Jorge Amado Agosto 09

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Jorge Amado, apenas escritor e homem

Nasceu Jorge Leal Amado de Faria, a 10 de agosto de 1912, na Baía, Brasil. Viveu uma adolescência agitada, primeiro na Baía, no início dos seus estudos, e logo depois no Rio de Janeiro. Foi lá que se formou em Ciências Jurídicas e logo depois começou a dedicar-se ao jornalismo.

Pressões políticas, exílio e a afirmação

Em 1932 inscreveu-se no Partido Comunista Brasileiro. Quatro anos depois foi preso, acusado de participar na Intentona Comunista, uma tentativa de golpe de estado contra o governo de Getúlio Vargas. Posteriormente, em 1937, fez uma viagem pelo Brasil, América Latina e Estados Unidos, durante a qual escreveu Capitães da Areia. No regresso voltou a ser preso.

Foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro em 1945 e assumiu mandato no ano seguinte. No entanto, o partido passou a ser considerado ilegal. Como resultado, o mandato foi anulado.

Mudou-se para Paris, logo depois, em 1948, num período de exílio voluntário que viria a durar pouco. Dois anos depois o governo francês expulsa-o do país, por isso Jorge Amado muda-se para Praga. Só em 1956 viria a cortar todas as ligações ao Partido Comunista.

É também por essa altura que a escrita de Jorge Amado começa a mudar. O escritor passa a dar mais destaque ao humor, à sensualidade e à miscigenação. Gabriela, Cravo e Canela é, sem dúvida, um marco nesta mudança. No entanto, Jorge Amado preferia dizer que tinha havido “uma afirmação e não uma mudança de rota“.

Nos anos que se seguiram, Jorge Amado publicou vários livros com personagens femininas sensuais, fortes e marcantes. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990 muitos dos seus livros foram adaptados para cinema e televisão. A adaptação de Gabriela ainda hoje é uma das novelas mais marcantes exibidas no Brasil e em Portugal.

O Legado Duradouro de Jorge Amado

Em 1994, Jorge Amado recebeu o Prémio Camões, considerado o Nobel da Literatura em Língua Portuguesa. Dois anos depois, em Paris, viria a sofrer um edema pulmonar. Regressou ao Brasil, foi operado e quase deixou de sair de casa porque a cegueira parcial o impedia de ler e escrever.

Morreu em agosto de 2001, a poucos dias de completar 89 anos. O seu legado, no entanto, mantém-se até aos dias de hoje. Em 2012, a Globo produziu uma nova versão da novela Gabrielaemitida originalmente em 1975.

A história de vida de Jorge Amado será publicada em livro no final deste mês de Agosto. O livro Jorge Amado – Uma Biografiada autoria de Joselia Aguiar, surge de várias entrevistas e pesquisas da autora, com acesso a documentos de família e cartas de amigos e outros escritores. Chega às livrarias a 27 de agosto.

Hoje, recordamos Jorge Amado através de cinco curiosidades sobre a vida do escritor brasileiro.

1. Vários dos seus livros foram queimados durante o estado novo brasileiro.

As opiniões políticas de Jorge Amado criaram sempre algum atrito com os governos brasileiros. Durante o Estado Novo, instituído por Getúlio Vargas no Brasil, entre 1937 e 1950, mil exemplares de livros do autor foram queimados em praça pública pela polícia do regime, em Salvador, na Baía.

Em Portugal, os seus livros foram proibidos até 1960. No entanto, o êxito internacional de Gabriela, Cravo e Canela acabou por permitir que o mesmo fosse publicado por cá.

2. O Gato Malhado que andou perdido durante 30 anos.

Jorge Amado escreveu O gato malhado e a andorinha Sinhá em 1948, em Paris. O objetivo era ser uma prenda para o filho, que completava um ano, mas o texto acabou por ficar perdido no meio das coisas da criança e só foi encontrado em 1976.

O livro foi publicado nesse ano, sem alterações ao original. Jorge Amado recusou mexer nele. Dizia que se o reestruturasse o texto ia perder a sua “única qualidade”, que era a de “ter sido escrito simplesmente pelo prazer de escrevê-lo, sem nenhuma obrigação de público e de editor“.

3. É o segundo escritor brasileiro mais vendido fora do Brasil

Já foi o mais vendido, mas Paulo Coelho ultrapassou-o. Ainda assim, Jorge Amado continua a ser o segundo autor brasileiro mais vendido fora do Brasil. Gabriela, Cravo e Canela chegou, na altura em que foi publicado originalmente, a fazer parte da lista dos mais vendidos do The New York Times.

Além disso, vários dos seus livros, tais como O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: Uma História de Amor (1976) e Tieta do Agreste (1977), foram traduzidos para mais de cinquenta países.

4. A primeira telenovela em portugal

A adaptação televisiva de Gabriela, Cravo e Canelatransmitida pela Globo, no Brasil, em 1975, chegou a Portugal dois anos depois e desde logo se tornou um fenómeno de popularidade.

Gabriela foi a primeira telenovela a ser emitida em Portugal. Numa época em que poucos tinham televisão em casa, era comum se juntarem em cafés ou associações para assistir aos episódios. O êxito era tanto que a Assembleia Nacional adiou ou suspendeu sessões várias vezes, para que os deputados pudessem assistir à telenovela.

Graças a isso, o livro de Jorge Amado foi a obra mais vendida da Feira do Livro de Lisboa desse ano.

Jorge Amado com José Saramago
Jorge Amado com José Saramago. Imagem: Fundação Casa de Jorge Amado
5. Rodeado de amigos talentosos

Nos anos de viagens e exílio, Jorge Amado travou amizade com várias personalidades do mundo da escrita e da arte. Desde José Saramago a Gabriel García Márquez, Pablo Neruda ou Mario Vargas Llosa.

As amizades ilustres, no entanto, não o impressionavam. No livro Navegação de Cabotagem, Amado escreveu algumas palavras sobre isso: “Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem”.

Recorde a obra de Jorge Amado: