Uma biblioteca que só vai ser lida em 2114

Em Nordmarka, perto de Oslo, há uma floresta a adormecer histórias que serão contadas daqui a 100 anos. 

Há cinco anos, por entre troncos e galhos, foram plantados cerca de mil abetos noruegueses, que irão crescer até estarem prontos para serem cortados e, do seu ADN, nascerem livros. Chama-se “Future Library”, um projeto da artista escocesa Katie Paterson, que conta com a participação de diversos autores e com premissas que se tecem com  contemplação, comunhão e tempo.

"O 'Future Library' tem a natureza e o ambiente embrenhados no seu núcleo - a ecologia, a interconectividade das coisas, os que vivem agora e os que ainda hão-de vir. Questiona a tendência presente de pensar apenas no momento, de tomar decisões somente para os que ainda estão vivos. A linha cronológica é de 100 anos, não muito vasta em termos cósmicos. Esta linha cronológica vai para além da nossa expectativa de vida, mas fica perto o suficiente para a encararmos de frente."
Katie Paterson

O projeto é, em si mesmo, um livro a ser escrito. A artista imagina os anéis das árvores como capítulos de uma obra. As palavras que ainda não foram escritas são, ano após ano, ativadas, materializadas. Paralelamente, é também uma experiência viva e orgânica a partir dos visitantes da floresta, cujas raízes são feitas de ideias, numa energia nunca antes vista.

Os manuscritos vão ser guardados numa divisão especialmente criada para este projeto na New Deichmanske Library, em Oslo. A ala estará aberta ao público em 2020, funcionando como um espaço de contemplação e disponibilizando madeira da floresta. Os nomes dos autores e os títulos das suas obras vão estar em exibição, mas nenhum dos escritos estará disponível para leitura – pelo menos, não durante 100 anos.

A escritora Han Kang foi a última a entregar a sua criação, numa cerimónia anual que convida à participação e comunhão com a floresta. Despediu-se de “Dear Son, My Beloved”, embrulhando-o num pano branco, como quem envolve um filho. “É como um casamento do meu manuscrito com esta floresta. Ou uma canção de embalar para um sono de um século”, descreve a romancista. 

David Mitchell (Reino Unido), Sjón (Islândia) e Elif Shafak (Turquia) são também alguns dos autores que integram esta experiência orgânica. Os autores vão sendo escolhidos pela sua contribuição para a literatura ou poesia. “Existem duas palavras-chave no nosso processo seletivo – imaginação e tempo”, refere Paterson, garantindo que pretende escolher escritores de todas as idades e nacionalidades.

Uma biblioteca que prossegue à sombra da natureza. Neste espaço artístico e literário, faltam certamente escritores que só daqui a alguns anos irão nascer. Uma floresta que aguarda a chegada de todos como progenitora – ou defensora – das suas obras, “numa narrativa que assumirá forma daqui a um século”.

“É como um sono de beleza. Os textos vão repousar durante 100 anos e depois vão acordar e viver novamente. É um conto de fadas sobre a passagem do tempo”, considera Atwood, uma das autoras que integra o projeto, e que questiona: “Haverá seres humanos à espera de receber os livros? Haverá Noruega? Haverá uma floresta? Existirão ainda bibliotecas?”