Julho 09

Tags

A inspiração de Mary Shelley para “Frankenstein”

“Frankenstein” é um clássico conhecido por todos. Considerada como a primeira obra de ficção científica da história, foi publicada em 1818 por Mary Shelley. O que muitos eventualmente desconhecerão é a história real que terá inspirado a autora inglesa a escrever sobre Victor Frankenstein, o eterno cientista-criador.

Numa viagem no tempo, até Londres, em 1803, conhecemos George Foster, condenado à morte por ter assassinado a mulher e filha, e a cobaia perfeita para o académico Giovanni Aldini provar que era possível ressuscitar os mortos.

Aquilo que para nós parece uma autêntica história de terror era, na altura, um procedimento bastante normal.  A dissecação foi adicionada à Ata de Assassínio de 1752, em Inglaterra, com o objetivo de infligir ainda mais terror e, assim, dissuadir eventuais criminosos de cometerem atos ilegais.

Giovanni Aldini era estudante na Universidade de Bolonha, conhecido pelas suas experiências em animais e, posteriormente, cadáveres. Era habitual encontrar-se Aldini nas sombras da Piazza Maggiore, aguardando pacientemente os últimos minutos de vida dos criminosos, para depois ligar a sua bateria e começar as suas experiências. Todavia, o cientista italiano enfrentava um contratempo: em Bolonha, decapitavam-se os culpados, pelo que era impossível ressuscitar um corpo sem a sua cabeça. 

Em Inglaterra, por outro lado, estes eram enfocados. George Foster era a oportunidade ideal, o cadáver perfeito. Assim, o italiano viajou até Londres, disposto a provar que, com a sua bateria e um corpo intacto, seria possível trazer o criminoso inglês de volta à vida.

Aldini ligou a sua máquina e começou a trabalhar no corpo de Foster, depois de o ligar a sondas e eléctrodos, espalhados pelos braços e pernas, peito e cabeça. Rapidamente “o queixo começou a tremer, os músculos adjacentes contorcendo-se horrivelmente, o olho esquerdo abrindo subitamente”.

Para o público que observava estas experiências, a forma como o corpo de George Foster se contorcia era, certamente, um sinal de que estava prestes a ressuscitar. Mas as horas passaram, a bateria morreu e o silêncio reinou na sala do Royal College of Surgeons – George Foster tinha morrido, na forca, e morto permaneceria

Aldini vira conversa de salão

Giovanni Aldini regressou a Itália, culpando a bateria pelo seu fracasso. As suas experiências, no entanto, tornaram-se famosas pelas ruas de Londres. Os médicos que testemunharam as contorções do corpo de George Foster, passaram a comentar o sucedido com a família, amigos e conhecidos. 

Um dos membros da audiência foi o médico Anthony Carlisle. Para Carlisle, a reanimação era um tópico que estava na moda, motivo de conversa em salões e festas informais. Um desses eventos passava-se na casa do seu amigo, William Godwin. Aí encontravam-se poetas, escritores, médicos, cientistas e filósofos, originando um ambiente estimulante de conversa sobre os assuntos mais variados. 

A casa dos Godwin era muito movimentada. Para além do patriarca, havia também Jane Clairmont, a segunda Mrs. Godwin; Mary, filha do primeiro casamento de William com Mary Wollstonecraft; a filha adoptiva, Fanny Imlay, e os dois filhos do segundo casamento, Jane e Charles. Ainda que as crianças estivessem proibidas de participar nas soirées que ocorriam ao Domingo, elas escondiam-se atrás dos sofás ou sentavam-se nos degraus das escadas, ouvindo as histórias que os homens contavam. 

Uns anos mais tarde, Mary Godwin Shelley pegou no que o cientista italiano começara em 1803 e completou a sua missão, ainda que apenas na ficção. A personagem principal do livro Frankenstein” tem semelhanças com Giovanni Aldini: ambos são cientistas que, na sua procura pelo conhecimento, ultrapassaram limites em nome da ciência, e ambos tentaram ressuscitar os mortos. 

Apenas uma diferença separa estes dois homens: a partir das mãos de Mary Shelley, os mortos voltaram à vida, e Victor Frankenstein sofreu as consequências das suas acções.

fonte: huffpost / ilustrações: júlia sardà

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa