Toni Morrison, Prémio Nobel da Literatura, morre aos 88 anos

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IMAGEM: DEBORAH FEINGOLD / GETTY IMAGES

“Eu digo aos meus alunos: ‘Quando conseguirem obter esses empregos para os quais foram treinados de forma tão brilhante, lembrem-se que o vosso trabalho real é que, se forem livres, têm que libertar alguém. Se tiverem poder, então o vosso trabalho é darem poder a alguém.'” – Toni Morrison

Toni Morrison, a autora que deu voz às lutas e conquistas da comunidade afro-americana através do seu trabalho brilhante e absolutamente vital, notório em obras como Beloved, A Mercy ou Song of Solomon, morreu esta segunda-feira, aos 88 anos.

Ao longo de mais de cinco décadas, publicou 11 romances, cinco livros infantis, duas peças de teatro, um ciclo de canções e uma ópera. Foi professora na Universidade de Princeton e mentora de várias gerações de jovens escritores.  Em entrevista ao The New Yorker, em 2003, disse: “Eu sei que parece muito, mas eu apenas faço uma coisa. Eu leio livros. Eu dou aulas sobre livros. Eu escrevo livros. Eu penso sobre livros. É um trabalho apenas”.

Os primeiros anos em Lorain

Nasceu Chloe Ardelia Wofford a 18 de fevereiro de 1931 e a sua infância foi passada nas ruas de Lorain, no estado de Ohio, apenas a alguns quilómetros dos portões da fábrica de aço da cidade. Em plena Grande Depressão, foram várias as dificuldades por que passaram – quando Toni tinha apenas dois anos, o senhorio incendiou um dos apartamentos onde viviam por não conseguirem pagar a renda. O seu pai, George Wofford, soldador de profissão, desafiou o seu supervisor e arranjou um segundo emprego para conseguir levar a sua filha para a universidade, para além dos muitos biscates que mantinha para conseguir sustentar a família. 

Morrison foi uma leitora voraz desde pequena, devorando Jane Austen, Richard Wright, Mark Twain e muitos outros. Para arranjar dinheiro, chegou a limpar casas de famílias brancas e trabalhou como secretária na Biblioteca Pública de Lorain. Converteu-se ao catolicismo e adoptou Anthony como nome de baptismo. Os seus amigos deram-lhe o diminutivo pelo qual seria conhecida anos mais tarde – Toni. 

O silêncio que a impeliu a escrever

Depois de uma tese de mestrado sobre William Faulkner e Virginia Woolf, começou a sua carreira enquanto professora, trabalhando primeiramente na Texas Southern University e, mais tarde, em Howard, a universidade que a recebeu pela primeira vez. Foi aí que conheceu Harold Morrison, arquiteto, com quem casou e teve dois filhos. Quando se divorciaram, em 1964, Toni Morrison teve que arranjar forma de sustentar os seus filhos. Aceitou um trabalho como editora na Random House, encorajando escritoras negras como Gayl Jones e Angela Davis a exporem as suas vozes únicas e absolutamente culturais.  

Foi nesta época que escreveu o seu primeiro livro, The Bluest Eye, sobre uma adolescente negra obcecada com os estereótipos de beleza feminina branca e que implorava a Deus para que os seus olhos se tornassem azuis. Escrevia quando podia, normalmente quando os seus filhos estavam a dormir. “Eu roubei tempo para escrever”, disse ao The New Yorker. “Escrever era o meu outro trabalho, longe do meu trabalho ‘real’ como editora ou professora.” 

Depois de The Bluest Eyeseguiram-se outras obras, entre as quais Song of Solomon, publicada em 1977 e que lhe garantiu o National Book Critics Circle Award. O seu trabalho mais reconhecido, Belovedsaiu para o público em 1987. Baseado numa história verídica, Morrison conta a história de uma escrava em fuga que decide matar a sua filha depois de serem recapturadas. Com este livro, ganha o Prémio Pulitzer de ficção em 1988. 

“O que me impeliu a escrever foi o silêncio – tantas histórias por contar e por examinar”, afirmou a escritora. “Inspirei-me no silêncio e nas ausências da literatura”, e garantiu que jamais deixaria de ser ouvida. As suas obras eram adoradas e temidas – de tempos a tempos, os seus livros eram removidos do plano de leitura escolar e, nas prisões do Texas, a obra Paradise foi proibida por medo que provocasse um tumulto. 

Na década de 1990, foram vários os prémios que ganhou, com destaque para o Prémio Nobel da Literatura em 1993. Em 1996, ganhou o Jefferson Lecture for the National Endowment for the Humanities e o National Book Foundation’s Medal of Distinguished Contribution to American Letters.

Um legado que vive para sempre

Com a chegada dos anos 2000, Toni Morrison continuou a escrever, publicando mais quatro romances e leccionando em Princeton até se reformar em 2006. Em 2012, Barack Obama, na altura Presidente dos Estados Unidos, galardoou-a com a Medalha Presidencial da Liberdade.

Imagem: Leigh Vogel / WireImage

“Lembro-me de ler Song of Solomon quando era criança e não estar apenas a aprender a escrever, mas também a aprender como ser e como pensar”, explicou Obama após a cerimónia. “A prosa de Toni Morrison traz-nos o tipo de intensidade moral e emocional que poucos escritores se atrevem a ter.”

Depois disso, manteve-se ativa na vida pública, comentando assuntos políticos, dando entrevistas e escrevendo constantemente, sempre. A sua obra mais recente, publicada em fevereiro de 2019 e intitulada Mouth Full of Blood, apresenta um conjunto de ensaios, discursos e outros trabalhos de não-ficção da escritora. 

“The writing is – I’m free from pain. It’s where nobody tells me what to do; it’s where my imagination is fecund and I am really at my best. Nothing matters more in the world or in my body or anywhere when I’m writing.” Toni Morrison

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