Ninguém escreve como ele

António Lobo Antunes

É um dos escritores maiores da literatura mundial. Escreve livros há 40 anos, porque não sabe viver de outra maneira. A sua escrita é densa. Desafia o leitor. Força-o a pensar de outra maneira. Não gosta de conversas e de falar dos seus livros muito menos. Percorremos de fio a pavio as frases que disse e foram ditas sobre ele. Decifrámos-lhes o sentido e abrimos as páginas de uma vida dedicada à escrita, nas palavras de António Lobo Antunes. Para ler sem moderação.

Aos 76 anos, é autor de 29 romances, além de cinco livros de crónicas e de um volume de cartas. Estreou-se na escrita literária com Memória de Elefante, romance que foi recusado várias vezes pelos editores até ser publicado, faz este mês 40 anos. Depois veio o sucesso, aqui e além-fronteiras, e uma carreira na escrita que se estendeu aos jornais e revistas. Prémios e distinções já lhe perdemos a conta, mas a maior honra e reconhecimento que recebeu até hoje, confessa, foi ver a sua obra escolhida pela prestigiada casa editorial francesa Pléiade, a biblioteca literária mais importante, que só publica os grandes autores mundiais. Lobo Antunes é o segundo português, após Fernando Pessoa, a integrar o seu catálogo. “Estar na Pléiade é como receber o Nobel.”

"Sou o filho mais velho de dois filhos mais velhos."

É o mais velho de seis irmãos, todos rapazes. Quando eram pequenos, adoecia um, adoeciam todos. E o pai, médico anatomopatologista, ia até ao quarto dos rapazes e lia-lhes poesia. Ou fazia com eles um jogo temível. Citava uma frase e eles tinham de acertar em quem a tinha escrito. Ou punha a tocar os primeiros acordes de uma sinfonia para lhe adivinharem a autoria. “E a Memória de Elefante [primeiro livro, 1979] estava cheio desse jogo com o leitor. Se calhar era uma pequena vingança contra o meu pai.”

"Gosto tanto dos meus irmãos! Não falávamos muito, mas nunca nos zangámos."

António, João, Pedro, Miguel, Manuel e Nuno. Tiveram um pai rígido, exigente e disciplinador, mas também amante de todas as artes. O resultado foi uma geração brilhante, mas solitária. “Era uma relação feita de silêncios. Há alturas em que penso que tivemos a sorte de não termos sido amados… Porque, se fosse ao contrário, se calhar não escrevia. A gente escreve para gostarem de nós.”

Começou a escrever mais ou menos consciente aos sete, oito anos, e assume que só ficou contente aos trinta e tal, com Memória de Elefante. Sabe que tem de fazer um bom trabalho, sempre. “As pessoas não têm o direito de receber um mau produto, daí trabalhar neles até os considerar bons.”

"Escrevo em qualquer sítio, desde que não falem comigo."

A presença das pessoas não o incomoda nada, e não maça ninguém enquanto escreve. Os intervalos entre os livros duram três ou quatro longos meses. “Sento-me e tenho de ficar uma hora à espera, a esvaziar, a esvaziar… Depois vem uma palavra… Começar um capítulo é sempre difícil, o arranque é tão, tão, difícil.”

"Um livro acaba quando a gente sente que o livro está farto de nós."

Quando está a trabalhar num livro não tem tempo para quase nada. Não compra nem lê jornais, raramente vê noticiários na televisão. Dá um livro por terminado quando já não aguenta mais correções. “Como quando nos querem beijar e já não nos apetece mais, e os lábios parecem bifes, e se nos tocam, a gente deita-se na pontinha da cama, na esperança de que não nos toquem mais… E, então, a gente sente que o livro está farto.”

"Quando estava com os cancros aprendi muito sobre a vida com as pessoas na sala da quimioterapia."

A proximidade da morte mudou-lhe a vida. Quando estava doente, e não sabia se ia viver ou morrer, “estava-me bem nas tintas para os livros, e deram-me o Prémio Camões. Eu queria lá saber, acabavam-me de dizer que tinha um cancro. Aliás, o que é um prémio literário? Um prémio não honra um escritor, os escritores é que honram os prémios. Devíamos dar os parabéns ao Nobel por alguns grandes escritores o terem ganho.”

"Escrever ao computador é como fazer amor com preservativo."

Escreve devagar, tudo à mão, com letra microscópica, e nunca usou o computador. “Não, não sou capaz, ainda tentei em miúdo com a máquina de escrever do meu avô…Gosto de desenhar as letras, o ato de escrita tem uma componente infantil que me agrada. Escrever é fazer redações.”

"A minha vida já está toda nos meus livros."

Evita chamar personagens às pessoas ou vozes que cria. No fundo, reconhece que são sempre ele, porque todas passam por ele. Porque não há mais nada, mais material aonde ir buscar, a não ser a si mesmo. Os seus livros estão no limiar da autobiografia.

Sobretudo os últimos. “Acabamos por só falar daquilo que, no fundo, conhecemos. Nos primeiros, tive de fazer aquela catarse, de me libertar da guerra e das coisas horríveis que vivi.”

"Eu sei que ninguém escreve como eu. Sei que sou bom. Nunca fiz maus livros. Não tenho falsa nem verdadeira modéstia."

Escrever dá-lhe uma inquietação e um medo muito grande. Espanta-o que as pessoas gostem das suas crónicas. Porque ele joga a vida nos livros. Quanto mais trabalha, melhor escreve. “Escrever bem não é escrever uma página, é escrever 300 para ficar uma boa. Isto não é um milagre e dá muito trabalho. Se eu estiver um ano sem escrever e agarrar numa folha, faço uma merda. A excelência vem do trabalho.”

"Não tenho muito jeito para viver. E acho que os livros são a minha redenção."

Escreve dez horas por dia, sete dias por semana, com uma disciplina que poucos escritores no mundo devem ter. Tirando as viagens ao estrangeiro, sempre por causa dos livros, pouco sai de casa. “Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.”

"Gosto da parte masculina das mulheres, mas não gosto da parte feminina dos homens."

Confessa que como mulheres, os homens deixam muito a desejar. Tanto nos livros como nas crónicas, coloca-se muitas vezes dentro de uma voz feminina. “Não sei porquê… Gosto dos homens que são tão homens que não têm medo de serem mulheres.”

"Quero acabar em 2020. Não me importo de deixar de escrever."

A Última Porta Antes da Noite é o seu último romance, publicado no final do ano passado. “Às vezes, penso que talvez tenhamos nascido com certo número de livros cá dentro. Se eu não os escrever, a minha vida não tem sentido.” À medida que os anos foram passando, percebeu que escrever era muito difícil. “A partir dos 40 começa-se a notar e a vida passa a ter um peso que não havia, parece que nos empurra para baixo e temos menos paciência para certas coisas.”

FONTES: DIÁRIO DE NOTÍCIAS [1, 2], VISÃO [1, 2, 3, 4, 5], PÚBLICO, SÁBADO, SAPO, JORNAL DE NEGÓCIOS, EXPRESSO,