Os livros censurados pelo Estado Novo

 

Hoje, dia 25 de abril de 2019, celebramos 45 anos de liberdade, depois de mais de 40 anos de um Portugal submergido num regime de censura e opressão política. Desde a comunicação social até às mais diversas formas de arte, todas as publicações passavam pelo escrutínio do Lápis Azul, nome pelo qual ficou conhecida a censura da polícia política, que rasurava a informação considerada imprópria, aos olhos do Governo.

De acordo com o investigador José Brandão, que em 2012 compilou uma lista com 900 livros censurados pelo Estado Novo, bem como a informação que integra um catálogo publicado pela Universidade de Aveiro, em 2014, relembramos algumas das obras literárias censuradas, de 1933 a 1974, sinais de uma época que nos faz valorizar, hoje, cada vez mais, a liberdade de expressão.

 

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O Anticristo, de Friedrich Nietzsche 

Publicado pela primeira vez em 1895, O Anticristo é uma das obras mais polémicas de Nietzsche, pela sua forte crítica e oposição ao cristianismo. Célebre pela frase “O Evangelho morreu na cruz”, o livro destaca-se pela afirmação de que a vitória do cristianismo sobre o paganismo, na época Greco-Romana, é considerada um retrocesso na história das civilizações.

O Estado Novo era, nessa altura, fortemente ligado à Igreja Católica, concedendo-lhe diversos privilégios, pelo que a obra do alemão Nietzsche foi proibida em 1973.

 

 

 

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Antologia de Poesia Erótica e Satírica, de Natália Correia

Em 1965, a obra de Natália Correia foi imediatamente apreendida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), considerada um escândalo literário e matéria de julgamento em Tribunal Plenário. A autora, o editor e muitos dos poetas no livro reunidos, foram acusados de ofender o “pudor geral”, a “decência”, a “moralidade pública” e os “bons costumes”.

Antologia de Poesia Erótica e Satírica foi “um marco relevante por divulgar inúmeros textos poéticos ditos imorais”, segundo Daniel Pires, presidente da direcção do Centro de Estudos Bocageanos. Uma coleção notável de literatura erótica portuguesa.

 

 

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Bichos, de Miguel Torga

Uma coleção de 14 contos, protagonizados por humanos e animais que partilham características e enfrentam os mesmos problemas do dia-a-dia, com um carácter profundamente humano, num tom dramático e, por vezes, até desesperado – Bichos foi publicado pela primeira vez em 1940, tendo sido censurado pelo Estado Novo em 1953.

Miguel Torga, autor oriundo de Trás-os-Montes, era apelidado de “escritor comunista”, ainda que ele tivesse tentado provar o contrário, ao enviar diretamente a Salazar um dos seus livros para que este pudesse analisar a sua escrita. Todavia, para além de Bichos, o escritor viu mais 12 livros seus proibidos pela censura portuguesa, como A Criação do Mundo ou Contos da Montanha.

 

 

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Trópico de Capricórnio, de Henry Miller

Apesar de ter sido proibido em 1961 pelo Estado Novo, a verdade é que a obra de Henry Miller tem um longo historial de censura desde a sua primeira publicação, em Paris nos anos de 1930. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o livro também foi banido por ser considerado “pornográfico”, embora continuasse a ser distribuído em França e contrabandeado para outros países.

Trópico de Capricórnio narra a vida de um escritor americano entre prostitutas, proxenetas, pintores sem dinheiro e escritores do submundo parisiense, num relato ficcional que é, em tudo, paralelo ao do próprio Miller. O escritor ergue, assim, um hino ao mundo da sexualidade e da liberdade nas suas formas extremas, tornando-se controverso e objeto de censura não só em Portugal, mas também noutros países.

 

 

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As Torres Milenárias, de Urbano Tavares Rodrigues

Publicada pela primeira vez em 1971, é a única peça teatral do escritor. As Torres Milenárias, tem como ponto de partida uma invasão extraterrestre ao planeta Terra, e foi proibida no mesmo ano do seu lançamento, por ser considerada uma crítica à burguesia e por “descrever cenas da mais grosseira imoralidade” e “de puro deboche” que, aos olhos da censura, não correspondiam à verdade.

Contudo, foram vários os livros de Urbano Tavares Rodrigues censurados, entre eles Esta Estranha Lisboa, devido à imagem que retratava, de um país amordaçado pela censura e pela miséria.

 

 

 


 

Para além destes, foram vários os autores que viram as suas obras proibidas em Portugal. Entre eles, destacam-se principalmente obras de grande carga filosófica e política, como Karl Marx e o seu O Manifesto Comunista, Jean Paul Sartre com Os Sequestrados de Altona e até Martin Luther King e a obra Força para Amar (Strength to Love, no original).

Entre os autores portugueses que também passaram por este escrutínio, encontra-se José Vilhena, considerado o pai do humor em Portugal, e um dos escritores com mais obras censuradas na época, ou ainda José Afonso que, na altura, para além das suas músicas, viu também vários livros seus serem proibidos.

Celebremos, pois, a liberdade e, porque não, aproveitemos agora para ler ou reler estas obras, em homenagem ao talento e persistência dos seus autores.