José Luís Peixoto. “Sou sobretudo múltiplo e impossível de definir num só adjetivo”

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Escritor. Alentejano de gema e de alma. Desde o primeiro romance, Nenhum Olhar, que conseguiu arrebatar o leitor e tornar-se no mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago, com apenas 27 anos. O Nobel da Literatura chamou-lhe “uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa”.

A poucos meses de fazer 45 anos, José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais talentosos e premiados da última década, publicou o seu mais recente romance, Autobiografia. Conversámos com o autor e refizemos com ele o percurso de uma vida. 

É um fenómeno nas letras portuguesas. Há quem garanta que é um escritor tocado pelo génio. Começou a escrever de forma banal e sentiu deslumbramento com as palavras. Quando escreve esquece-se do tempo, esquece-se de si. É um pouco obsessivo no seu processo de escrita. Não consegue sequer conceber como se pode escrever um romance de outra forma. 

Refere-se à escrita lenta, na qual se reescreve incontáveis vezes cada frase até parecer que foi a primeira que surgiu. Mas não é a escrita que lhe ocupa o lugar de topo da sua vida. Se for necessário, acredita que consegue viver sem escrever. É no verbo dar que encontra alegria e prazer. Por isso, tenta que este seja um dos princípios que rege a presença da escrita na sua vida e nas suas relações.

Publicado e traduzido em mais de duas dezenas de línguas, o escritor natural de Galveias tornou realidade o sonho apenas atingível para alguns – viver da sua escrita e viajar pelo mundo inteiro para falar dos seus livros.

Damos-lhe a palavra…

É o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas. O José Luís prefere dizer que é filho de Galveias. Esta terra foi um lugar inspirador e marca quase tudo o que faz. Que memórias e cicatrizes tem dessa época?

Acredito que todas as infâncias e origens são importantes para quem as viveu. No meu caso, a importância da minha família e de Galveias acaba por se revelar em vários livros que tenho escrito. Essa é, sobretudo, uma consequência de ter tido a oportunidade de desenvolver esta forma de expressão, não significa necessariamente que as minhas memórias sejam mais relevantes do que as de qualquer outra pessoa.

Lia muito por "culpa" das suas irmãs mais velhas e da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Esta carrinha da biblioteca traçou o seu destino?

Concordo em parte. Sem leitura, nunca teria chegado à escrita e não poderia continuar este trabalho. Não há dúvida que essa biblioteca itinerante foi fundamental e tenho pena que atualmente não existam nos mesmos moldes. No entanto, quando olho para trás, encontro vários outros passos determinantes, como é o caso da influência das minhas irmãs e de várias outras pessoas e, mesmo, de outras bibliotecas que passaram pela minha vida, como a Biblioteca Municipal de Ponte de Sor, por exemplo.

Aos 10 anos leu os Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. Este livro marcou a sua realidade?

Foi uma leitura bastante marcante. Talvez por ter nascido em 1974 e por ter havido um ressurgimento da publicação de livros neorrealistas nesse período, uma vez que a sua difusão no pré-25 de abril era limitada, havia algumas edições desse género em minha casa. Quando comecei a ler, eram esses os livros que tinha à mão. Esteiros foi um livro que me comoveu, falava de crianças com vidas difíceis, de trabalho, uma realidade que conhecia.

Aos 11 anos já ouvia heavy metal, tocou guitarra elétrica numa banda de hardcore punk, vestia-se de negro e deixou crescer o cabelo. Um gótico em Galveias não causava estranheza? Quando percebeu que o seu mundo era diferente do dos outros?

Na época, ouvir esse género de música e ter esse tipo de apresentação tinha consequências que, hoje, felizmente, são até difíceis de explicar. Havia indivíduos que, inexplicavelmente, consideravam que esses gostos constituíam uma afronta pessoal, sentiam-se agredidos e agiam de acordo com o seu mal-estar. Pelo meu lado, essa circunstância ajudou-me a desenvolver o meu mundo e a fortalecer a minha individualidade.

Disse numa entrevista: "Às vezes tenho a sensação que ninguém leria os meus livros se soubessem que estava a ouvir música tão pesada quando os escrevi." Em que situações a ouve: quando está sozinho, quando está acompanhado, quando escreve, quando está feliz?

Ouço música em todos os momentos. O metal que me interessa é uma música de intensidade e de complexidade. Por isso, para lá do estado de espírito do momento, ouço principalmente quando disponho da atenção necessária para me dedicar a essa tarefa.

Começou na escrita pelos poemas. O primeiro poema com intenção literária, disse que foi feito num dia, pouco antes da hora do jantar, era outono e o poema era meio embaraçoso. Ainda se recorda?

Não me recordo exatamente do primeiro poema que escrevi. Mas tenho a ideia de que, para além de falar de sentimentos, também tinha uma dimensão experimental, que era uma característica importante do que escrevi nessa idade.

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A escrita não o largou mais, fez-lhe companhia na faculdade, e em 2000 deixou de ser professor para se tornar escritor a tempo inteiro. Ser professor influenciou o seu percurso literário?

Suponho que todas as experiências que me marcaram foram influentes em relação ao meu percurso literário. Ser professor teve muita importância na minha vida, apesar de apenas ter desenvolvido essa atividade durante 4 anos. A partir da escola secundária acreditei ser essa a profissão que me esperava, preparei-me para isso.

Há 19 anos que faz o que gosta, vive da escrita e é reconhecido. É mais sorte, ou mais trabalho e mais genialidade?

Tive oportunidades muito boas em momentos decisivos e acabei por seguir caminhos que, na época, não eram tão seguros como hoje parecem. Houve momentos de bastante incerteza e precariedade, ainda existem algumas fases assim por vezes. No entanto, com algum espírito de sacrifício e muito trabalho tudo tem sido ultrapassado.

Desde o primeiro romance que conseguiu arrebatar o leitor. Foi só começar a escrever, abrir a porta da sua vida e deixar o leitor entrar? Qual é o segredo da sua escrita?

Essa é uma pergunta que faço constantemente a mim próprio. Ainda não tenho uma resposta satisfatória.

Prepara-se para lançar um novo romance – Autobiografia – que revelou tê-lo escrito entre viagens de contacto com os seus leitores pelos vários continentes. Conseguiu encontrar fora do seu espaço o ambiente certo para escrever este romance? Como surgiu e se desenvolveu este processo criativo?

A conceção deste romance e, depois, a sua escrita foi longa e constituída por múltiplos avanços e recuos. No que diz respeito aos diversos lugares onde foi trabalhado, pode parecer para quem tenha uma vida mais sedentária ou para quem apenas considere um processo de redação, com rotinas e cenários estereotipados, que a escrita é incompatível com o movimento. Pessoalmente, considero o contrário: num contexto em que tudo muda, acho que é muito confortável possuir um “mundo” que nos acompanha, que podemos montar em qualquer quarto de hotel e que, se não o deixarmos fugir, se o alimentarmos com o nosso cuidado, está sempre disponível para acolher-nos. É como se levássemos uma casa dentro de nós.

"Saramago escreveu a última frase do romance", assim começa esta história arrebatadora, uma charada com muitas voltas. Um livro que tem como figura central Saramago; é uma espécie de tributo a um homem que tanto admirou?

Acredito que a inclusão de Saramago enquanto personagem, com toda a relevância que ocupa no romance, pressupõe essa dimensão de homenagem. E é um facto que admiro Saramago a muitíssimos níveis. O seu exemplo é uma forte referência para mim. No entanto, em nenhum momento, quis que essa homenagem o desumanizasse. Pelo contrário, tentei apresentá-lo como um ser humano deste mundo, como o próprio sempre fez questão de ser, aliás.

Entrevista integral a José Luís Peixoto na revista Somos Livros do mês de junho de 2019.

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