Os 8 livros escolhidos pelo Presidente da República

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IMAGEM: PÚBLICO

O gosto de Marcelo Rebelo de Sousa pela leitura já é conhecido por todos. O público português recorda-se bem dos livros recomendados a seguir ao telejornal da noite, na TVI

Em entrevista ao Público, Marcelo Rebelo de Sousa falou sobre os oito livros que escolheu para este verão, ainda que não tenha o tempo de “outros verões” e acredite que agosto será “mais trabalhoso”. Ainda assim, já anda a aproveitar “as viagens e noites ainda mais longas desta época do ano” para pôr a leitura em dia. 

Tríptico da Salvação, de Mário Cláudio

Foi no final de junho que o Presidente da República leu a mais recente obra de Mário Cláudio, um escritor que, admite, admira há muito tempo. Não só este livro o surpreendeu, como também o preencheu, “aliando a escrita trabalhada de sempre a um enredo apelativo a quase História, quase aventura exterior e interior e imaginação nunca esgotada”

A história narra a vida de Hans Kunsperger, amanuense que decide assassinar o seu amo após anos de inveja. Para além deste desejo, a sua maior ânsia era roubar-lhe o sonho por tantos anos acalentado de encomendar o tríptico que representava a Crucifixão, a Deposição e a Ressurreição de Cristo.

Este objeto levará Kunsperger até ao estúdio de Lucas Cranah, pintor e amigo controverso de Martinho Lutero, onde acaba por conhecer os dois filhos do artista, um dos quais terá um papel determinante na conclusão da encomenda que verá muitos sucumbirem antes de ser finalmente entregue.

Educação do Delfim

“Imperdível para os interessados nessa personagem fascinante que foi Gulbenkian”, garante Marcelo Rebelo de Sousa acerca do livro que anda a ler atualmente. Uma obra que também pode interessar aos conhecedores ou curiosos dos anos 1941 a 1945 ou, simplesmente, “para os apreciadores do que já não há, epistolografia de qualidade”.

A Educação do Delfim reúne a correspondência trocada entre Calouste Gulbenkian e o seu único neto, Mikaël Essayan, aluno de um colégio interno britânico na década de 1940, em plena guerra. Os pais de Mikaël estão em Paris, então ocupada pelos nazis, e a comunicação directa com o filho é quase impossível. Gulbenkian responsabiliza-se pela educação do neto, que faz parte de uma minoria no seio da cultura britânica dominante, e enfrenta os desafios sociais e académicos dessa condição.

Estas cartas são, porventura, o melhor testemunho para compreendermos os valores, as ideias e as convicções mais profundas do Sr. 5%, um homem de natureza eminentemente privada.

O Triângulo Mágico, de António Cândido Franco

Como leitura ideal para a chegada dos netos, Marcelo Rebelo de Sousa escolheu a biografia de Mário Cesariny, escrita pelo professor António Cândido Franco “Recorda-me os anos 80, em que o conheci, a propósito da compra de um quadro seu, com Manuel de Brito pelo meio. Início dos anos 80 e início da minha mania de coleccionar o que podia de pintura contemporânea portuguesa”

Mário Cesariny de Vasconcelos foi poeta, pintor e referência fundamental do surrealismo português. É uma das maiores vozes da poesia portuguesa do século xx. Para Cesariny, o surrealismo representava a realização total do nosso estado de espírito, a defesa do amor, da liberdade e da poesia – e a sua obra, tanto na poesia como na pintura e na vida real, foi testemunho dessa enorme vontade de viver.

Em tudo havia beleza, de Manuel Vilas

Esta é uma leitura prometida para agosto, após uma visita oficial ao estrangeiro, e com a qual  irá lançar-se “na ficção não nacional”. Há dez anos, leu España, do mesmo autor.

No livro Em Tudo Havia Beleza, o autor compõe, com uma voz corajosa, desencantada, poética, o relato íntimo de uma vida e de um país. Simultaneamente filho e pai, autor e narrador, Vilas escava no passado, procurando recompor as peças, lutando para fazer presente quem já não está. Porque os laços com a família, com os que amamos, mesmo que distantes ou ausentes, são o que nos sustém, o que nos define. São esses mesmos laços que nos permitem ver, à distância do tempo, que a beleza está nos mais simples gestos quotidianos, no afecto contido, inconfessado, e até nas palavras não ditas. 

Desta Terra Nada Vai Sobrar (...), de Ignácio de Loyola Brandão

Com Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão, o Presidente procurará saber “se a visão ficcionada é um retrato do mundo que aí vem ou é, também, o acentuar dessa visão por um pessimismo que tenho encontrado, muitas vezes, fruto do desencanto pessoal com tanta realidade na vida”.

A narrativa da obra transcorre num futuro indeterminado em que, ao nascer, todos recebem pulseiras eletrónicas, são seguidos, vigiados, fiscalizados por câmaras instaladas nas casas, ruas e casas-de-banho. Com um dos finais mais surpreendentes da literatura brasileira.

Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson

Em setembro, após um agosto que se prevê ocupado, Marcelo Rebelo de Sousa dedicar-se-á a outra biografia, desta feita sobre Leonardo da Vinci, escrita por Walter Isaacson. “Do autor li a biografia de Kissinger, mas reconheço que me está a atrair mais esta”

Recorrendo a milhares de páginas dos impressionantes cadernos deixados por Leonardo da Vinci, e atendendo às mais recentes descobertas sobre a sua obra e trajetória de vida, Walter Isaacson revela-nos facetas desconhecidas do artista, desfazendo a aura sobre-humana que lhe é atribuída e mostrando como a genialidade de Leonardo se fundamenta em características bastante humanas, moldadas por uma enorme vontade e ambição e assentes em habilidades que cada um de nós pode cultivar, não isentas de imperfeições e fraquezas.

Walter Isaacson foi o nome de estreia na nossa área dedicada à Biblioterapia. Consulte aqui.

O livro do escritor colombiano também ganhou lugar de destaque na nossa área dedicada à Biblioterapia. Consulte aqui.

O Escândalo do Século, de Gabriel García Marquez

“Uma leitura leve para poder ser repartida entre Lisboa e uma ida a Nova Iorque, às Nações Unidas”. É este o objetivo do Presidente da República para fechar o verão da melhor forma, com as crónicas reunidas sob o título de O Escândalo do Século, de Gabriel García Marquez, o jornalista. 

A obra reúne cinquenta textos representativos do percurso jornalístico do escritor, selecionados pelo seu editor Cristóbal Pera. Nestas histórias, onde não se diferencia o jornalista do romancista, o leitor descobrirá um fascínio por enredos que desafiam a nossa ideia da realidade, umas vezes porque nunca iremos compreendê-los por completo, tais como o misterioso caso de Wilma Montesi, que dá nome a este livro; outras porque nos obrigam a olhar o mundo com novos olhos, abertos para se surpreenderem com as contradições, desgraças e maravilhas que governam o seu imprevisível mecanismo.

Fogo na noite escura, de Fernando Namora

Fernando Namora fica para o fim, “se ainda tiver umas noites livres, na transição para outubro”. Marcelo Rebelo de Sousa confessa que nunca aderiu a esse esquecimento de Namora ou aos juízos mais críticos quanto à sua temporalidade. Uma decisão que só será feita no final de agosto, pois “só Deus sabe se haverá tempo para essa breve digressão antes do outubro que temos pela frente”.

Fogo na Noite Escura explora o retrato de uma geração que soube recusar os horizontes fechados de uma sociedade forçadamente enclausurada. Uma obra sempre actual, que funciona não apenas como uma radiografia de um tempo passado, mas também como um alerta contra os fazedores de noites.

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Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa