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Monja Coen: “Se Buda estivesse vivo, usaria as redes sociais”

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Confunde-nos quaisquer ideias pré-concebidas e desarma-nos logo nos primeiros segundos. Há, na sua voz, uma ternura que nos faz mergulhar nas palavras que lhe saem quase num sussurro. É uma das figuras budistas mais conhecidas da América Latina, tem mais de um milhão de seguidores nas redes sociais e esteve recentemente em Portugal, a propósito do lançamento do seu novo livro. Entre palestras e entrevistas, no Porto e em Lisboa, recebemo-la na livraria mais antiga do mundo.

Jornalismo, rock e a descoberta da meditação

Cláudia Dias Baptista de Souza nasceu em São Paulo, Brasil, em 1947, no seio de uma família católica, de ascendência portuguesa, e estudou num colégio de freiras. Casou aos 14 anos, foi mãe aos 17 e divorciou-se. Estudou direito e foi jornalista. Numa fase mais conturbada, tentou o suicídio. Ao entrar na Suécia com LSD, acabou presa durante 5 meses – reclusão que acabou por aproveitar para começar a meditar e ouvir Pink Floyd. Esteve casada 7 anos com Paul Weiss, técnico de iluminação da banda de Alice Cooper.

Foi enquanto repórter que começou a ter contacto com o budismo e a interessar-se pela meditação: “Eu percebi como era interessante. Os Beatles meditavam, quando eu escutava a música deles achava as letras muito profundas e havia uma imensa a capacidade de comunicação. Então eu pensei ‘esses caras meditam. O que é isso?’. Havia tantas pessoas que eu considerava grandes comunicadores de massa que meditavam.” (via Bradesco Universitários).

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O livro que abriu a porta

Por intermédio de um vizinho, teve acesso ao livro que, assume, foi determinante na opção de vida que tomou: Alfa Brain Waves, de Jodi Lawrence. De acordo com a autora, que apresentava algumas descobertas da neurociência, quando estamos num estado de meditação profunda, estamos num estado alfa, estamos completamente naquele momento, como um guarda-redes quando tem de defender um penalti, por exemplo.

“Achei muito interessante e pensei: Será que eu atinjo o alfa? Tentei procurar uma clínica, na lista telefónica, e não encontrei. No livro falava de monge zen e perguntavam para ele: O que é que você acha de usar eletrodos para induzir o estado alfa? E ele disse: De que é que adianta entrar pela janela? Eu pensei: Eu quero essa porta.”

A Monja que vendeu o seu carro

Na década de 1970, foi morar em Los Angeles, Califórnia, onde trabalhou no Banco do Brasil S.A. e começou a praticar zazen, uma prática meditativa de observação, que busca o autoconhecimento do ser humano, no Zen Center of Los Angeles. A 14 de janeiro de 1983, fez os votos monásticos e, em outubro, entrou para o Mosteiro Feminino de Nagoya, Aichi Senmon Nisodo e Toku Betsu Nisodo. Foi aqui que permaneceu durante 8 anos, acabando por se graduar como monja especial (Tokuso), passando a estar habilitada para ser professora do Darma Budista de monges, monjas, leigos e leigas. Foi a primeira pessoa (e a primeira mulher), de origem não japonesa, a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil.

Vendeu o carro e foi para o Japão, onde estudou e fez pós-graduação num mosteiro feminino. Acabou por conhecer um monge japonês com quem casou, tendo esta união terminado sete anos depois.

"Se Buda estivesse vivo, usaria as redes sociais"

No seu canal no Youtube, Mova, aborda temas com que, de uma forma ou outra, todos nos relacionamos, com naturalidade, simplicidade e, muitas vezes, humor. Sentimo-nos num diálogo íntimo, uma viagem interior guiada pela doçura e segurança com que fala. Defende que a exposição e as redes sociais permitem divulgar os ensinamentos de forma muito mais rápida e eficaz do que acontecia antigamente: “Eu acho que se Buda estivesse vivo, ele usaria tudo o que é possível. Naquela época, para divulgar seus ensinamentos, ele caminhava e falava com as pessoas e não tinha nem carro.”

O fim é o princípio

“Começo pelo início da minha existência, em profunda gratidão aos meus pais e avós, que amavam a literatura, a poesia, as artes e me ensinaram a ler. (…) Gratidão aos autores que me deslumbraram na infância: Eça de Queiroz, Olavo Bilac, Monteiro Lobato, Cassiano Ricardo. Eça foi o primeiro – os livros proibidos pelo meu pai foram sem dúvida os mais instigantes.” in A Sabedoria da Transformação

É desta forma que a Monja Coen inicia a introdução do seu novo livro, A Sabedoria da Transformação. Voltando ao início de tudo, nós, já quase a terminar a visita à livraria mais antiga do mundo, na sala Eça de Queiroz, decidimos presenteá-la com um exemplar de O Mandarim, um dos primeiros livros proibidos que terá lido. O brilho nos olhos e o sorriso desarmante acabaram por nos emocionar a todos. É deste contágio que é feito o ADN dos livros. Com as mãos em prece, e visivelmente emocionada, ainda acedeu prontamente a deixar uma mensagem aos nossos leitores.

Marisa Sousa
Coordenadora Editorial