Junho 18

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A Revista “Somos Livros” chega amanhã às livrarias

Para fazer esta revista foram precisos vários poemas. Nenhum deles foi maltratado ou magoado. O mesmo não se pode dizer de nós, que nunca saímos incólumes de um poema. Principalmente quando juntamos Sophia e Jorge de Sena nas mesmas páginas. Mas já lá vamos.

Está aberta a época a que muitos chamam silly. Para os livrólicos, como nós, esta é a altura do ano em que traçamos objetivos mais ambiciosos (e, vá, por vezes, irrealistas) de leitura. Com a perícia de um Niemeyer, começamos a estruturar uma assombrosa pilha de livros para ler nas férias. “A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem.“, dizia ele. E nós sonhamos. Seguir-se-á a já previsível tarefa hercúlea de os conseguir encaixar todos na mala, entre os ténis, o chapéu, as t-shirts e o protetor solar (e de, mais tarde, conseguirmos também nós caber no fato de banho). A gente tem que sonhar. Está em curso a operação bookini (a língua mãe que nos perdoe, mas a palavra em inglês estava mesmo a pedir o trocadilho).

“Os livros são coisas que se apanham, como uma gripe”, diz Lobo Antunes, que escreve há quarenta anos e não sabe viver de outra forma. Nós agradecemos e fomos desdobrar as palavras – as dele e as de outros, sobre si -, tentando descortinar esse delírio organizado, do homem que quis ser tudo, menos consensual. “A Última Porta Antes da Noite” (2018) é o seu último romance. “Às vezes, penso que talvez tenhamos nascido com certo número de livros cá dentro. Se eu não os escrever, a minha vida não tem sentido.” Se Lobo Antunes não os tivesse escrito, também a nossa vida seria diferente.

Por estes dias, o nome de Sophia de Mello Breyner ecoa por todo o lado: trá-lo a brisa que nos invade as janelas abertas, dança nas manchetes de notícias, veste-se de homenagens e descansa, certamente, nas ondas, onde prometeu vir colher os instantes por viver (“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar.”). Nasceu há cem anos e fez-se eterna nas palavras que soube juntar como ninguém. “A poesia sempre foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso.“ Nos poemas de Sophia, os pássaros continuam a cantar.

Há cem anos nascia também o homem que não queria morrer sem saber qual a cor da liberdade. Figura central da literatura portuguesa do século XX, romancista, ensaísta, tradutor, pensador polémico. Viveu quase duas décadas no exílio e nunca regressou a Portugal. Recordamos-lhe a vida e a luz que ainda emana das suas palavras, como faróis que cegam quaisquer tentativas de esquecimento. “Uma pequenina luz bruxuleante / não na distância brilhando no extremo da estrada / aqui no meio de nós e a multidão em volta.“ Jorge de Sena, aqui, no meio de nós.

É universalmente apontado como um dos maiores génios da história e dificilmente poderá ser enquadrado nas definições feitas de verbos pequenos. Preencheu os seus 67 anos de vida com desassossego e explorou a pintura, a escultura, a música e fez incursões na ciência e na engenharia. Revolucionou a Renascença e inventou um mundo que só nasceria cinco séculos depois da sua morte, comprovando-se que era um homem muito à frente do seu tempo. Conheça o verdadeiro código de (Leonardo) Da Vinci.

Saramago chamou-lhe “Uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa.“ José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais talentosos e premiados da última década, está em contagem decrescente para o lançamento de um novo romance. Nós conversamos com ele e recordamos as fronteiras da sua geografia literária.

Edson Athayde escreveu, há dias, que os livros são “filhos de papel“ (“Foi a gente que fez, mas nunca se sabe por onde andam.“). É uma definição maravilhosa e não queríamos fechar a página sem a partilhar consigo que, como nós, ama estes filhos como se fossem nossos. Nem sempre são fáceis, mas valem tanto a pena. Boas férias e boas leituras.

BERTRAND LIVREIROS