Fernando Pessoa sobre Alberto Caeiro Setembro 24

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O nascimento de Alberto Caeiro em Fernando Pessoa

Fernando Pessoa sobre Alberto Caeiro

A chuva, hoje, despertou-nos a lembrança do poeta (Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol / Ambos existem; cada um como é) e, ao folhear a Revista Persona, fomos recordar as circunstâncias do nascimento de Alberto Caeiro, descritas por Pessoa, na célebre carta a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935:

“(…) Lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já não me lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim.” 

in Persona, Vol. 2 (Tinta-da-China)

Álvaro de Campos, seu heterónimo, dá-lhe corpo, descrevendo o momento em que o viu diante de si: 

“Vejo-o diante de mim, vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não têm medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo-nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava — como se falar fosse, para este homem, menos que existir — era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam — flores, campos largos, águas com sol — um sorriso de existir, e não de nos falar.”

Persona, de Fernando Pessoa

Todos os números da revista que se dedicou exclusivamente a Fernando Pessoa. Durante quase dez anos, de 1977 a 1985, a Persona foi uma espécie de antecâmara da dimensão nacional e internacional que a obra de Fernando Pessoa viria a ter.

Somos do tamanho do que lemos

E se nada nos salva da chuva, que a poesia nos continue a acontecer, pela mão do Mestre Ingénuo, Alberto Caeiro, porque somos todos do tamanho do que vemos. E do que lemos.

Poesia de Alberto Caeiro

Esta é a terceira edição da poesia completa de Alberto Caeiro na série das obras de Fernando Pessoa publicadas pela Assírio & Alvim.