Os livros recomendados por Barack Obama

Barack Obama - Leituras de Verão

Enquanto Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama habituou-nos às suas recomendações literárias prática que se manteve após ter deixado a Casa Branca, em 2017. Na passada semana, partilhou as suas leituras de verão, para quem, nas suas palavras, “está à procura de sugestões”.  

A lista de recomendações abarca obras de ficção e não-ficção, incluindo títulos recentes, como o último livro de Téa Obreht, e outros mais antigos, como as obras de Haruki Murakami a Nicholas Carr.

Para começar, contudo, o antigo Presidente dos EUA sugere a obra completa de Toni Morrison, autora afro-americana e Prémio Nobel da Literatura que morreu no início do mês de agosto. “Beloved, Song of Solomon, Bluest Eye, Sula – são obras transcendentes, todas elas“, explicou. Em 2012, Barack Obama galardoou Toni Morrison com a Medalha Presidencial da Liberdade, deixando-lhe agora um último tributo, através da recomendação da sua obra. 

Conheçamos, então, as sugestões de leitura de Obama para este verão:

The Nickel Boys, Colson Whitehead
The Nickel Boys, de Colson Whitehead

O mais recente romance de Colson Whitehead, autor de A Estrada Subterrânea e Pulitzer de Ficção em 2017, é baseado numa história verídica sobre dois rapazes enviados para uma escola de correção na Flórida. Em funcionamento durante mais de 100 anos, a Nickel Academy foi fechada em 2011 depois de uma investigação ter divulgado a morte de 81 crianças e um sistema onde imperava o abuso físico, emocional e sexual. 

Em entrevista à Vanity Fair, o autor diz que se obrigou a escrever The Nickel Boys após Donald Trump ter sido eleito Presidente dos Estados Unidos: “Senti-me compelido a tentar entender onde estávamos enquanto país”. A opinião no The Guardian promete um romance que “demonstra com eficácia a forma como o racismo na América funciona há muito como uma atividade codificada e sancionada”.

Para Barack Obama, esta é uma leitura ‘necessária, por vezes difícil de engolir’, detalhando o encarceramento em massa na era de Jim Crow e as suas consequências, que ainda hoje se sentem. 

Exhalation, de Ted Chiang

Depois do sucesso internacional de Arrival, obra adaptada ao cinema em 2016, chega agora uma nova colecção de contos de Ted Chiang. Qual a essência do Universo? O que significa ser humano? São nove histórias que prometem responder a estas questões de forma original, provocadora e mordaz. 

Obama garante que estas short stories irão fazer os leitores pensar e, eventualmente, sentirem-se “mais humanos”, o que, para o antigo presidente, é o melhor tipo de ficção científica. 

Exhalation, Ted Chiang
Wolf Hall, Hilary Mantel
Wolf Hall, de Hilary Mantel

Esta é a história de Thomas Cromwell, conselheiro-chefe do rei Henry VIII, monarca que viria a ficar conhecido pela renúncia da Inglaterra à autoridade papal. As virtudes e defeitos de Cromwell trouxeram-lhe destaque, enquanto braço direito do rei. Filho de ferreiro, génio político, subornador nato, charmoso, bully e com uma experiência absolutamente letal em manipular as pessoas à sua volta. 

Wolf Hall foi publicado em 2009 e vencedor do Man Booker Prize nesse mesmo ano. Na altura, Barack Obama afirma ter perdido a oportunidade de o ler por “estar muito ocupado”. Ainda assim, garante que o livro de Hilary Mantel continua ‘óptimo’ e recomendável para os dias de hoje. 

Depois do livro, pode experimentar a série, adaptada em 2015, pela BBC. Veja o trailer aqui

Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami

Murakami é já bem conhecido entre os leitores portugueses. Além de Chiang, o antigo presidente norte-americano escolheu mais uma colectânea de contos para as suas leituras de verão, que explora a perspectiva de vários homens e aquilo que lhes acontece sem a presença das mulheres nas suas vidas. “Vai mexer convosco, confundir-vos e, por vezes, deixar-vos com mais questões do que respostas”, garante Barack Obama

Homens sem Mulheres foi o vencedor do Prémio Livro do Ano Bertrand 2017. São sete histórias sobre sete homens desencantados; sete histórias sobre a solidão, a mágoa e o luto, que desafiam os lugares-comuns sobre o amor; sete maneiras de traduzir a mesma melancolia, enquanto lá fora “a chuva continua a cair, provocando no mundo inteiro um interminável calafrio”. Em suma, Murakami no seu melhor. 

American Spy, de Lauren Wilkinson

Lauren Wilkinson estreou-se na ficção com American Spy, uma obra de suspense sobre a história de uma agente do FBI, em plena Guerra Civil, incumbida da tarefa de derrubar o presidente africano de Burquina Fasso, para que o país não caísse nas mãos dos soviéticos. A obra é inspirada em eventos reais sobre a queda de Thomas Sankara, conhecido como o Che Guevara africano.

Barack Obama escolheu este thriller  por ser “muito mais do que um livro sobre espiões”, abordando questões sobre os laços de família, de amor e, também, de um país. 

The Shallows, de Nicholas Carr

Considerado o livro sobre o poder e o perigo da tecnologia, esta obra aborda desassombradamente as consequências intelectuais e culturais da Internet. Em parte, uma história de ideias e, em parte, divulgação científica, The Shallows abunda em apreciações certeiras e cáusticas, inquietando-nos com questões profundas sobre o estado da mente contemporânea. Uma leitura urgente sobre o actual pensamento superficial.

Publicado em 2010, este é um livro que, para Barack Obama, continua essencial, atual e “merecedor de reflexão”, sobre o impacto da Internet nos nossos cérebros e comunidades nos dias de hoje. 

The Shallows, Nicholas Carr
Lab Girl, de Hope Jahren

Lab Girl é um livro sobre a combinação perfeita entre trabalho e amor. Hope Jahren é cientista e professora de geobiologia e a sua obra resume as histórias das descobertas científicas que fez nos laboratórios e o caminho difícil que percorreu até lá chegar. Desde a infância, passada no laboratório do pai, às viagens – umas autorizadas, outras nem tanto – pelos Estados Unidos, Noruega, Irlanda, Pólo Norte e Hawai, entre outros.

“Uma autobiografia muito bem escrita sobre a história de uma mulher no mundo da ciência, sobre uma amizade brilhante e a profundidade das árvores”, resume Obama. “Formidável”, remata – e nós acreditamos. 

Inland, de Téa Obreht

Téa Obreht ficou conhecida, em 2011, com a obra A Mulher do Tigre, um dos livros mais vendidos nos Estados Unidos e vencedor do Orange Prize for Fiction. Publicado somente em agosto, Barack Obama não adiantou muito sobre Inland “para não estragar nada”. No entanto, prometeu aos leitores que esperaram ansiosamente pelo novo romance de Obreht que “não vão ficar desapontados”.

O enredo gira em torno de Nora, uma mulher que aguarda pelo retorno dos homens da sua vida, ao lado do filho mais novo, um rapaz que acredita num monstro misterioso que ronda as terras da sua casa, e do primo de 17 anos que comunica com os espíritos. 

De acordo com o Times Literary Supplement, esta é uma obra que nos faz lembrar a nostalgia de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, e Beloved, de Toni Morrison

Inland, Téa Obreht
How to Read the Air, Dinaw Mengestu
How to Read the Air, de Dinaw Mengestu

Jonas, após um casamento falhado, faz a viagem que os pais – um casal da Etiópia à procura de uma identidade e vida nos Estados Unidos – fizeram há trinta anos até Nashville, no Tennessee. Ao tentar perceber a sua essência, enquanto pessoa, e os moldes que o forjaram, Jonas tenta responder a uma questão existencial, indo ao encontro do seu passado para que lhe seja possível sonhar com o futuro. 

“Para se ter uma noção da complexidade e redenção da história do imigrante americano”, Obama incita a que todos leiam a obra de Dinaw Mengestu, publicada em 2010. 

Maid, de Stephanie Land

Stephanie Land, mãe solteira, foi empregada doméstica durante vários anos, trabalhando longas e duras horas para conseguir sustentar a sua filha. Maid relata essa experiência, desde o tempo em que limpava sanitas nas casas de famílias ricas, passando pela época inesquecível em que a sua filha aprendeu a andar nos centros destinados aos sem-abrigo. Esta é uma história marcante, protagonizada por uma mulher que resolveu escrever sobre os que trabalham demasiado e recebem muito pouco. 

Obama termina a sua lista de sugestões literárias com o livro de Land que, nas suas palavras, mostra “um olhar inflexível sobre a divisão de classes na América, a descrição sufocante da forma como muitas famílias vivem e um lembrete de que todo o trabalho tem dignidade”.

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa