Filipa Leal: “A poesia é como ter uma chave fixa do Euromilhões”.

A Filipa, nas suas próprias palavras

Filipa Leal nasceu no Porto, em 1979. Quando era pequenina, queria ser cientista ou palhaço. Tinha, como se calcula, a mania das grandezas.

Está convencida que a família dela é mais especial do que as dos outros. 

Defende que os adultos deviam ter o mesmo direito que as crianças de chorar para não irem trabalhar. Alguém que lhes dissesse: pronto, não chores, hoje não vais, e que  ficasse ali com eles, no quentinho, a pôr o cinema em dia.

Tem um defeito de rotação no rim esquerdo, e também no direito, embora mais ligeiro. Tem outros defeitos, mas nenhum deles de nome tão pomposo.

Acredita que o mundo se divide entre os que preferem Londres ou Paris. 
Prefere Londres.

É sempre com algum deslumbramento e muito medo que se parte para uma conversa com uma poeta viva. Os poetas mortos são mais fáceis de retratar. A coisa complica-se se tivermos por hábito devorar a poesia dessa autora e, pior, se um dos seus poemas teve, um dia, o descaramento de nos fazer chorar. Tropeçamos logo numa frase que a Filipa disse numa entrevista: “Como jornalista, tenho o maior respeito por quem me faz as perguntas certas (…)”. A partir daqui, é ter fé na prosa e acreditar que não convidaremos, para a conversa, as perguntas erradas. Ela começa por pedir desculpa pelo seu poema me ter feito chorar. Há pessoas assim, das que “dão laranjas”.

Disse o Pedro Lamares que "a poesia da Filipa tem a mania de falar da nossa vida e fazer de conta que está a falar do sujeito poético."

Há poemas seus que parecem reabrir pequenas feridas. Como é que nos entra vida dentro e nos expõe os pequenos pedaços de caos como se nada fosse?

Em tempos, os amigos acusavam-me de fazer de propósito para ser feliz. Era uma actividade a que me dedicava sem grande esforço e sem qualquer remorso. Hoje em dia, começo a ter vontade de pedir desculpa pelo poema. Sobretudo depois de um episódio no Festival Literário da Madeira (que deu notícia no Expresso), em que uma rapariga chorou tanto com um poema meu, lido pelo Pedro Lamares, que, ao voltar à sala, pediu que não lessem mais poemas da Filipa Leal.

Voltou a acontecer-me uma coisa parecida no Printemps des Poètes, no Luxemburgo, e cheguei a pedir desculpa em francês. Juro que não faço de propósito para fazer o leitor infeliz. Não me importava de ter sabido ser humorista.

"A vida, meu amor, é sem intervalo".
Se houvesse intervalo, aproveitaria para quê?

Para escrever. Para escrever muito, para escrever mais, para escrever sem a preocupação mensal de subsistência no século dos freelancers, dos recibos verdes e do medo do futuro.

Se a Filipa fosse um poema, quais seriam as primeiras palavras?

Se pudesse escolher, seriam estas, de um soneto de Camões que desde a adolescência venho colando nas minhas mesas de trabalho: “Que dias há que n’alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / vem não sei como e dói não sei porquê”.

Ser poeta em Portugal é...?

É muito pior do que ser poeta na Finlândia. Conheci em Zagreb uma extraordinária poeta finlandesa, Sanaa Tahvanainen, que, aos 33 anos, já vivia da sua poesia. O seu país, pelo que percebi, contemplava nos orçamentos a poesia – não apenas o cinema, o teatro, as artes visuais, etc. É uma espécie de injustiça que os poetas sejam, entre todos os criadores, aqueles de quem mais se espera que criem nos tempos livres. A poesia não é um hobby.

O que diria a um filho seu que lhe dissesse que queria ser poeta?

Dizia-lhe, talvez, o que me disse a minha mãe: “Aqui, é melhor seres também outra coisa qualquer.” (Eu fui ser jornalista, e depois argumentista, e terei de ter sempre outra profissão na “vida real”…).

"A poesia da Filipa é um bocadinho perigosa." (Pedro Lamares)
Se tivéssemos de colocar um aviso na sua poesia, para acautelar os leitores desprevenidos, qual seria?

Hoje em dia, talvez roubasse o início dessa canção maravilhosa do Elton John (com letra de Bernie Taupin): “It’s a little bit funny this feeling inside / I’m not one of those who can easily hide”.

Aos 11 anos disse que queria ser escritora. Se hoje pudesse voltar atrás e falar com a Filipa de 11 anos, o que lhe diria?

Não valeria a pena dizer-lhe nada. Essa criança estava tão determinada que raramente voltou a ter uma certeza tão absoluta. Gostava de ter hoje tantas certezas como essa que tive aos 11 anos.  

"Não suporto encarar a vida como ela é. Nunca gostei da realidade." (Filipa Leal, Jornal Expresso, 2014).
O que faz é terrorismo poético?

Espero que não. O terror só me interessa em comédias negras. O que faço é escrever o que me apetece, já que raramente podemos viver como nos apetece.

O que gostaria que dissessem sobre si, daqui a 100 anos?

Se ainda se referirem a mim daqui a 100 anos, digam o que disserem, terá valido mesmo a pena.

A Filipa, nas palavras do Pedro.

“(…) A Filipa gosta muito dos intelectuais mas não tem paciência para os aturar. Sabe muitas coisas e leu muitos livros, mas está mortinha por se esquecer dos livros todos, beber um fino e celebrar que sabe tantas coisas porque olhou para os lírios, amou ao lado e errou em frente. Acha sempre que vai enlouquecer. E provavelmente vai. Se a Filipa não fosse poeta, não seria controladora aérea para não se imiscuir na liberdade das andorinhas. A Filipa gosta pouco de se meter na vida dos outros mas tem a mania de reparar no que as pessoas não dizem. A poesia da Filipa sabe mais do que a Filipa.

A poesia da Filipa é um bocadinho perigosa.

A poesia da Filipa não sabe se devemos rir ou chorar com ela. A poesia da Filipa tem a mania de falar da nossa vida a fazer de conta que está a falar do sujeito poético. A Filipa sabe que essa coisa do sujeito poético é uma tanga, mas a poesia dela faz de conta que ainda não percebeu. A poesia da Filipa é um palhaço que sofre de violência doméstica.

A Filipa foi educada na foz e em Inglaterra, mas a poesia da Filipa foi educada na vida real. A Filipa não gosta de escrever “caralho” nos poemas, mas a poesia da Filipa tem a mania de nos obrigar a a respirar fundo e dizer: “caralho!”

O sujeito poético é uma grande tanga.

A prosa da Filipa.

Não há grande coisa a dizer sobre a prosa da Filipa. A Filipa não escreve romances. Gosta mais de pieguices. A Filipa só escreve poesia, teatro, cinema e manifestos. A Filipa acha que a poesia também é literatura. A poesia da Filipa, felizmente, sabe o que toda a gente sabe: que os poetas não servem para nada.”

Pedro Lamares, outubro 2015

Qual foi o último livro que a fez estremecer?

“O Marinheiro de Gibraltar”, da Marguerite Duras, que ainda não tinha lido e que está esgotado em Portugal (parece que a Duras, agora, vende pouco…). Encontrei uma edição antiga na estante dos livros da minha mãe e fiquei absolutamente maravilhada. A Duras é das maiores escritoras do mundo, dessas que não têm falta de ar. Nunca perde o fôlego bom. Não há uma palavra, uma frase, uma imagem, uma ideia fútil ou inútil em quase 300 páginas. É um livro sublime.

Que idade tem a sua criança interior?

Só sei (e sei pouco) da criança anterior, a que vamos perdendo com o tempo e à qual me refiro num poema de “O Problema de Ser Norte”:

“Foi na terceira tentativa que encontrou a criança, / criança a encontrá-la de repente, quando ia caindo / o sol. Criança possessiva agarrada à apatia desse dia / rimado: criança rima com esperança, criança rima. / E ela tão sem linguagem, tão sem versos possíveis, / tão sem a criança anterior”.

Um bom poema é aquele que...?

Que “espeta os cornos no destino”  (Natália Correia).

A melhor definição de poesia?

Uma das melhores poderia ser a da argentina Alejandra Pizarnik, num poema a que dá o título “POEMA”, e que termina assim: “Tú haces de mi vida/ esta ceremonia demasiado pura”. 

Tem algum engano de estimação?

Um dos mais cómicos foi só ter percebido aos 18 anos, já a estudar em Londres, que a palavra peanuts era a mesma para o Snoopy e o Charlie Brown ou para um saco de amendoins.  

Uma memória feliz que daria um belo poema?

Ver crescer as minhas sobrinhas, ver nascer o meu sobrinho. Todos tiveram direito a um poema, espero que belo para eles.

Um guilty pleasure?

Pipocas no cinema. Sei que é muito irritante de ouvir, mas às vezes sabe tão bem. 

Poesia vai bem com...?

Um bacalhau à Brás e um copo de branco, umas amêijoas e uma mini, um bife picado, tanto faz. A poesia é incondicional para os seus amantes. É como ter uma chave fixa do Euromilhões. 

O que é que a Filipa jornalista gostaria de perguntar à Filipa escritora?

“Porque não te calas”? (risos)

Marisa Sousa
Coordenadora Editorial