Os Livros que aí vêm e o amor à camisola

Ler no Chiado

A mais recente sessão  Ler no Chiado decorreu, como já é hábito, sob o olhar atento de Almada Negreiros, patrono da sala onde esta normalmente decorre, para quem os livros eram sempre muitos e o tempo sempre escasso. Com a sala cheia, e por entre o vaivém contínuo dos muitos visitantes que enchem a livraria, Isabel Lucas esteve à conversa com Diogo Madre Deus, Maria do Rosário Pedreira e Nuno Rodrigues, sobre a reentrée literária e sobre o modo como, com o passar dos anos, se foi alterando a forma como se publicam livros.

Ler no Chiado

Maria do Rosário Pedreira, Nuno Rodrigues e Diogo Madre Deus

A Rentrée Literária em Portugal

Isabel Lucas já é da casa. Na passada quinta-feira, 26 de setembro, a jornalista e crítica literária trouxe para a mesa um tema que desperta a curiosidade de qualquer leitor: “Que livros aí vêm?”

A rentrée literária, no último trimestre do ano, é a época mais aguardada por editores, livreiros e leitores e a mais importante do ano editorial. Maria do Rosário Pedreira, editora no Grupo LeYa, explicou a origem do conceito, que está de mãos dadas com a rentrée scolaire – expressão com berço em França: “Depois de um período de descanso e de recarregar baterias, é a melhor altura para levarmos nas ventas com tudo o que há de novo“, disse, de forma divertida.

Todavia, e ainda que seja uma altura importante no mundo editorial, acaba por ser um período a evitar se o objetivo for estrear novas obras. “Publico sobretudo jovens autores, portanto tenho que me reduzir à minha insignificância”, continuou, esclarecendo que, nestes meses, os bons lugares nas livrarias vão ser ocupados pelos craques, o que deixa pouco espaço para os restantes autores, que acabam por não conseguir ter a visibilidade desejada.

Do outro lado do sofá, Diogo Madre Deus partilhou da mesma opinião. Foi um dos fundadores da editora Cavalo de Ferro e, presentemente, colabora também como editor da Elsinore. “A rentrée marca o início de um ciclo que se perpetua, é sobretudo simbólico”, categorizando-o como o ano novo do livro. À semelhança da colega, não gosta de estrear autores nesta altura, a não ser que sejam autores que considere terem já alguma armadura

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Ler no Chiado, Diogo Madre Deus
O Boca-a-Boca continua a vender?

O livreiro pode fazer a diferença na venda de um livro? Nuno Rodrigues, livreiro na Livraria Bertrand do Chiado, acredita que sim. E para o corroborar, partilhou uma história sobre o livro Stoner, de John Williams, que alcançou um lugar no top de vendas, graças a um colega, que o passou a recomendar a todos os clientes, depois de o ter lido. “Há algumas coisas previsíveis; tentamos estar informados, ouvimos opiniões de colegas e leitores, mas, às vezes, há surpresas”.

O boca-a-boca continua a ser muito importante e isso é algo em que os três convidados se mostraram inteiramente de acordo. A opinião de alguém em quem se confia, continua a ser essencial na compra de um livro, e o papel do livreiro faz a diferença. E, quando o livreiro não pode, ficam os livros recomendados em programas televisivos, como o de Cristina Ferreira, ou os livros recomendados pelo Presidente da República. Essas são sugestões que continuam a influenciar bastante a procura, ressalvou o livreiro Nuno Rodrigues.

Ler no Chiado
Ler no Chiado, Maria do Rosário Pedreira
A Leitura num País sem vontade de Ler

Maria do Rosário Pedreira trabalha no mundo editorial desde 1987. São mais de 30 anos de muitos autores, muitos livros, muitas histórias. Do seu regaço, saíram escritores que hoje vivem apenas da escrita, como é o caso de José Luís Peixoto ou Valter Hugo Mãe.

Mas esta é uma realidade que não é comum a muitos outros escritores, principalmente num país com uma produção editorial tão pequena como em Portugal. “Durante várias gerações, as de Cardoso Pires e Lídia Jorge, as pessoas tinham uma profissão e escreviam nos tempos livres. Com a industrialização da edição, os autores começaram a querer ser profissionais da escrita – o que é lícito”, explicou. “É difícil, num país que não tem massa crítica, onde as tiragens médias são de 2.000 exemplares, viver da escrita.”

A editora, que é simultaneamente escritora e poetisa, assegura que um dos maiores entraves é a falta de hábitos de leitura no país. Uma sondagem, do jornal Expresso, concluiu que 47% dos portugueses não lê um livro há mais de seis meses, um resultado que Maria do Rosário Pedreira considera preocupante. “Trabalhar num mercado destes é dramático, é mesmo amor à camisola.”

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Falando expectativas, quanto aos livros que saíram recentemente, ou estão para sair, Nuno Rodrigues espera ansiosamente por Augustus, o novo romance de John Williams, depois de ter terminado o ensaio de Ken Follett, Norte-Dame. Maria do Rosário Pedreira referiu a sua última leitura, uma das grandes apostas da Porto Editora, o romance que ganhou o Man Booker Prize 2018: Milkman, de Anna Burns

A sessão terminou e ficou-nos a certeza, a todos, que não chegamos para todas as sugestões, todas as estreias e publicações, associadas à rentrée. Antes de fechar as portas, olhamos as estantes e recordamos Almada Negreiros: “Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria!” 

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa