Julho 05

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Mia Couto, um idioma (des)conhecido, feito de palavras líquidas

Com as suas palavras, perdemo-nos na imensidão da paisagem africana. “Todas as noites / me deito num livro / para em outra vida desaguar” (in Idades, Cidades, Divindades, 2008), e nós mergulhamos com ele, na profundidade dos seus rios e terras, vales e troços de calor mágico.

Considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, Mia Couto é também o mais traduzido do seu país. Escreve poesia, contos, romances e crónicas, adaptando-se aos diferentes géneros e chegando a diferentes mundos. A recriação da língua portuguesa, com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana, é uma das imagens de marca da sua escrita.

A profundidade da sua escrita faz-nos ganhar raízes. Fundimo-nos com as palavras e sabemos ser verdade o que afirma:  “dentro de mim, vão nascendo palavras líquidas, num idioma que desconheço e me vai inundando todo inteiro” (in O Fio das Missangas, 2014). 

No dia do seu aniversário, 5 de julho, destacamos algumas das suas obras, abrindo a janela para que a sua poesia voe e nos inunde.

Mulheres de Cinza (2015)

Mulheres de Cinza é o primeiro livro da trilogia “As Areias do Imperador”. Nos derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império em África dirigido por um africano, Ngungunyane. Derrotado pelas forças portuguesas em 1895, é deportado para os Açores, onde morre em 1906. Os restos mortais daquele que ficou conhecido pelos portugueses como Gungunhane, terão sido trasladados para Moçambique em 1985.

Todavia,  outras versões sugerem que não foram as ossadas do Imperador que voltaram, mas torrões de areia. Do grande adversário de Portugal restam areias recolhidas em solo português. Uma recreação ficcional inspirada em factos e personagens reais.

Raíz de Orvalho e Outros Poemas (2014)

Raiz de Orvalho e Outros Poemas é uma recolha de poemas com datas diversas, com um conjunto de novos poemas (todos da década de 80) e seleção de outros que faziam parte da edição moçambicana, publicada em Maputo, em 1983, com o título Raiz de Orvalho. Segundo o próprio autor, alguns não resistiram ao tempo, noutros ele próprio não se reconhece já. Mas todos estes versos fazem parte do seu percurso. E daqui ele partiu a desvendar outros terrenos. Terrenos que afortunadamente hoje podemos conhecer.

Mia Couto habituou o leitor à sua escrita criadora e inovadora, musical, intensa, profundamente meiga e crua, poética. Nesta colectânea de poemas, dialoga com o leitor com a maior das intimidades, numa quase perfeita sintonia.

"Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a impercetível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo."
- abril, 1981
Raíz de Orvalho e Outros Poemas
E se Obama fosse Africano? (2014)

O escritor moçambicano ressurge em E se Obama fosse Africano? com um conjunto de textos de intervenção que resulta da sua participação em encontros públicos nos últimos anos. São textos de reflexão crítica de um autor de ficção que, ao mesmo tempo que reinventa o seu universo, não abdica da sua missão de pensar o mundo.
As intervenções abordam temas que vão da política à literatura, da cultura à antropologia, mas todos eles confirmam como Mia Couto faz da sensibilidade poética um modo de entender a complexidade do nosso tempo.

Jesusalém (2012)

Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor em plena posse das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa.

A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.

“Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçámo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências.”
Mia Couto
in Jesusalém

O autor garante-nos que “o mundo voa / e apenas o poeta / faz companhia ao chão” (in Tradutor de Chuvas, 2011). Cada verso seu é, no entanto, uma viagem garantida ao que de mais transcendente compõe os dias. 

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa