bertrand_5_lições_primo_levi Julho 31

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5 lições de Primo Levi

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“Vós que viveis tranquilos / nas vossas casas aquecidas / vós que encontrais regressando à noite / comida quente e rostos amigos / considerai se isto é um homem”. Assim começa Se Isto É Um Homem (1947), uma das obras mais importantes do século XX e uma das principais obras de Primo Levi, de quem comemoramos hoje cem anos desde o seu nascimento. Nascido em Turim a 31 de julho de 1919, era físico de formação, mas enquanto cientista, não poderia imaginar o quanto o seu conhecimento do Homem era insuficiente até ter sido capturado pelos nazis aos 24 anos de idade e transportado para o campo de concentração de Auschwitz.

Levi não ambicionava ser escritor mas foi forçado à escrita por uma necessidade urgente de contar o que se passou nos campos de concentração da Alemanha nazi e, ao mesmo tempo, exorcizar os seus próprios demónios. Nos inúmeros livros que escreveu sobre o assunto, ajudou a dar uma dimensão humana a este que foi um dos maiores atentados à vida e dignidade humanas, tendo vitimado cerca de 6 milhões de judeus. Num mundo como aquele em que vivemos hoje, em que as notícias de tragédias são diárias e o risco de estas serem votadas ao esquecimento elevado, celebramos a escrita como arma de combate à indiferença com 5 lições que aprendemos com Primo Levi.

1. DESCONFIEM DOS LÍDERES CARISMÁTICOS

Para Primo Levi, um país é tão mais civilizado quanto mais as suas leis previnam que um homem fraco se torne demasiado fraco e um homem poderoso se torne demasiado poderoso. Deste modo, o autor apela aos seus leitores para que desconfiem de todos os líderes carismáticos e autoproclamados profetas. Na sua opinião, é preferível que renunciemos a verdades que nos são reveladas por outros, ainda que estas possam parecer mais agradáveis ou convenientes, e que confiemos apenas naquelas que conseguimos confirmar a partir do estudo e da razão.

2. UM ATENTADO AOS DIREITOS HUMANOS DE UM É UM ATENTADO AOS DIREITOS HUMANOS DE TODOS

Parafraseando Levi, cada vez que, em qualquer parte do mundo, são negados os direitos fundamentais da humanidade e da igualdade entre todos, caminhamos para o sistema do campo de concentração. As mudanças de paradigma não acontecem da noite para o dia e um único ato de injustiça, ainda que pequeno, é um passo nesse caminho do qual, uma vez começado, é difícil regressar.

O mesmo se aplica à liberdade de expressão pois, cada vez que a liberdade de uma única pessoa expressar a sua opinião é comprometida, ainda que se trate de uma opinião impopular ou até mesmo errada, é a própria liberdade que comprometemos.

3. A INFELICIDADE ABSOLUTA NÃO É POSSÍVEL

Uma das lições mais bonitas que Primo Levi nos dá em Se Isto É Um Homem é a de que mesmo na mais miserável das condições, existe sempre uma réstia de esperança e de beleza que nos impedem de atingir a miséria absoluta. Nas suas palavras: “Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito.”

4. ESQUECER A HISTÓRIA É ARRISCAR REPETI-LA

Foi Edmund Burke que escreveu “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Contudo, a mesma mensagem está presente nas palavras de Primo Levi e nos inúmeros avisos que faz às gerações vindouras nos seus livros. Esquecer o Holocausto é, não só arriscar que o mesmo volte a acontecer, é “matar duas vezes” como escreveu Elie Wiesel, também ele um escritor sobrevivente dos campos de concentração nazis e Prémio Nobel da Paz em 1986. No poema que inicia Se Isto É Um Homem, Levi apela ao leitor que repita as palavras que irá ler aos seus filhos, “(…) ou então que desmorone a vossa casa / que a doença vos entreve, / que os vossos filhos vos virem a cara”.

5. AS PALAVRAS SÃO INSUFICIENTES MAS SÃO A ÚNICA LIBERTAÇÃO

Na obra de Levi, o silêncio é tão doloroso como as palavras. Guardou para si as últimas palavras que certas pessoas lhe disseram no campo de concentração quando souberam que iam morrer e silenciou igualmente as que pronunciou quando ele próprio pensava que não ia viver mais um dia. Admite que a linguagem é insuficiente para descrever a demolição física e espiritual de um Homem e manifesta a necessidade de se inventarem palavras mais duras do que “fome”, “cansaço” ou “dor” para aquilo que se viveu no Holocausto. Contudo, foi nelas que procurou libertação, tendo começado a escrever assim que regressou a casa.

Talvez não a tenha encontrado, uma vez que se suspeita que a causa da sua morte tenha sido o suicídio mas  ajudou, contudo, a que a verdadeira causa da sua morte (e a de tantos outros que embora tenham sobrevivido aos campos, morreram pouco depois), não caísse no esquecimento. Como escreveu Elie Wiesel na altura em que soube do falecimento de Levi: “Primo Levi morreu em Auschwitz há quarenta anos”.

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Descubra a obra de Primo Levi aqui:
Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa