As festas literárias dos autores famosos

Muitos dos nossos autores favoritos não são propriamente conhecidos por gostarem de sair da sua zona de conforto. Salvo raras excepções, os escritores preferem um sítio sossegado, onde possam desenvolver os seus trabalhos sem interrupções.

Mas quem não aprecia uma boa festa de vez em quando? Inspirados por um artigo do site Literary Hub, escrito por Emily Temple, quisemos dar a conhecer a história das grandes festas literárias,  que ficaram famosas pelo seu carácter insólito e que culminaram numa amizade para muitos anos… Ou num ódio de estimação inesquecível. 

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Ilustração via LitHub

O Festival de St. James, ou quando F. Scott Fitzgerald conheceu James Joyce

Sylvia Beach, fundadora da icónica livraria Shakespeare and Company, em Paris, e primeira editora de Ulisses (1922), organizou, a 27 de junho de 1928, um jantar que ficaria conhecido como o Festival de St. James, ou a noite em que F. Scott Fitzgerald conheceu James Joyce.  

O autor de O Grande Gatsby (1925), tinha um fascínio enorme por Joyce, mas algum receio e timidez impediam-no de se apresentar formalmente. Por essa razão, e como descreve Beach na sua autobiografia, organizou-se um jantar que tinha como convidados “os Joyces, os Fitzgeralds, André Chamson e a sua mulher, Lucie”. A memória deste jantar ficou retratada num desenho feito por Fitzgerald: James Joyce sentado na mesa, com uma auréola na cabeça, o escritor americano ajoelhado ao seu lado e Sylvia Beach e a companheira de então, Adrienne Monnier, nos topos da mesa, retratadas como sereias.

“Diz-se”, escreveu a biógrafa Noël Riley Fitch, “que ele tentou mostrar a sua estima pelo escritor irlândes – a quem se dirigia como ‘senhor’ -, ao tentar saltar pela janela”. Outra fonte afirma que Fitzgerald se ajoelhou perante Joyce, beijou a sua mão e declarou: “How does it feel to be a great genius, sir? I am so excited at seeing you, sir, that I could weep”. ,

Imagem: Pinterest

Quando Carson McCullers recebeu Karen Blixen e Marilyn Monroe

De acordo com a biógrafa Virginia Spencer Carr, nas primeiras semanas de 1959, Carson McCullers, autora de O Coração é um Caçador Solitário (1940), foi a um dos eventos literários de Karen Blixen, conhecida pelo pseudónimo Isak Dinesen.

Em conversa, a autora dinamarquesa de Out of Africa (1937) disse a McCullers que as únicas pessoas que queria conhecer nos Estados Unidos, para além dela, seriam e. e. cummings, Ernest Hemingway e Marilyn Monroe.  Ainda que os primeiros dois não estivessem disponíveis, a escritora americana prometeu um encontro com Monroe

A festa ficou marcada para 5 de fevereiro desse ano, onde estaria também Arthur Miller, com quem a atriz estava casada na altura. Depois de um jantar composto principalmente “por ostras, uvas verdes e champanhe” – exigências de Blixen -, Carson e as duas convidadas dançaram, supostamente, em cima da mesa de mármore onde haviam jantado momentos antes. 

O dramaturgo americano, no entanto, não acredita que tal tenha acontecido, devido aos problemas de saúde graves que as escritoras tinham. McMiller, no entanto, adorava falar sobre aquela noite e recontava-a várias vezes.

Imagem via LitHub

O encontro às 2h30 da manhã entre Marcel Proust e James Joyce

O autor francês de Em Busca do Tempo Perdido (1913) e James Joyce conheceram-se numa espécie de blind date, onde Pablo Picasso e Igor Stravinsky também estariam incluídos. A reunião foi organizada por Sydney e Violet Schiff, patronos de arte britânicos, que pretendiam juntar os “melhores artistas contemporâneos” no mesmo espaço. 

Proust apareceu por volta das 2h30 da manhã, altura em que Joyce já se encontrava a dormir. Acabou por acordar e ambos foram apresentados; os relatos daquilo que se passou a seguir não são propriamente positivos. O escritor irlandês disse “A nossa conversa consistia apenas na palavra ‘não’. Proust perguntou-me se eu conhecia o duque tal, ao que respondi ‘não’. A nossa anfitriã perguntou a Proust se tinha lido Ulisses, e ele respondeu ‘não’. Claro que a situação era impossível – o dia de Proust estava a começar e o meu a acabar”

Maya Angelou a dançar com o poeta Amiri Baraka (1991).
Imagem: The New York Times
A festa que deu origem ao livro mais conhecido de Maya Angelou

Apesar de não ser considerada especialmente lendária, o mesmo não se pode dizer do livro de memórias de Maya Angelou, Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola (1969). A descrição daquilo que aconteceu na festa é retratado por Sam Roberts no The New York Times.

Após a morte de Martin Luther King, a 4 de abril de 1968, que coincidiu com o 40.º aniversário da escritora, James Baldwin levou-a a jantar a casa da biógrafa Judy Feiffer.  Aí, a autora afro-americana conquistou os convidados – entre os quais se encontrava, também, o romancista Philip Roth – com as suas histórias . Os seus relatos eram angustiantes: desde a sua juventude nos bairros segregados do Sul, à violação que sofreu pelo namorado da mãe quando tinha oito anos. 

Nessa noite, Judy Feiffer apresentou Maya Angelou a um editor na Random House, por acreditar que as memórias da escritora mereciam ficar eternizadas em papel. Angelou resistiu a todas as insistências para que se escrevesse um livro sobre as suas experiências, até ao dia em que, incapaz de continuar a renunciar tal convite, acabou por aceitar. 

O editor, Robert Loomis, disse de forma provocadora: “Escrever uma autobiografia enquanto literatura é simplesmente impossível”, ao que Angelou corajosamente respondeu: “Vou tentar”.

Foi, obviamente, bem sucedida. 

Imagem via LitHub

Roald Dahl conheceu Kingsley Amis e o ódio foi instantâneo

O escritor de literatura infantil conheceu Kingsley Amis numa festa organizada por Tom Stoppard, em 1972. Segundo consta, Dahl depressa começou a falar sobre dinheiro, sugerindo a Amis que, se quisesse realmente ganhar dinheiro enquanto escritor, devia tentar escrever para crianças. A tensão era, naturalmente, palpável.

O biógrafo Donald Sturrock escreveu que o autor de A Sorte de Jim se sentia ofendido pela sugestão de que a sua própria escrita não lhe estivesse a trazer dinheiro. Paralelamente, o progenitor da pequena Matilda sentia-se vulnerável no ambiente em que se encontrava, onde a grande maioria dos escritores britânicos, entre eles Amis, não respeitavam a literatura infantil como literatura verdadeira.