Agosto 12

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Young Adult | A literatura tem idade?

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Quando Harry Potter recebeu, pelas mãos de Hagrid, uma carta a anunciar que era um pequeno feiticeiro prestes a estudar em Hogwarts, todas as crianças acompanharam a sua jornada como se esta lhes pertencesse, imaginando uma realidade onde também poderiam fazer magia. Anos mais tarde, no fim de uma viagem repleta de perdas e conquistas, o Rapaz Que Sobreviveu derrota Lord Voldemort na batalha mais épica de sempre, oferecendo-nos a reconfortante sensação de que o bem derrota sempre o mal. Essas crianças, agora adolescentes – ou talvez já adultas – findam a caminhada ao lado de Harry como se também elas estivessem presentes no momento em que Tom Riddle dá o seu último suspiro.

A saga de J. K. Rowling, desde Pedra Filosofal (1997) até Talismãs da Morte (2007), é somente uma porta para um mundo diverso, influente e indispensável – a literatura para jovens adultos. Harry Potter ensinou várias gerações a olhar nos olhos as consequências de um sistema corrupto e a solidão de perder quem mais amamos, tudo isto através de um espaço ficcional estimulante e criativo.

Uma literatura sem idade mas que promete ficar

Ainda que a ficção young adult (YA) tenha recebido o seu destaque mais ou menos na altura de Rowling, a voz de adolescentes representada na ficção não é propriamente recente. Mark Twain e Charles Dickens publicaram As Aventuras de Tom Sawyer (1876) e Oliver Twist (1838) respetivamente, duas obras escritas no século XIX sobre dois meninos órfãos que aprendem a viver numa sociedade cruel. Outras obras mais recentes receberam, entretanto, a atenção do público adolescente, como À Espera do Centeio (1951), de J. D. Salinger, ou Mataram a Cotovia (1960), de Harper Lee. Todas, sem exceção, evocam a experiência de crianças ou adolescentes e a sua visão honesta perante as infelicidades do mundo.

No final do século XX, perante o sucesso de Harry Potter, a perspetiva adolescente ganhou cada vez mais popularidade. A diferença, no entanto, estava na complexidade dos enredos, ao explorar assuntos compreendidos, até então, como um tabu. Distopias como Os Jogos da Fome (2008), de Suzanne Collins, ou Divergente (2001), de Veronica Roth, indiciavam a força dos jovens, capazes de revolucionarem sociedades pisadas pela ditadura e corrupção política. Em Portugal, Os Filhos da Droga (1978), de Christiane F., ou A Lua de Joana (1994), de Maria Teresa Maia Gonzalez, chamavam a atenção para a cultura da toxicodependência nas camadas mais jovens.

Mas o que torna a ficção de jovem adulto tão importante?

Com histórias cada vez mais diversificadas, de uma profundidade por vezes difícil e crua, este é um género literário que entra na casa do leitor e se instala onde é necessário – no coração de quem mais precisa dele.

Uma voz que é de todos

De acordo com um artigo do The Atlantic, aproximadamente 55% dos leitores de ficção young adult são adultos. Um número que pode parecer surpreendente, mas que não é novidade entre académicos e especialistas, como é o caso de Jen Loja, presidente da Penguin Young Readers e professora de literatura. Ao contrário da ficção para adultos, a ficção young adult representa uma fase pela qual todos nós já passámos – a adolescência.

Crescer é ter medo, vivenciar dramas que nos parecem impossíveis até os resolvermos, sofrer perdas inimagináveis e amadurecer com as nossas experiências, algo que qualquer geração consegue entender perfeitamente. É ser Cath, a menina introvertida de Fangirl (2013), que encontra o consolo nos livros e na sua escrita e tem medo de se abrir para outros depois da morte da mãe. É ser infinito como Charlie, em As Vantagens de Ser Invisível (1999). É viajar nas costas de um dragão, como em Eragon (2002) e descobrir o renascer do mundo através do olhar imenso de Saphira. 

Literatura que faz pensar

Starr Carter tem 16 anos quando se torna na única testemunha do disparo fatal de um polícia contra Khalil, o seu melhor amigo. É em O Ódio que Semeias (2017) que sentimos o desespero da personagem principal, numa história que depressa se tornou num aclamado bestseller sobre a brutalidade policial nos Estados Unidos da América. 

Segundo Virginia Zimmerman, professora de literatura inglesa, há uma concepção errada em torno dos livros young adult, ao veicular-se a ideia de que se trata de um género que não traz nada de novo, funcionando mais como um escape do que propriamente como literatura. “As pessoas podem ler ficção YA para entrar em realidades diferentes, mas eu acho que o fazem para encontrar sentimentos, desafios e relações que reconhecem nas suas próprias vidas”.

Histórias como as de Starr Carter colocam-nos na pele do outro, e isso é a receita ideal para nos tornarmos mais empáticos e emocionalmente mais inteligentes. De facto, a literatura young adult aborda, cada vez mais, assuntos importantes sobre raça, sexualidade ou discriminação, obrigando o adolescente – ou o adulto – a pensar para lá do seu entendimento. 

Histórias que valem a pena

Para Zimmerman, não há dúvidas de que a ficção YA tem vindo a melhorar ao longo dos anos. Atualmente, há uma secção completamente dedicada aos livros young adult no The New York Times, algo que há 10, 11 anos seria impensável. Para além disso, são cada vez mais os livros adaptados ao cinema ou a séries de televisão, como A Rapariga que Roubava Livros (2005) ou Por Treze Razões (2007).

Outro factor, talvez dos mais importantes, diz respeito à visibilidade que a restante literatura passa a ter para o jovem leitor. É o mergulhar nesse oceano que é a ficção, independentemente do género literário ou da geração para quem é dirigido. 

Descubra os livros young adult:
Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa