Agosto 01

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Desde Bag End até Babel: As Bibliotecas na Ficção

“In a good bookroom you feel in some mysterious way that you are absorbing the wisdom contained in all the books through your skin, without even opening them.” ― Mark Twain

Um livro é muito mais do que um livro. É a narrativa e a ficção transposta para a nossa alma e coração, mas é também a junção de um trabalho minucioso, desde o alinhamento e construção do conteúdo até aos detalhes da capa, qual muralha disposta a proteger o seu castelo.  Tal como Mark Twain (1835-1910) , foram muitos os escritores que partilharam esse amor maior pela biblioteca. Um lugar que esconde universos, mas também um espaço que abriga a cultura das civilizações, a história dos povos, o passar dos séculos. Há algo intrinsecamente valioso numa biblioteca, e quem o assegura é Stuart Kells. 

Bibliófilo e académico australiano, Kells é reconhecido pelo seu trabalho relacionado com a literatura, nomeadamente na extensa investigação que denota a importância do livro e das bibliotecas espalhadas pelo mundo. Uma das suas obras mais recentes, The Library: A Catalogue of Wonders, é o resultado de uma pesquisa extensa sobre a biblioteca enquanto lugar mágico, a celebração do livro e do espaço que o nutre. 

Inicialmente, Stuart Kells começou por catalogar apenas as bibliotecas de escritores, mas depressa percebeu que também queria abordar bibliotecas ficcionais. Num artigo publicado para o The Guardian, o autor enumerou as suas favoritas. Fique a descobrir algumas delas. 

The Hobbit, de J. R. R. Tolkien

Tolkien (1892-1973) criou um mundo fantástico inesquecível e cuidadosamente detalhado. Nos seus livros sempre houve espaço para incluir grandes bibliotecas, como as de Minas Tirith e Rivendell, mas também outras mais humildes, como as do Shire. De acordo com Stuart Kells, uma das melhores bibliotecas que se pode encontrar no Shire é em Bag End, uma casa de campo em miniatura, bem inglesa, situada no subsolo e onde residiu Bilbo e Frodo Baggins.

É em Bag End que qualquer Hobbit civilizado pode encontrar tudo aquilo que mais deseja: paredes com painéis, chão de mosaicos, uma lareira, mobília de qualidade e estantes baixas – porque os Hobbits não gostam de escadas. 

Em The Lord of The Rings, Tolkien presenteia-nos igualmente com descrições maravilhosas de pergaminhos, códices e, inclusive, encadernações de livros raros do Shire, como o Livro Vermelho de Westmarch

A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges

Em 1938, Jorge Luis Borges (1899-1986) bateu com a cabeça e começou a delirar. Para o reanimar, a sua mãe começou a ler C. S. Lewis (1898-1963) em voz alta. Mais tarde, o escritor argentino concebeu a visão de uma biblioteca infinita, composta por salas hexagonais interligadas, idênticas entre si.

A biblioteca, idealizada por Borges em A Biblioteca de Babel, teria todos os livros escritos no passado e todos os que viriam a ser escritos no futuro. Quem a visitasse poderia encontrar títulos como as autobiografias dos arcanjos, centenas de catálogos falsos, a justificação da falácia desses mesmos catálogos, a verdadeira história da nossa morte, a tradução de todos os livros em todas as línguas, etc.

NOTA: A Biblioteca de Babel é um conto inserido no livro Ficções, escrito originalmente em 1944.

O Nome da Rosa, de Umberto Eco

Foi num mosteiro Beneditino que Umberto Eco (1932-2016) teve a epifania que o levaria a criar a biblioteca mais cativante da ficção. Inspirado pela biblioteca infinita de Jorge Luís Borges, era caracterizada pelas mesmas divisões hexagonais e um bibliotecário de nome Jorge de Burgos

Para Stuart Kells, um detalhe estranho passava pelo facto de esta biblioteca ser mais incorreta a nível histórico do que, por exemplo, a de Tolkien. As bibliotecas medievais na Europa não suportavam mais do que 2,000 livros e ali, na abadia italiana imaginada por Eco, existiam 87,000 livros – incoerência que gerou várias críticas por parte de académicos e especialistas da época. Kells parece ter, no entanto, uma resposta para eles, citando Lucien Polastron: “Dream and fantasy laugh at accountants”.

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon

O Cemitério dos Livros Esquecidos esconde-se nas ruas de Barcelona. Daniel Sempere, com apenas 11 anos, encontra-o com a ajuda do pai, em pleno coração da cidade espanhola, e é aí que descobre A Sombra do Vento, do escritor barcelonês Julián Carax. Este cemitério, conhecido por poucos na cidade, é uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para livros abandonados pelo mundo, à espera que alguém os encontre. Daniel fica fascinado com o livro de Carax e depressa descobre não só que ninguém ouviu falar dele, mas também que alguém anda a queimar todos os seus livros. 

Carlos Ruiz Záfon (1964) inspirou-se em galerias de espelhos, nas histórias dentro de outras histórias, nas bibliotecas de Wilfrid Voynich e Francis Edwards, na biblioteca da abadia de Umberto Eco e nos dépôts littéraires da revolução francesa, onde pilhas de livros roubados eram acumulados em larga escala. 

A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin

Na saga fantástica mais aclamada dos últimos tempos, de George R. R. Martin (1948), a Citadela, em Oldtown, possui uma biblioteca fascinante – a maior existente em Westeros – que é, segundo Stuart Kells, uma verdadeira maravilha medieval.

Tal e qual como foi imaginada na série de televisão da HBO, Game of Thrones (2011-2009), esta biblioteca tem um átrio central enorme, onde uma estrutura de espelhos e lentes, suspensa no tecto, propaga a luz natural pelas várias divisões. Os livros mais preciosos e perigosos estão acorrentados em estantes, de forma semelhante à biblioteca da Catedral de Hereford, no Reino Unido. 

Descubra estas e outras bibliotecas no artigo original, escrito por Stuart Kells, para o The Guardian, intitulado “From Bag End to Babel: Top 10 libraries in fiction”. 

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa