Junho 14

O mês de maio em 16 livros

Umberto Eco disse que o mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê. O mundo está também cheio de acontecimentos diários e o difícil é parar para ver, entender e processar.

Nós fizemos uma pausa e destacamos alguns dos principais acontecimentos do mês de maio. Complementarmente, apresentamos-lhe alguns livros relacionados com esses temas, que nos permitem aguçar argumentos, explorar perspetivas ou, simplesmente, descobrir mais um livro fantástico à boleia do que se passa no mundo.

Afinal, nós somos (também) aquilo que lemos, não somos? 

Venezuela. Leopoldo López libertado e do lado dos militares

Leopoldo Lopéz, um dos símbolos da oposição venezuelana, estava detido em prisão domiciliária acusado de incitamento à violência. Militares terão ido buscá-lo a casa na manhã desta terça-feira.” (RTP)

Cai a Noite em Caracas, de Karina Sainz Borgo

Num país que, antes da crise, era a terra dos sonhos, da beleza e da prosperidade, e que agora está esgaçado pela corrupção, pela criminalidade e repressão, Adelaida procura apenas sobreviver. A sua mãe acaba de morrer de uma doença prolongada e Adelaida fica sem nada, sem ninguém, à deriva numa cidade em que tudo falta menos a violência e a extorsão.

Um livro que mostra o retrato de uma mulher que, perante uma situação extrema, terá de transformar-se, renegar o passado para se agarrar a uma nova vida. É a história de muitas outras mulheres, homens, crianças e velhos, encurralados num país em que a violência, a miséria e a traição marcam o ritmo diário da existência.

Consumir drogas não é crime há 20 anos

“O desafio hoje é a cocaína e o vício dos ecrãs. Há 20 anos Portugal foi censurado por entidades ligadas à ONU por decidir descriminalizar a posse e consumo de droga. Agora é apontado como um exemplo.” (DN)

Beautiful Boy, de David Sheff

“Que aconteceu ao meu filho? Que fiz eu de errado?”. Estas foram algumas das perguntas dolorosas que martirizaram David Sheff durante o longo período de dependência de drogas do filho Nic e de várias tentativas de recuperação. Antes de se tornar toxicodependente, Nic Sheff era um rapaz encantador, alegre e divertido, aluno excelente e praticante de desporto. A toxicodependência fez dele um débil fantasma de si mesmo, que mentia, roubava e vivia na rua.

Neste livro, Sheff descreve os primeiros sinais de aviso, e a forma como a sua preocupação com Nic se tornou obsessiva, um vício em si mesmo e um peso tremendo para toda a família.

Os Superficiais, de Nicholas Carr

Considerado o livro sobre o poder e o perigo da tecnologia, esta obra aborda desassombradamente as consequências intelectuais e culturais da Internet. Em parte história das ideias e em parte divulgação científica, Os Superficiais abunda em apreciações certeiras e cáusticas ao mesmo tempo que nos inquieta com questões profundas sobre o estado da mente contemporânea. Uma leitura urgente sobre o actual pensamento superficial.

“É um passeio fascinante pelas alterações que as novas tecnologias estão a introduzir na nossa mente, e também no nosso comportamento emocional”. Ana Cristina LeonardoExpresso

Portugal só usou 25% das verbas europeias para integrar refugiados e imigrantes

“Tribunal de Contas analisou a forma como Portugal geriu e utilizou os fundos europeus destinados a receber refugiados e imigrantes, desde o pedido de asilo até à sua integração ou regresso ao país de origem, entre 2014 e 2018.” (Público)

Diário de um Migrante, de Maria Inês Almeida

Esta é a história de um pássaro que tem de abandonar o seu país, a sua casa, família e amigos. Um livro que deixa uma mensagem de esperança parar todos aqueles que também perderam as suas asas e têm de recomeçar.

“De uma forma simbólica, tentei falar sobre a crise dos refugiados neste livro. É a história de um pássaro que também deixa a família por causa da guerra e que está no barco, a partir ainda não sabe muito bem para onde. Mas nos meus livros deixo sempre uma mensagem de esperança, é um dos cuidados que tenho quando escrevo para crianças. Uma mensagem de esperança e uma mensagem de que os heróis não estão só nos desenhos animados, que há pessoas de carne e osso que são heróis.”  Maria Inês Almeida

Uma Esperança Mais Forte do que o Mar, de Melissa Fleming

Uma chamada de atenção para a situação dramática por que passam milhares de refugiados sírios, que procuram abrigo na Europa, tentando escapar a uma guerra que destruiu o seu país. Esta é a história extraordinária de uma jovem corajosa e da sua luta pela sobrevivência.

“Melissa Fleming é a porta-voz mais competente que eu encontrei em 45 anos de vida política e profissional. Ela revela não só conhecimento do tema dos refugiados, inteligência nas análises e talento literário, mas também uma extraordinária sensibilidade humana”.  António Guterres

Violência doméstica: Quase cinco detidos por dia em 2019

“Em menos de cinco meses, a PSP e a GNR detiveram 618 pessoas na sequência de processos relacionados com violência doméstica. Os números traduzem-se numa média de quase cinco detenções por dia.” (Sábado)

A Mulher Transparente, de Ana Cristina Silva

Clara pensava que estava a casar com um homem de sonho que a resgataria da miséria material e afectiva da sua infância. Mas o que ela pensava vir a ser um casamento feliz foi-se transformando, lentamente, no seu pior pesadelo, e a sua vida passou a ser marcada pela agressão física e psicológica. Ferida e desesperada, Clara chega a planear o assassínio do marido para se libertar e impedir que o filho crescça naquele ambiente de violência.

Este romance, escrito numa prosa arrebatadora, prende da primeira à última página, relatando o drama da violência doméstica.

Uma História Negra, de Antonella Lattanzi

Carla e Vito casaram-se muito novos. Foram o grande amor um do outro. Amavam-se muito, mas o amor de Vito era obsessivo e violento. Um sorriso no rosto de Carla ou um vestido curto eram o suficiente para fazê-lo perder a cabeça e levantar-lhe a mão.

Assim que os filhos mais velhos, Nicola e Rosa, saem de casa, Carla consegue divorciar-se e muda-se com Mara, a filha mais nova, para um bairro nos subúrbios. No entanto, Vito continua a atromentá-la, a persegui-la e a ameaçá-la. No terceiro aniversário de Mara, cedendo à insistência da filha, Carla convida Vito para o jantar. Depois de muito tempo a família está reunida e a noite corre surpreendentemente bem. Na sequência, Vito desaparece.

Benfica sagra-se campeão nacional pela 37ª vez

“Na última jornada do campeonato, o Benfica venceu o Santa Clara e conquistou o título de campeão nacional.” (O Jogo)

Béla Guttmann, de David Bolchover

Béla Guttmann, o primeiro treinador superstar do futebol, foi o homem que abriu caminho aos famosos treinadores da era moderna. Sobrevivente do Holocausto, escapou por pouco à morte escondido num sótão perto de Budapeste, enquanto milhares de compatriotas judeus eram levados para o extermínio. Em 1958 chega a Portugal para treinar o F.C. do Porto, que com ele ganha o Campeonato Nacional (1958-59).

Na época seguinte é o treinador do Benfica, que com ele ganha consecutivamente o Campeonato Nacional (1959-60/1960-61), a Taça de Portugal (1961-62) e a Taça dos Campeões Europeus (1960-61/1961-62). É também pela mão de Guttmann que, em 1960, Eusébio ingressa no Benfica. Após os êxitos alcançados, a recusa de um aumento motiva a saída do treinador. Na despedida este terá declarado: “Sem mim, nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra taça europeia!”, frase que ficou conhecida como a “maldição” de Guttmann.

Chico Buarque Vence Prémio Camões 2019

“Anúncio do vencedor do mais importante galardão da língua portuguesa foi feito esta terça-feira, na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro. É o 31.º nome na lista e o 13.º brasileiro.” (Expresso)

Tantas Palavras, de Chico Buarque

Pela primeira vez em Portugal, a vida e a palavra de Chico Buarque num só volume. Tantas Palavras reúne todas as letras escritas por Chico Buarque desde Tem mais samba (1964), que ele considera o marco zero da sua carreira. Num texto a que não faltam humor e emoção, revelando saborosas histórias, o leitor acompanha o escritor na sua fascinante trajectória de homem e de artista, para com ele desembocar na serena maturidade de um músico que se afirmou também como grande romancista.

Adoção em Lisboa com processos atrasados por baixa da única funcionária

“A única funcionária do Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa que recebe as candidaturas à adoção esteve de baixa e não foi substituída. Resultado: processos entregues no início do ano ainda estão parados, quando a lei impõe um prazo de seis meses para serem concluídos.” (DN)

As Crianças Invisíveis, de Patrícia Reis

M. é uma criança habituada a ser usada e devolvida por famílias sucessivas como um produto que não satisfaz o cliente. Cresce numa instituição de acolhimento, onde vai descobrindo o poder da amizade e as armadilhas do desejo e da paixão. Esta é a sua história até chegar à idade adulta, atravessando um processo de invisibilidade, no qual a dor se confunde com a esperança de encontrar uma vida a que possa chamar sua. Ao seu lado existem outras crianças e ainda Conceição, a assistente social que escolhe amar M. incondicionalmente.

As Crianças Invisíveis é um romance que alia um exercício literário ímpar com um profundo trabalho de investigação sobre abandono, maus-tratos e adopção. 

Abstenção em Portugal com valor record

“As projeções ICS/ISCTE/GFK Metris para a SIC apontam para uma abstenção entre os 66,5% e os 70,5%, o valor mais alto de sempre em Portugal, ultrapassando os 66,2% registados nas últimas, em 2014.” (SIC Notícias)

O que é que os portugueses têm na cabeça?, de Marisa Moura

A jornalista Marisa Moura mergulhou em textos de pensadores portugueses e estrangeiros de hoje e de outros tempos, analisou estatísticas, estudou comportamentos e questionou especialistas para tentar encontrar uma resposta para esta incómoda pergunta. O que é que os portugueses têm na cabeça? Haverá características comuns a todos nós, habitantes deste país com nove séculos de história, recordista no consumo de antidepressivos? 

Marisa Moura fala-nos, num tom bem-humorado e acutilante, das características dos portugueses, reunindo exemplos concretos da nossa história passada e presente, numa tentativa de organizar ideias e ilustrar a nossa (in)consciência coletiva. Estereótipos, ideias feitas… ainda assim características que nos permitem refletir e também sorrir.

Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram em branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%.

Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar em branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de rutura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar.

Partidos de extrema-direita crescem no parlamento europeu

“As eleições deste domingo trouxeram um aumento do número de eurodeputados vindos da extrema-direita. No entanto, o crescimento foi mais contido do que se chegou a projetar.” (RTP)

Como Perder um País?, de Ece Temelkuran

Um apelo urgente à ação de uma das pensadoras políticas mais respeitadas da Europa, e um verdadeiro guia de campo para identificar os padrões e mecanismos astuciosos da vaga de populismo que varre o mundo atual – antes que seja demasiado tarde.

“Isso não pode acontecer aqui”. Ece Temelkuran ouviu esta frase a pessoas sensatas em Inglaterra na noite do referendo ao Brexit. Ouviu também gente razoável a proferi-la na América na noite da eleição de Trump, ainda que fosse abafada pelos gritos de “Construa o muro!”. Ouviu-a a pessoas racionais na Turquia, quando Erdogan foi eleito fraudulentamente, reconstruiu a economia com base no compadrio e classificou os seus opositores como terroristas. Este livro explica-nos que o populismo e o nacionalismo não chegam ao poder de forma transparente: vão-se infiltrando. 

Reino de Amanhã, de J. G. Ballard

Um homem armado abre fogo sobre os clientes do Metro-Centre, um gigantesco centro comercial nas imediações do aeroporto de Heathrow. Uma das vítimas é o pai de Richard Pearson, um executivo ligado à publicidade, recém-desempregado. O principal suspeito é libertado pouco tempo depois, sem qualquer acusação.

Richard, determinado a desvendar o mistério que envolve o caso, começa a ter fortes suspeitas de que algo muito maior e sinistro habita na aparentemente pacata cidade de Brooklands. Ao deparar-se com um mundo neofascista onde os motins são frequentes, as comunidades imigrantes são atacadas por hooligans e os acontecimentos desportivos se transformam em comícios políticos chauvinistas, Richard conhece a verdadeira cúpula do Metro-Centre, que, acima de toda a cidade, controla a população como se transformada no olho de um todo-poderoso deus urbano.

Onda verde invade a Europa. Será que isso terá efeitos práticos?

“Partidos ecologistas ou partidos que ganharam votos graças ao voto ecologista, como o PAN, em Portugal, foram a sensação das eleições europeias. A agenda verde terá ganho espaço para que haja mudanças práticas e políticas reais?” (DN)

Manual de Combate às Alterações Climáticas, de João Camargo

O mundo já está muito diferente daquele em que a nossa civilização floresceu: mais quente, mais extremo, mais inseguro. Para a frente, muito além da incerteza, ficam certezas: ainda pode piorar mais. O sistema de produção em que vivemos criou uma devastação ambiental e social sem precedentes na nossa história enquanto espécie. De entre todas essas devastações, a alteração da composição da nossa atmosfera e o aquecimento global do planeta destacam-se pelo seu potencial catastrófico, alterando os climas em que a nossa espécie proliferou.

Num mundo cada vez mais desigual, pendem sobre nós crises simultâneas: da banca, do emprego, da produção, do ambiente, do clima, da democracia ou do capitalismo. É a crise do próprio Homo sapiens, com a colisão entre o que é e o que pode ser. Nada ou tudo: a urgência das alterações climáticas é a urgência da Humanidade. Para isso precisa de lutadores, pessoas empenhadas em resgatar o futuro. Por isso, para aprender e ensinar a combater, este livro é um (feroz) guia de combate.

O Fim de Onde Partimos, de Megan Hunter

Enquanto Londres é submersa por cheias fruto de uma misteriosa crise ambiental, uma mulher dá à luz o seu primeiro filho, Z. Dias mais tarde, a família vê-se forçada a abandonar a sua casa, de modo a manter-se em segurança. De sítio para sítio, de abrigo em abrigo, a sua jornada é carregada de medo e esperança, à medida que as pequenas mãos de Z conhecem o mundo que ele vê pela primeira vez, crescendo e esticando-se alegremente contra todas as expetativas.

Num mundo familiar que se tornou perigoso e instável, forçando as pessoas que nele vivem a tornarem-se refugiadas, esta é a história de uma nova maternidade, no centro de um cenário tenebroso: um futuro imaginado tão realista quanto assustador. E, ainda assim, enquanto o país em seu redor começa a ruir, o mundo desta família — um mundo vivo, cheio de esperança reanimada— canta, pleno de amor.