5 curiosidades sobre Fernando Pessoa

ilustrações: joão fazenda

Há 131 anos (13 de junho de 1888) nascia Fernando Pessoa, o poeta que foi muitos (‘A minha arte é ser eu. Eu sou muitos’).

Conhecemos alguns pormenores sobre a sua vida na África do Sul, dos heterónimos mais populares – sempre de mãos dadas com o seu ortónimo e criador -, e já todos ouvimos falar da sua paixão pela astrologia, que resultou na criação de mapas astrais para as suas diferentes personalidades (ou, inclusive, para clientes).

Mas sabia que um dos seus heterónimos, Maria José, era uma jovem corcunda de 19 anos? E tem conhecimento que há um vinho batizado em honra desta incontornável figura maior da literatura? E alguma vez ouviu dizer que Pessoa tentava comunicar com os espíritos, através da sua escrita?

Fomos tentar descobrir algumas das curiosidades sobre o desassossegado poeta que tinha em si todos os sonhos do mundo.

1. O primeiro poema?

Numa carta de 1935, a Adolfo Casais Monteiro, Fernando Pessoa afirma que tinha seis anos quando começou a interagir com o cavaleiro francês Chevalier de Pas, com quem trocava cartas e “cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade”.

É na escrita que encontra consolo para o seu isolamento, principalmente após a morte do pai e, um ano mais tarde, do irmão. Sensivelmente nesta altura, escreve aquele que aparenta ser o seu primeiro poema, dedicado à sua mãe: “Ó terras de Portugal / Ó terras onde eu nasci / Por muito que goste delas / Inda gosto mais de ti.” 

2. Maria José, a jovem corcunda

Entre os vários heterónimos de Pessoa, há um heterónimo feminino, utilizado uma única vez: Maria José. Uma jovem com 19 anos, com pouco tempo de vida, em consequência da tuberculose. Além de corcunda, sofria também de um problema nas pernas, que lhe limitava a mobilidade.

Era uma mulher presa no seu corpo, daquelas figuras que vêem passar o mundo pela janela, sem nunca o experimentar. É por essa janela que se apaixona pelo serralheiro, o Sr. António, que por ela passa todos os dias. Sem coragem para lhe falar, confessa o seu amor em forma de carta, que começa em tom de despedida: “O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo”.

foto: o meu pessoa
3. O flagrante delitro

Era comum Fernando Pessoa, quando se encontrava a trabalhar, levantar-se, pegar no chapéu, ajeitar os óculos e dizer que ia até ao Abel. Este hábito do poeta intrigou um colega de trabalho, Luiz Pedro Moitinho de Almeida, que se apercebeu, algum tempo depois, que as idas ao Abel eram, nada mais nada menos, que uma visita ao depósito mais próximo, da casa Abel Pereira da Fonseca, fundador da Companhia Agrícola do Sanguinhal, para tomar um copo de vinho.

Em homenagem ao poeta e ao fundador desta empresa, foi recriada a marca de vinhos Casabel. Nos rótulos, foi reproduzida a dedicatória que Pessoa fez a Carlos Queirós (1907-1949): “Carlos: Isto sou eu no Abel, já próximo do paraíso terrestre, aliás perdido”.

Ofélia, eterna namorada do autor de Livro do Desassossego, e tia de Carlos Queirós, quis uma fotografia igual à recebida pelo sobrinho e, quando Pessoa lhe fez a vontade, ofereceu-a com uma dedicatória: “Fernando Pessoa em flagrante delitro”.

4. Em conversa com os espíritos

Teresa Rita Lopes é uma das mais reconhecidas investigadoras pessoanas em Portugal. Estuda a obra de Fernando Pessoa há mais de meio século e, em 2016, deu uma entrevista ao jornal Sol sobre a sua relação com o poeta. 

Nela, revela que Pessoa fazia escrita mediúnica, com o intuito de perceber se os espíritos se manifestavam através dele. “Ele estava sempre no limiar entre acreditar e brincar com isso“. Deu dois exemplos – um poema com a assinatura de um espírito, que lhe disse “No good” e um outro onde, no fim, escreve “Vardur [um dos espíritos) + Pessoa”, que obtém uma resposta de Vardur: “This poem is yours, my boy”.

5. As duas tentativas de 'poesia da mesquinhez'

“Conto de fadas de quem não tem imaginação”, “poesia da mesquinhez”. Foi assim que Fernando Pessoa descreveu o romance, género literário de que nunca gostou particularmente. Apesar disso, existem dois romances que — como muitos outros textos — ficaram por acabar. Reacção e Marcos Alves foram escritos por volta de 1909, estando agora acessíveis ao público no livro A Porta e Outras Ficções, editado pela Assírio & Alvim.

Os dois romances, que se juntam a sete contos inéditos na ficção pessoana, são os únicos do género encontrados no seu espólio.  Fernando Pessoa achava “difícil, senão impossível, manter, num longo texto, a perfeição desejada”

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