“Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”

Saramago deixou-nos há 9 anos.
Acreditamos, no entanto, que ele (tal como cada um de nós) viverá até que desapareça a última pessoa que dele se recorde. 

Ilustração de Alexandra Silva

O ponto de partida desta ilustração foi uma citação do autor: “Eu não invento nada. Limito-me a pôr à vista. Levanto as pedras e mostro o que está por baixo. Nós somos o outro do outro”.

O resultado foi a representação do autor, mostrando o que está por baixo, com o rosto parcialmente ilustrado com excertos de três das suas obras, Memorial do Convento, Levantando do Chão O Evangelho Segundo Jesus Cristo, acompanhado pela oliveira onde foram depositadas as suas cinzas, que se funde com o próprio autor e, na retaguarda da imagem, a Fundação José Saramago.

18 de junho de 2011, um ano depois da sua morte, à hora a que morreu (11:30h), foi na Fundação José Saramago, debaixo de uma oliveira, transplantada do olival centenário que ficava perto da casa dos avós de José Saramago, na sua aldeia natal, Azinhaga do Ribatejo, que as suas cinzas foram depositadas.

Aos tambores da orquestra de percussão Tocá Rufar seguiram-se as palavras do professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho, que leu Palavras para Uma Cidade, um texto escrito por Saramago sobre a cidade de Lisboa. Pilar segurava nas mãos rosas brancas e a multidão, que assistia, segurava os livros Memorial do Convento, que haviam trazido de casa. Seguiram-se as Palavras para Ti, uma mensagem emocionada, da escritora Lídia Jorge: “Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (…), serás os milhares de páginas que escreveste (…) De resto, nós queremos que este momento seja alegre, que sejas seiva desta cidade”.

"Quanto a nós, enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar".

Por fim, Pilar del Río depositou as cinzas junto às raízes da oliveira, escolhida, pelo presidente da junta de freguesia da Azinhaga do Ribatejo, por ser aquela onde ele imaginava que pudesse estar o lagarto verde que Saramago descreve no seu livro As Pequenas Memórias. As cinzas foram cobertas por terra de Lanzarote, colocada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. A Violante, filha de José Saramago, coube a deposição da obra Palavras para José Saramago, textos que foram escritos sobre o escritor português, nos dias que se seguiram à sua morte.

A oliveira terá como companhia duas placas de pedra: “José Saramago 1922-2010”, lê-se numa delas; na outra, a última frase do romance Memorial do Convento: “Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”.

in revista Somos Livros, ESPECIAL Saramago (junho 2018)