‘Luanda Lisboa Paraíso’ vence Prémio Literário Eça de Queiroz

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Djaimilia Pereira de Almeida venceu o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz de 2019 com o seu mais recente romance, Luanda Lisboa Paraíso, editado pela Companhia das Letras. O galardão foi anunciado esta terça-feira em Lisboa.

De acordo com o comunicado, o júri decidiu, por unanimidade contemplar o romance por este desenhar “a solidão das personagens de forma magistral, numa contenção poética em que se estabelece o equilíbrio entre a esperança e o desespero”.

O prémio, no valor de 10,000 euros, foi instituído em 2014 a fim de promover e incentivar a produção de obras literárias em língua portuguesa, bem como homenagear Eça de Queiroz, “um dos maiores vultos nacionais e internacionais da literatura e cultura portuguesas”. Nas edições anteriores contemplou narrativas ficcionais inéditas e obras de carácter ensaístico já publicadas. A partir desta edição, passa a distinguir bienalmente uma obra ficcional (romance ou novela) escrita em língua portuguesa e publicada em Portugal por autor nacional com idade não superior a 40 anos à data da publicação.

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“Parecia pensar que um dia lhe bateriam à porta e lhe diriam que estava tudo tratado, que era enfim português, direito que julgava pertencer-lhe. Não sabia ele conjugar o gerundivo e a origem etimológica da palavra ‘Tejo’? Não achava, inspecionando-se ao espelho, que não se geravam a norte do Alentejo, ‘e muito menos em África’, maçãs-de-adão como a de Aníbal Cavaco Silva? Não era dócil e cordato contando que não estivesse bebido? Não engraxava os sapatos do filho aos domingos sentindo-se sempre mortificado? Não escolhera já o seu talhão no Cemitério dos Prazeres, para onde se esquivava a entoar cânticos fúnebres em kikongo enquanto admirava os jazigos de família? Não se arrepiava ao ouvir o hino de Portugal e sabia de cor a primeira estrofe dos Lusíadas? Não abafara o seu desejo ao ponto de ter esquecido de como era o corpo de Glória e decorado os afluentes do Mondego? Não estava curvado e musculado como uma atracção de circo a quem se pagaria para ver recitar a dinastia de Bragança enquanto equilibrava um banco na cabeça? Como não havia um secretário engravatado de lhe bater à porta um dia, saudando-o e estendendo-lhe um diploma comprovativo, enquanto um conjunto tocava concertina, bombo e tuba à graça do mais recente português?” in Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida

A autora tem vindo a ser reconhecida pela sua escrita desde o seu primeiro romance, Esse cabelo, onde foi premiada, em 2016, com o Prémio Novos. Também no início deste ano, em março, Djaimilia Pereira de Almeida ganhou o Prémio Literário Fundação Inês de Castro com Luanda Lisboa Paraíso, que volta agora a ser condecorado pela Fundação Eça de Queiroz, em colaboração com a Câmara Municipal de Beirão. 

Luanda, Lisboa, Paraíso conta a história de Cartola de Sousa e Aquiles, pai e filho, que viajam para Lisboa, por volta de 1980, deixando para trás Glória, a mãe doente e imobilizada na cama, entregue aos cuidados da filha, Justina. O título do livro traça o percurso feito por pai e filho, numa viagem sem retorno, onde começam em Luanda, viajam para Lisboa, acabando a viver numa pensão para, mais tarde, acabarem a viver no Paraíso, um bairro da lata na margem sul do Tejo.

A entrega do prémio terá lugar no dia 14 de Setembro na sede da Fundação Eça de Queiroz, em Tormes, na casa que inspirou o autor de A Cidade e as Serras.

Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida

Chegados a Lisboa, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar? 

“Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.” 

Este segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas obscuras, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado.

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa