Sabrina, a janela por onde espreitamos a nossa solidão

Tem 30 anos e vive em Chicago com a mulher e três gatos. Cresceu em Palos Hills, nos subúrbios, e, com dez anos, foi sexualmente molestado por um vizinho, diversas vezes. Envergonhado, não partilhou com ninguém o sucedido, acabando por se tornar (ainda mais) introvertido e deprimido. Nick Drnaso (pronuncia-se “dur-nass-oh”) recorda a sua adolescência como uma fase de isolamento, em que a música era a sua principal companhia.

Começou a desenhar inspirado, em parte, pelas fantasmagóricas capas dos álbuns das bandas de heavy metal de que gostava. Leu muito sobre “serial killers e Chernobyl e outras formas de terror” e admite ter passado muitas horas a vasculhar os recantos escuros da internet, movido pela sua curiosidade mórbida. “Detesto a pessoa que eu era, nessa altura”, confessou Drnaso à revista The New Yorker.

Em 2009, começou a estudar ilustração, no Columbia College. Quando terminou os estudos, soube que queria retratar o mundo à sua volta, mais do que o satirizar. Em 2016, publicou o seu primeiro livro, Beverly, onde reúne cinco histórias sobre vergonha e frustração, que lhe valeu o prémio de Melhor Novela Gráfica do LA Times.

Uma Narrativa de Carne e Osso

A sua primeira relação amorosa séria trouxe-lhe alegrias mas também preocupações. Foi nesta altura que começou a desenhar a história de um jovem (Teddy) cuja namorada, Sabrina, desaparece durante o percurso de casa para o trabalho. A partir daqui, somos sugados para esta narrativa de carne e osso, onde, em 200 páginas, temos de olhar nos olhos conceitos reais e palpáveis como verdade e pós-verdade, mentira, manipulação, teorias da conspiração e paranóia, solidão e vazio, numa era em que as redes sociais assumem um asfixiante papel principal na forma como interagimos e nos relacionamos com os outros.

Em 2014, Drnaso tinha acabado de assistir aos vídeos que Elliot Rodger gravou antes de ter protagonizado um tiroteio na Universidade da Califórnia. Decidiu que Sabrina seria assassinada por alguém como Rodger: um misógino, ativista pelos direitos dos homens.

A história tem também ecos do massacre que ocorreu na escola primária de Sandy Hook, e das aterradoras teorias da conspiração que foram sendo criadas ― particularmente a de que o tiroteio foi uma encenação, promovida pelos ativistas pró-controle de armas. Na novela, a dor sentida por Teddy, o namorado, e pela família de Sabrina é repetidamente atacada e posta em causa por estranhos que, online, refutam o facto de que Sabrina tenha realmente sido assassinada.

O Espelho da Letargia

No decorrer do seu processo de pesquisa para a obra, Drnaso ouviu podcasts de Infowars, um programa de rádio extremista, promovido por Alex Jones. Apesar de repulsivas, Drnaso acredita que as palavras de Jones e dos seus convidados, e as suas visões destorcidas do mundo, oferecem aos ouvintes uma perversa consolação. Num dos momentos da novela, quando Teddy divaga pela casa do amigo que o acolheu (Calvin), procurando uma forma de se suicidar, encontra um rádio e começa a ouvir uma emissão do estilo de Infowars, sentindo-se estranhamente confortado pelas cruéis especulações do locutor sobre a morte de Sabrina ― isto acaba por espelhar a sua própria letargia.

“Sabrina” foi concluída na primavera de 2017. Drnaso havia criado uma novela gráfica cuja monotonia das tonalidades e a lentidão deliberada desafiavam um género que tende, normalmente, para o movimento e rapidez. Ler “Sabrina” sabe quase a antídoto dos agitados sites em que as suas personagens estão tão imersas. Algumas páginas apresentam apenas uma personagem a deslocar-se, no seu carro, de um ponto a outro, sem qualquer palavra ou diálogo. Nesses instantes, ficamos suspensos no tempo da narrativa. Como a melhor fição, “Sabrina” exige-nos esforço para que compreendamos a história. Por vezes, são necessárias várias páginas até que consigamos apreender como é que uma cena se encaixa nas que a precedem.

"Sabrina", de Nick Drnaso

"O primeiro grande romance americano do século XXI, uma novela gráfica que foi capaz de captar o mundo em que vivemos." El País

"Um livro tóxico, numa era tóxica"

Quando Drnaso estava prestes a enviar a história para a editora, sentiu-se invadido pela avassaladora ideia de que a história era irremediavelmente trágica. Tinha acabado de regressar de um retiro para escrever (a primeira vez sem a sua namorada, em mais de três anos) e sentiu-se destabilizado. Donald Trump tinha acabado de ser eleito e os elementos grotescos da história que havia desenhado pareciam-lhe diferentes. Questionava-se se haveria motivo para publicar uma história destas, num mundo que se estava a afundar em pessimismo e negatividade.

Drnaso, que só conseguiu desenhar as cenas do assassinato de Sabrina depois de se ter embriagado, questionou-se se ler estas páginas seria muito diferente de assistir, online, aos assassinatos perpetrados pelo ISIS. Concluiu que tinha criado um “livro tóxico numa era tóxica”. Convenceu-se de que não seria saudável, para ninguém, ler esta história. Enviou um e-mail ao seu editor, informando-o de que não queria publicar “Sabrina”. Seguiu-se uma fase complicada. Deixou de desenhar, voltou a ser inundado pelas memória de quando tinha sido vítima de abuso sexual e ponderou mesmo suicidar-se, na tentativa de desligar. Consultou um terapeuta, passou a tomar antidepressivos e começou a sentir-se mais estável. Durante este período, revisitou Sabrina e concluiu que podia publicá-la se removesse a cena do assassinato e acrescentasse outros momentos, como aquele em que a irmã de Sabrina fala do seu trauma, para uma plateia, num café. Decidiu também doar o valor dos direitos de autor, da primeira edição, a algumas instituições de caridade.

Apesar de tudo isto, este não é um trabalho autobiográfico, esclarece o autor. Vencedor do Prémio Revelação do Festival de Angoulême, em França, é a primeira novela gráfica nomeada para o Man Booker Prize, tendo sido qualificada, pelo júri, como uma obra “oblíqua, subtil e minimal”. “É o melhor livro que li sobre o momento atual”, confessou, por seu lado, Zadie Smith.

“Sabrina” não é a história de um crime, é a nossa história, o relato cru e assustador deste presente que é nosso; um angustiante retrato desta solidão tão densa e asfixiante que se entranha na memória dos dias. Depois de ler “Sabrina”, é preciso respirar.