Recordar Variações: na tela e nos livros

Fotografia: Teresa Pinto

Se o filme sobre a vida de António Variações lhe aguçou a vontade de saber mais sobre a vida deste que foi um dos mais influentes músicos e compositores do panorama musical português, temos a solução perfeita para si.

Na única biografia escrita sobre o artista, Manuela Gonzaga, historiadora e ativista, acompanha o leitor numa viagem íntima pelos seus breves (mas intensos) 39 anos de vida – desde a curta infância em Fiscal, à mudança para Lisboa, em busca do sonho de fazer música, até à sua concretização, esta é uma leitura indispensável para todos os admiradores de Variações.

Partilhamos consigo algumas das curiosidades que poderá descobrir em  António Variações – Entre Braga e Nova Iorque.

1. DO MINHO PARA O MUNDO

António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu na freguesia de Fiscal, no concelho de Amares, em 1944. Um de 12 filhos de uma família de origens humildes, sentiu, desde cedo, a vontade de partir que imortalizou na sua canção “Estou além”. Sair de Fiscal era, para si, não só uma forma de conhecer novos lugares mas também de procurar novas oportunidades, longe do trabalho no campo, onde começou a ajudar os pais desde muito novo. Tendo herdado do seu pai, que tocava o cavaquinho e acordeão, o amor pela música, partiu para Lisboa em busca desse sonho. A isso, seguiu-se o serviço militar em Angola e, mais tarde, as viagens a Londres, Amsterdão e Nova Iorque.

António Variações com a sua mãe, Deolinda de Jesus, na sua terra-natal.
2. UM SOM ENTRE BRAGA E NOVA IORQUE

Quando pediram a Variações que definisse a sua música, o músico respondeu que era alguma coisa “entre Braga e Nova Iorque”. Às suas origens minhotas, foi buscar o folclore e aos sons cosmopolitas de Londres e Nova Iorque, os sintetizadores e o rock. Foi, contudo, em Lisboa que nasceu a sua maior inspiração – Amália Rodrigues. Nela admirava, sobretudo, a forma como era capaz de transmitir emoções apenas com a voz, ultrapassando as próprias palavras.

Embora seja reconhecido como um dos músicos mais emblemáticos da música portuguesa, a verdade é que António Variações (que, em Lisboa, começou a trabalhar como barbeiro), nunca aprendeu música. Era, contudo, algo que lamentava: “[G]osto muito do som da tesoura, mas não há nada que chegue ao som de uma viola, de uma guitarra ou de um violino. Só lamento não ter tido a formação musical necessária que agora me ia fazer muito jeito. Já em miúdo apanhei muitas vergonhas por ser apanhado em frente ao espelho a trautear umas canções.”

3. LÁ VAI O MALUCO, LÁ VAI O DEMENTE

Na canção “Sempre Ausente”, António Variações parece falar para si próprio quando canta sobre a solidão de alguém que, cada vez que passa na rua, todos comentam: “Lá vai o maluco, lá vai o demente”. A verdade é que o país dos brandos costumes levou algum tempo a aceitar a excentricidade do músico. Vestindo cores berrantes, blusas decotadas e, frequentemente, brincos (o que, conta o próprio, levou a que um dia lhe chamassem de “mulher com barba”), Variações fazia rodar as cabeças onde quer que fosse.

Um dos seus muitos visuais icónicos foi o que envergou numa das suas aparições televisivas no programa “A Festa Continua“, de Júlio Isidro, no qual apareceu vestido com um pijama com coelhinhos e um urso de peluche. Para além disso, também o facto de ter trabalhado no primeiro salão unissexo de Lisboa, foi alvo de muitos comentários, levando a que, diariamente, muitos se deslocassem ao salão apenas para o observar.

O ator Sérgio Praia como António Variações no filme "Variações" (2019) de João Maia.
4. OLHAR PRA TRÁS, PENSAMENTO EM FRENTE

Em entrevista, explicou porque escolheu Variações como nome artístico: “Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos.” Talvez seja por isso que, 35 anos depois da sua morte, a sua música continua a ser ouvida e a sua personalidade a mover multidões.

A corroborá-lo está o facto de o filme sobre a sua vida ser já o filme português mais visto do ano e ter levado mais de 130 mil pessoas ao cinema. António Ribeiro pode não ter vivido para ver a sua música alcançar o estatuto que tem hoje ou as inúmeras homenagens que lhe têm sido feitas desde então, mas Variações viverá para sempre.

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Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa