O homem que não queria morrer sem saber qual a cor da liberdade

"Jorge de Sena / A Verdade dos Dedos (113)" (1949), fotografia de Fernando Lemos. via Comunidade, Cultura e Arte

Figura central da literatura portuguesa do século XX, romancista, ensaísta, tradutor, pensador polémico. Viveu quase duas décadas no exílio e nunca regressou a Portugal. “Imaginou-se a passar a reforma em Creta, a ilha do Minotauro, mas não chegou sequer à velhice” (Sol, 2017). Morreu, aos 58 anos, bem longe de Creta, a 4 de Junho de 1978, em Santa Bárbara, na Califórnia.

Jorge de Sena, considerado hoje um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do século XX, nasceu em Lisboa, há 100 anos, precisamente no dia de finados, a 2 de Novembro de 1919.

Formou-se em engenharia, mas a sua inclinação natural para a literatura levou-o, durante o curso, a escrever poemas, artigos, ensaios e cartas, prática que começou aos 16 anos. Em 1940, publicou, sob o pseudónimo de Teles de Abreu, os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia.

“Bastou-lhe a publicação do primeiro livro, Perseguição, em 1942, ao qual fez seguir, quatro anos mais tarde, Coroa da Terra, e Pedra Filosofal, em 1950, para que a crítica logo o considerasse ‘infinitamente mais inteligente que poetas propriamente ditos'” (Sol, 2017).

A sua assumida postura contra o regime na luta pelas liberdades de expressão e do pensamento, levou ao seu envolvimento no Golpe da Sé, uma intentona falhada que se propunha derrubar o Governo de Salazar, em Março de 1959. Tinha, então, 40 anos quando a ditadura o fez partir para o exílio. E nunca mais regressou.

OS ANOS DE BRASIL – O FRENESIM CRIATIVO

Jorge de Sena exilou-se voluntariamente no Brasil, onde chegou a 7 de Agosto de 1959. Os anos de Brasil, os primeiros vividos em liberdade, são talvez o seu período mais criativo.

Escreveu muitos dos poemas de Metamorfoses (uma das obras que mais influência teve na poesia portuguesa), uma boa parte dos poemas de Arte de Música, os experimentais Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, quase todo o romance Sinais de Fogo e O Físico Prodigioso, além dos ensaios académicos sobre Camões e os trabalhos na edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa.

No Brasil segue a sua vocação. Trocou a engenharia pela investigação e docência e dedicou-se ao ensino da literatura, acabando por se doutorar em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, São Paulo. 

Na escrita investiu uma avultada carga de energia e, do seu inconformismo político, social, cultural, nasceu uma obra vastíssima.“Havia em Jorge de Sena uma espécie de frenesim criativo na poesia, prosa, teatro, ensaio, traduções, antologias, prefácios … tudo. Escrevia como se não houvesse outro dia(Jornal I, 2018).

imagem: eduardo gageiro, 1970
ERA UMA VEZ... NA AMÉRICA

Por causa do golpe militar no Brasil, em 1964, o casal Jorge e Mécia de Sena e os nove filhos voltam a mudar de morada, um ano depois. Desta vez, rumo aos EUA, onde Sena começa a dar aulas na Universidade de Wisconsin. Não tardou muito até assumir a direção do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada, na Universidade da Califórnia.

“Foram tempos menos calorosos do que aqueles que viveu no Brasil” (Comunidade, Cultura e Arte, 2018). A atividade cultural do poeta fica restringida aos círculos académicos e da emigração, sendo, contudo, compensada por uma enorme e rica correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e brasileiros, e pelas suas viagens de trabalho à Europa e África lusófona. 

Depois do 25 de Abril de 1974, Sena regressou à pátria, mas ficou apenas dois meses. A relação de Sena com Portugal com a cultura e os intelectuais portugueses foi difícil, desde o princípio até ao fim. Foi uma relação que nunca se resolveu e que ficou visível na sua poesia.

“Esta é a ditosa pátria minha amada. Não. 

Nem é ditosa, porque o não merece. 

Nem minha amada, porque é só madrasta

Nem pátria minha, porque eu não mereço

a pouca sorte de ter nascido nela.”

"LIBERDADE, LIBERDADE, TEM CUIDADO QUE TE MATAM"

A liberdade foi sempre o valor que o fez mover. É com toda esta vasta experiência, marcada pelo exílio, que o poeta vai construindo a sua obra. “Na poesia de Sena ficamos a saber o que pensa sobre uma infinidade de coisas, das mais complexas às mais triviais” (Jornal I, 2018). Daí, que ele sempre tenha entendido a sua poesia, o seu teatro, a sua ficção, como uma forma de dar testemunho de si mesmo. De professor a dramaturgo, de poeta a crítico, Sena percorreu o caminho de uma vida agitada, sem a estabilidade de outros tantos, tendo deixando um legado de valor incalculável.

Grande parte da obra do escritor foi publicada postumamente pela viúva, Mécia de Sena. Contas feitas são mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance. Além de cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio; à história e à teoria literária; ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer as traduções.

A sua obra de ficção mais famosa, considerada por muitos a sua obra-prima, é o romance autobiográfico Sinais de Fogo (lançado postumamente em 1979) e adaptado ao cinema em 1995. Ainda na ficção, outras obras maiores de Sena se destacam: Os Grão-Capitães (1971) e Novas Andanças do Demónio, uma coletânea de contos da qual faz parte a novela erótica O Físico Prodigioso, “uma grande história de amor bissexual da literatura nacional, escrita dez anos antes da Revolução de Abril e publicada em 1966, ali mesmo nas malhas da censura e dos defensores da moral pública que não deram por nada” (Observador, 2018).

Metamorfoses seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena (o título completo da coletânea), de 1963, é uma das obras poéticas de referência de um homem com imenso talento e vontade de tocar tudo. Um poeta que nos dá a ver o tempo e o modo de fazer-se um poeta. 

A "lenda negra" de Jorge de Sena

“Mesmo quem só conhece de Jorge de Sena apenas os poemas mais célebres, sabe da má fama que paira sobre ele: um escritor difícil, feroz, sarcástico, irascível” (Jornal I, 2018). Referiam-se a ele como um exímio praticante de ataques à pátria, à língua, à política e à cultura portuguesas e a muitos dos seus pares.

“À parte deste lado mais negro, também lhe é conhecida uma outra faceta por quem com ele privou: a de um homem amável, cortês, solidário, atento aos outros, respeitador de diferenças ideológicas e políticas. E, sim, por vezes o contrário disto: intolerante à traição, à falsidade, à mediocridade, à intolerância de uns quantos. Ou seja, um homem com defeitos e qualidades, como qualquer um” (Jornal I, 2018).

FONTES:
  • “O Físico Prodigioso”: um elogio à sexualidade transgénero na cara da PIDE. Joana Marques, Observador, 2018
  • Jorge de Sena. A alta medida das coisas. Teresa Carvalho, Sol, 2017
  • Jorge Fazenda Lourenço, Instituto Camões 
  • Gulbenkian assinala centenário de Jorge de Sena com jornada dedicada ao escritor. Lusa, Público, 2019
  • O regresso de Jorge de Sena. Isabel CoutinhoCiberescritas, 2009
  • Jorge Fazenda Lourenço. “A posteridade de Jorge de Sena está nas mãos de cada um de nós”. Teresa Carvalho, Jornal i, 2018
  • A liberdade na vida e obra de Jorge de Sena. Lucas Brandão, Comunidade, Cultura e Arte, 2018
  • Uma casa para habitar Jorge de Sena – 40 anos depois da morte do autor. Teresa Carvalho, Jornal i, 2018
 
 
Por lapso, neste mesmo artigo, publicado na Revista Somos Livros (edição junho 2019), as fontes não foram referidas. Aos visados, pedimos desculpa pelo lapso e aproveitamos esta oportunidade para atribuir os merecidos créditos.