Um amor para toda a vida | José e Pilar

36305_51248_17592

“Um dia de junho de mil novecentos e oitenta e seis, catorze, telefona para minha casa em Lisboa, onde eu então vivia, uma senhora que dizia chamar-se Pilar del Río, de profissão jornalista, leitora minha e que queria, uma vez que viajaria a Lisboa, gostaria, se eu tivesse tempo, de conhecer-me. E eu disse que sim senhor. Não era a primeira vez que um jornalista por uma razão ou outra queria falar comigo, e eu não sabia quem era a senhora, e combinámos encontrarmo-nos no Hotel Mundial onde ela ia hospedar-se (…).E assim foi, combinámos encontrarmo-nos às quatro da tarde. Fui ao hotel, à receção, e perguntei pela senhora Pilar del Río de cuja cara, de cuja figura eu não tinha a menor ideia.(…)

Foi para mim uma surpresa muito agradável. Tratava-se de uma mulher muito bonita, como continua a sê-lo. E, claro, falámos um pouco de livros, apresentou-se, e eu apresentei-me, e então propus dar com ela uma volta pela cidade, principalmente porque tínhamos falado muito de Fernando Pessoa e de Ricardo Reis.(…)

Íamos conversando sobre coisas várias, sobre Espanha, sobre isto, sobre aquilo, e a certa altura ela diz-me, já não sei a que propósito, mas diz-me, que tinha sido ‘monja’, que é como nós dizemos, freira. Coisa que me pareceu esquisitíssima. Não é que eu duvidasse, mas a verdade é que uma mulher tão elegante, tão bonita como ela era, e como continua a sê-lo, repito, e com esse tom de paixão e entusiasmo em tudo o que diz e tudo o que faz, não coincidia nada com a ideia de uma ‘monja’. (…)

No fim trocámos as moradas, os telefones, tudo isso, e ficámos assim. Gostei de tê-la conhecido e tive o pressentimento de que aquilo iria levar a algo mais completo, mais sério. E creio que ela deve ter tido…creio não, sei que ela teve a mesma sensação: Eu havia encontrado aquela mulher e ela havia encontrado este homem. Mas nem eu lhe contei nada da minha vida nem ela me contou nada da sua.

Isto aconteceu em junho, catorze de junho, e a tal história de que falamos às vezes de que os relógios que temos em casa que não funcionam estão parados às quatro da tarde, é por causa da hora em que nos conhecemos.

(…) Casámos em oitenta e oito, salvo erro no dia vinte e nove de outubro, e a partir daí, pronto, a partir daí é a vida de um casal que está bem, que está fazendo bem aquilo que tem de fazer, uma vida em comum, uma vida sólida, uma vida feliz, e já está, nada mais.(…).

josepilar.png

(…) Tenho muitas razões para pensar que o grande acontecimento da minha vida foi tê-la conhecido.(…) se se pudesse quantificar, se se pudesse quantificar, então eu diria,

‘A pessoa a quem eu mais amei, e a pessoa a quem mais amo no mundo, é a Pilar’.

E a minha filha dirá: ‘Então não me amas a mim?’ ‘Claro que sim, mulher!’, diria eu. ‘Claro que sim, mas não é a mesma coisa.’ (…)

Se você disser ‘Mas é capaz de imaginar a vida sem ela?’, eu terei de dizer que não sei como é que iria viver, viveria evidentemente, mas não sei como.(…) Agora não queria estar na pele da Pilar , quando eu desaparecer…(…)

Mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro porque as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra que está no jardim, portanto, continuaremos…de alguma maneira…juntos (sorri)…, enfim, na mesma casa, e como eu lhe disse ‘de vez em quando, quando te lembrares de mim, põe uma florzinha em cima da pedra para eu pensar que ainda estou a ser recordado’.”

José Saramago, sobre Pilar del Río, a mulher que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.

Dizia Saramago que no casamento ‘não há dois, mas três…e esses três são os dois que participam, mais a união que constituem(…).’ Pilar não acredita que se morra de amor. Vive-se de amor, disse. Depois da morte de Saramago, ficou a união que ambos construíram. Sobre isso, diz Pilar: “Do casamento salvou-se a união, pelo menos uma parte. Abomino a expressão morrer de amor. Morre-se porque chegou a hora. Morre-se porque se tem uma doença ou uma depressão. Vive-se de amor. Se não se vive de amor, o melhor é não viver”.

 

Um amor imortalizado em páginas:

 

 

1. José e Pilar, Miguel Gonçalves Mendes

2. Cadernos de Lanzarote I-V, José Saramago

Saramago imagem 2-miniatura-800x534-135482.jpg