidas. Espero que gostem muito do “Flores perdidas” e obrigada por lerem e, assim, darem vida à história da Alice.

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Postal com uma mensagem de Holly Ringland para os leitores de Portugal que diz: «Caros leitores de Portugal, obrigada pelo privilégio de lerem o meu primeiro romance, As Flores Perdidas de Alice Hart, em português! Espero que gostem! Desejo-vos todas as flores. Com amor, Holly Ringland»

 

Apesar de não ter como objetivo escrever uma biografia, este romance espelha a sua experiência pessoal? Ficcionar alguns aspetos resultou numa forma de catarse?

Para mim, a ficção é a verdade emocional. Este romance foi completamente escrito a partir de uma experiência particular na minha vida. Todos os cenários no “Flores perdidas” foram criados a partir de pessoas e locais que conheço e amo. A minha experiência ao crescer na costa sudoeste de Queensland alimentou o meu retrato da infância da Alice na costa, assim como a minha experiência de vida no centro da Austrália me ajudou a retratar a vida da Alice no deserto. Penso que não seria capaz de escrever este livro sem o conhecimento pessoal e a ligação às paisagens e às pessoas que recriei ficcionalmente. Nesse sentido, escrever este romance foi uma catarse maravilhosa; pude refletir através da ficção locais e pessoas que conheci e amei e deixei para trás, dando-lhes uma nova vida.

Os livros podem ser um refúgio para a tristeza?

Esse é, para mim, um dos aspetos mais poderosos dos livros.

Como se sente por se ver traduzida e editada em Portugal? Conseguiria traduzir esses sentimentos na linguagem secreta das flores de Alice?

Ser traduzida e editada em Portugal parece-me um sonho que não sabia que tinha, um sonho que não sabia ser possível e que agora se realizou. Se tivesse de transmitir o que sinto através da linguagem das flores nativas de Thornfield, oferecia-vos uma beladona violeta, que significa feitiçaria; uma flor de eucalipto negral, que significa fascínio; uma orquídea-rainha, ou consumida pelo amor; e craspedia, expressando gratidão.