D. Quixote de la Mancha: a reinvenção de um clássico

Frame do filme "Don Quixote" que o realizador Orson Welles nunca chegou a terminar.

“Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo (…).” É assim que começa um dos mais importantes clássicos da literatura mundial, Dom Quixote de la Mancha, do autor castelhano Miguel de Cervantes. Publicado pela primeira vez em 1605, é considerado o primeiro romance moderno, por ter sido pioneiro na utilização de elementos narrativos como um narrador não confiável ou a metaficção, quebrando a “4ª parede.

Por esta razão e por outras, tem conquistado leitores de todo o mundo, ao longo do tempo, tendo mesmo sido eleito como o melhor livro do mundo num inquérito feito a 100 escritores de 54 paísesNo dia em que assinalamos 472 anos do nascimento de Cervantes, olhamos para algumas das inúmeras reencarnações desta que é reconhecida como a sua obra-prima. Como poderia dizer o conhecedor de ditados populares e leal companheiro de D. Quixote, Sancho Pança: “O homem passa, a obra fica”E dentro de cada leitor e amante de livros, há um D. Quixote e um Sancho que caminham juntos, lado a lado, até à eternidade.

duas adaptações (malfadadas) ao GRANDE ECRÃ

Sendo um dos livros mais lidos e traduzidos do mundo inteiro, é apenas natural que vários realizadores tenham tentado adaptá-lo ao grande ecrã. Uma das mais icónicas adaptações da história de D. Quixote ao cinema é a do realizador norte-americano Orson Welles. Inteiramente financiado pelo realizador, Don Quijote (1957) levou décadas a ser feito e foi o último projeto de Welles, que morreu antes de o terminar. Neste, a história era abordada a partir da perspetiva do século XX, sendo possível ver (no que foi possível restaurar do filme inacabado) uma cena em que D. Quixote e Sancho Pança vão ao cinema. 

Mais recentemente, em 2018, estreou a muito aguardada adaptação de Terry Gilliam, realizador e ator que fazia parte do grupo de comédia Monty Python, The Man Who Killed Don Quixote. Gilliam começou a fazer o filme em 1998, mas a impossibilidade de garantir financiamento para o mesmo, a destruição de cenários e equipamento causada por uma inundação,  a demissão do ator principal devido a uma doença, entre outras dificuldades, fizeram com que este só visse a luz dia quase 30 anos após a produção inicial, e com um elenco totalmente diferente. Esta primeira tentativa falhada está documentada no filme Lost in La Manchade 2002, que deveria ter sido um making-of do primeiro.

Frame do filme "The Man Who Killed Don Quixote" (2018) de Terry Gilliam.
48 HORAS A LER DOM QUIXOTE de la mancha

As mais de 1.000 páginas de Dom Quixote de la Mancha podem ser intimidantes para quem nunca o leu. Contudo, desde 1997 que o Círculo de Bellas Artes de Madrid organiza, anualmente, uma leitura pública em voz alta da obra completa, sem interrupções. O evento dura cerca de 48 horas e são convidadas várias personalidades relevantes do mundo da política e da cultura para participarem, à vez, na declamação. A leitura é ainda transmitida na rádio e online – é possível assistir à 23ª edição da mesma, que decorreu no passado mês de abril, no vídeo abaixo. Se vir o vídeo até ao fim, terá lido, na íntegra, um dos mais importantes clássicos da literatura. Se já o leu, poderá recordar as aventuras de D. Quixote e Sancho Pança de uma forma diferente.

DOM QUIXOTE É PARA MENINOS

Se há quem ache que os clássicos são maçudos e difíceis de entender, as inúmeras adaptações da obra de Cervantes para crianças são a prova de que todos podem aprender alguma coisa com eles. Em Portugal, podemos destacar duas edições de D. Quixote de la Mancha, para duas faixas etárias diferentes. A primeira, O Meu Primeiro Dom Quixotefaz parte de uma coleção que, como indica o título, pretende oferecer às crianças um primeiro contacto com autores e obras literárias importantes (fazem parte desta, por exemplo, O Meu Primeiro Fernando Pessoa, O Meu Primeiro Eça de Queirós ou A Minha Primeira Sophia). Às ilustrações do famoso humorista Mingote, juntam-se as palavras divertidas e descomplicadas de Alice Vieira, que traduziu a obra do castelhano. 

O segundo, Dom Quixote de la Mancha contado tipo aos jovensdirige-se a uma faixa etária mais adolescente. Contudo, mesmo os adultos poderão desfrutar desta edição da coleção “Os livros estão loucos“, da editora Guerra e Paz, que reimagina obras já conhecidas do público, com uma linguagem atual e um grafismo inovador.

Seja como for que descubra ou redescubra D. Quixote, no final, fica a certeza, já enunciada por Italo Calvino de que “[u]m clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer“.

Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa