Julho 12

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5 Curiosidades sobre Henry Thoreau

Um verdadeiro visionário do século XIX, era visto como uma figura controversa e polémica pelos seus contemporâneos. Apaixonado pela natureza, virou costas à sociedade para viver rodeado de verde, o que lhe garantiu a inspiração necessária para escrever Walden, a obra que aborda esse isolamento e comunhão com os bosques de Walden Pond. 

Henry David Thoreau nasceu a 12 de julho de 1817. Quando lhe perguntaram por que motivo era tão curioso, a sua resposta acabou por resumir a sua alma: “O que mais há na vida?”. Poeta, filósofo, naturalista e transcendentalista, reconhecido por muitos como o pai da ecologia, Thoreau pareceu viver demasiado à frente do seu tempo.

Partilhamos consigo cinco curiosidades sobre o autor que quis ser e fazer diferente.  

‘Give me a wildness whose glance no civilization can endure’.

1. O homem que recusou tudo

Diz a lenda que Thoreau recusou pagar uma taxa de cinco dólares, o equivalente a 125$ em 2018, para receber o seu diploma da Universidade de Harvard. “Não vale cinco dólares”, afirmou na altura. “Deixem que cada ovelha fique com a sua própria pele”, disse, referindo-se à tradição de utilização de pele de animal para os manuscritos da altura. Depois disso, e enquanto trabalhava como professor em Concord, cidade onde nasceu, recusou-se a punir fisicamente os seus alunos com uma régua, despedindo-se imediatamente a seguir

Em 1846, pediram-lhe para pagar o equivalente a seis anos do imposto de votação, obrigatório em Massachusetts. Thoreau recusou-se, em protesto contra o envolvimento dos Estados Unidos na guerra com o México e pela abolição da escravatura, o que lhe valeu uma noite na cadeia. Esta experiência teve um impacto enorme na vida do escritor e deu origem ao célebre Civil Disobedience.

A primeira recusa de todas, no entanto, está relacionada com o seu próprio nome. Nascido David Henry Thoreau, insistiu para que o tratassem por Henry David após sair da universidade, ainda que nunca tenha pedido para mudar o seu nome legalmente.

2. Minimalista, anti-consumismo, ecologista

Se hoje ainda fosse vivo, Thoreau teria algo a dizer acerca das alterações climáticas e da sociedade consumista e sobre os seus efeitos no planeta. Em pleno século XIX, recusava a Revolução Industrial e defendia o equilíbrio perfeito entre a natureza e a civilização. 

Era também apologista de pequenas mudanças que ele próprio adotava no seu dia-a-dia: para poupar a água que consumia, não utilizava sal na comida e apregoava o vegetarianismo, ainda que não seguisse uma dieta rigorosa (The Guardian, 2017). Para além disto, defendia a prática da canoagem e caminhadas recreativas, a conservação dos recursos naturais em propriedade privada e a preservação da natureza como um bem público (Wikipedia). 

Alguns dos cadernos de Henry Thoreau, escritos na década de 1850 (via Tumblr)
3. Uma vida dedicada à escrita, ainda que sem muito sucesso

A Week on the Merrimack and Concord Rivers foi publicado em 1849 e vendeu muito pouco. Na verdade, o editor de Thoreau escreveu-lhe a perguntar o que deveria fazer com todas as cópias não vendidas, empilhadas no seu escritório. O autor guardou-as no seu sótão, tentando vendê-las a quem quer que passasse por sua casa. Em 1853, num dos seus muitos diários, escreve: “Tenho agora uma biblioteca de quase 900 volumes, sendo que mais de 700 fui eu quem escreveu”

Henry David Thoreau era também um curioso, apaixonado pela ciência da natureza, ao ponto de compilar 12 volumes repletos de notas sobre os nativos nos Estados Unidos, um catálogo cronológico com o florescer das plantas que o rodeavam e até uma pesquisa sobre o desenvolvimento das árvores em florestas queimadas e estagnadas (via The New York Times).

4. Henry, o Feio

Apesar de ser bastante popular nos dias de hoje, Thoreau não era conhecido pela sua boa aparência ou até higiene pessoal. Nathaniel Hawthorne, seu vizinho, descreveu-o como “feio como o pecado, narigudo, a boca torta, e com modos incultos e rústicos, ainda que corteses”. Henry Thoreau raramente tomava banho, quase nunca se penteava ou trocava as roupas, já por si esfarrapadas.

Ainda assim, as pessoas pareciam tentar ignorar essas características, como é o caso de Hawthorne que, nos mesmos escritos, o caracteriza como “um observador delicado e genuíno da natureza, algo que, suspeito, é quase tão raro como um poeta original; e a Natureza, em troca, parece adoptá-lo como seu filho, mostrando-lhe segredos que poucos têm permissão para testemunhar”.

Diz-se que Louisa May Alcott, autora do aclamado As Mulherzinhas, tinha uma paixoneta por Thoreau, chegando inclusive a escrever sobre ele: “Para lá dos defeitos, o olho do Mestre viu as linhas grandiosas que iriam servir de modelo para o homem perfeito”.

5. O incêndio da floresta em Concord

A vida de Henry David Thoreau teve vários altos e baixos, mas nenhum com um impacto tão grande como o incêndio que provocou, em 1844, com o seu amigo, Edward Sherman Hoar. No último dia de abril, os dois amigos decidiram ir pescar em Walden Pond e, quando acenderam a fogueira no acampamento, as chamas descontrolaram-se e propagaram-se pela floresta. 

Foram mais de 300 hectares que ficaram completamente destruídos, incluindo as terras de três proprietários rurais. Ainda que tenha saído ileso do incêndio, Thoreau sofreu, durante anos, com os comentários dos residentes de Concord, que o apelidavam de “maldito patife” e “incendiário de florestas” (via History). 

O local onde Henry Thoreau terá vivido em Walden, Concord. Via Wikipedia

“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms.” in Walden, 1854

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa